POLÍTICA

A estratégia de Bolsonaro para diminuir a violência é dobrar o número de mortes por policiais

"Vocês querem que a polícia não atire?"

27/11/2017 16:14 -02 | Atualizado 27/11/2017 16:40 -02
Stringer . / Reuters
Jair Bolsonaro: "Não dá para combater violência com políticas de paz e amor".

Por mais que o Brasil seja o País no qual mais pessoas morrem vítimas da polícia, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), segundo colocado nas pesquisas para a Presidência, deixa uma reflexão no ar:

Vocês querem que a polícia não atire?

O questionamento, com tom irônico, foi feito ao jornalista Fernando Mitre, em entrevista ao programa da Band Canal Livre.

Segundo o deputado, se morrerem 40 mil bandidos por intervenção policial, "temos que passar para 80 mil".

O parlamentar não vê outro caminho. "Não dá para combater violência com políticas de paz e amor."

"Policial que não mata não é policial", endossou nesta segunda-feira (27), em evento Amarelas ao Vivo, organizado pela Veja.

Polícia que mais mata

A estratégia de Bolsonaro é controversa.

Dados do 11º Anuário de Segurança Pública indicam que a quantidade de pessoas mortas por policiais aumentou 25,8% de 2015 para 2016 e chegou a 4.224.

De 2009 para 2016, 21,9 mil pessoas perderam suas vidas em ações policiais. Quase todos homens, com idade entre 12 e 29 anos, três em cada quatro eram negros.

O aumento de pessoas mortas por policiais, no entanto, não significa maior sensação de segurança.

O índice de mortes violentas também cresceu de 2015 para 2016. O aumento foi de 3,8%, com 61.619 mortes violentas - maior número já registrado no País.

"(Mortes por policiais) não resolvem, nunca resolveram, dão uma falsa sensação de segurança", avaliou ao HuffPost Brasil, o ex-investigador da Polícia e e ex-subsecretário nacional de Segurança Pública Guaracy Mingardi.

Preto, pobre e de periferia

O ex-investigador destaca que geralmente quem morre nessas ações são 'pretos, pobres e de periferia'. Para ele, a declaração de Bolsonaro mostra interesse apenas em um tipo de eleitor, "o de classe média, porque o pobre tem que ser colocado em seu lugar".

"O sujeito que é roubado hoje e ao ouvir dizer que a polícia matou alguém amanhã se sente vingado, mas não é verdade porque a pessoa não tem nada a ver. É uma sensação de querer vingança."

Boa prevenção e investigação são dois dos fatores que efetivamente podem diminuir a criminalidade, diz Mingardi. Isso significa a polícia estar nos lugares com maior incidência de crimes, atender rapidamente e solucionar as ocorrências.

"São coisas que resolvem, não é tiroteio na rua em que sempre acaba morrendo uma pessoa que não tem nada a ver. Basta ver as mortes por bala perdida no Rio de Janeiro."

Mingardi alerta ainda que a polícia que mais mata também acaba se tornando a que mais morre.

Os dados do anuário confirmam que os policiais também são vítimas. Foram mortos no ano passado 437 policiais civis e militares, aumento de 17,5% em relação a 2015.

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