MULHERES

'Ele estava se masturbando. Senti vontade de chorar': O que as camareiras enfrentam em quartos de hotel

Trabalhadoras mal pagas vêm enfrentando assédio sexual há anos. Finalmente a discussão nacional sobre o tema está chegando até elas.

25/11/2017 14:57 -02 | Atualizado 25/11/2017 14:57 -02

Simon Dawson/Bloomberg via Getty Images

Cecilia trabalhava como atendente de minibar em um hotel de Chicago quando bateu na porta de um dos hóspedes do hotel e se anunciou. A resposta do hóspede foi imediata e inequívoca: "Pode entrar".

Quando ela abriu a porta, "ele estava ao computador, se masturbando", Cecilia recorda. Ela ficou em choque, totalmente constrangida. A julgar pela expressão de satisfação no rosto do homem, era justamente esse seu propósito.

"Me senti suja", recordou Cecilia, pedindo que seu sobrenome e o hotel em questão não fossem identificados. "A gente já sabe que algo desse tipo pode acontecer com pessoas em um presídio, mas não em um trabalho normal. Fiquei com vontade de chorar."

Não foi a única vez que Cecilia enfrentou assédio sexual extremo em suas três décadas de experiência trabalhando em hotéis da cidade. Uma vez, quando ela bateu à porta de um quarto, o hóspede abriu a porta completamente nu. Um mês e meio atrás uma colega mais jovem contou a Cecilia que um hóspede tentara abraçá-la quando ela estava limpando seu quarto. Cecilia acompanhou a arrumadeira nervosa até a equipe de segurança do hotel para registrar a ocorrência.

Desde que as acusações ao produtor de cinema Harvey Weinstein vieram à tona, no mês passado, cada vez mais mulheres estão vindo a público relatar incidentes de assédio e agressão sexual que sofreram no trabalho. A coragem delas de manifestar-se já levou à queda profissional de homens poderosos em Hollywood, no Vale do Silício e em Washington. Mas muito menos atenção vem sendo dada ao assédio sexual que é tão onipresente em locais com trabalhadores de colarinho azul, especialmente no setor hoteleiro.

Muitas das histórias que vêm fazendo manchetes – sobre Weinstein, o jornalista Mark Halperin, o humorista Louis C.K. – envolvem homens poderosos que assediaram subalternas ou colegas em quartos de hotel. É uma tendência que não deve surpreender a mulher alguma que já trabalhou como camareira. Se atrizes famosas são obrigadas a encarar investidas indesejadas na privacidade de uma suíte de hotel, imagine como é vulnerável uma trabalhadora imigrante que está limpando um quarto sozinha, recebendo pouco mais que o salário mínimo, mais gorjetas.

"Francamente, acho que a maior parte do público não faz ideia do que as arrumadeiras sofrem apenas para limparem esses quartos e fazerem seu trabalho", disse Maria Elena Durazo, líder do sindicato Unite Here de trabalhadores do setor de hospitalidade.

O sindicato dela luta há anos para que as camareiras recebam aparelhinhos sem fio do tipo "botão de pânico" com os quais possam alertar a segurança do hotel quando se sentem ameaçadas. É um sinal de quão seriamente ele encara o problema da predação sexual no setor hoteleiro. Depois de negociar a inclusão dos botões de pânico em seus contratos de trabalho, agora o sindicato está trabalhando junto às câmaras de vereadores das cidades para torná-los obrigatórios, por meio de uma legislação, para que todos os trabalhadores, sindicalizados ou não, possam ter acesso a eles.

"Neste setor o freguês sempre tem razão. Eu deixei para lá." Nereyda Soto, funcionária de um restaurante em Long Beach, Califórnia, que foi assediada por um freguês.

Mas, segundo Durazo, os botões de pânico ajudam até certo ponto, mas não resolvem o problema mais fundamental: a disparidade de poder econômico entre os perpetradores e suas vítimas, especialmente quando as vítimas são trabalhadoras pobres. "Precisamos fazer alguma coisa para reduzir essa disparidade de poder, para que as mulheres realmente possam denunciar o que acontece sem precisarem colocar seus meios de subsistência em risco", ela disse. "Isso se aplica igualmente a quem é arrumadeira, garçonete ou atriz famosa."

No ano passado o sindicato Unite Here fez uma pesquisa com 500 de seus filiados na região de Chicago que trabalham em hotéis e cassinos como arrumadeiras e garçons. Muitos são imigrantes de origem latina e asiática. Os resultados foram preocupantes:

  • 58% das trabalhadoras em hotéis e 77% das funcionárias de cassinos disseram já ter sido sexualmente assediadas por um hóspede.

  • 49% das funcionárias de hotéis disseram que já lhes aconteceu de um hóspede atender a porta nu ou então se exibir para elas de outra maneira.

  • 56% das funcionárias de hotel que relataram ter sofrido assédio disseram que depois disso deixaram de sentir-se em segurança no trabalho.

  • 65% das profissionais que servem coquetéis em cassinos disseram que um hóspede as tocara ou tentara tocá-las sem permissão.

  • Quase 40% das funcionárias de cassinos disseram que já foram pressionadas para sair com um freguês ou lhe prestar um favor sexual.

Nereyda Soto, 25 anos, trabalhava no restaurante de um hotel em Long Beach, Califórnia, dois anos atrás, quando a atenção que um freguês lhe prestou no decorrer de vários dias começou a lhe parecer perseguição. O homem vivia chamando Soto até sua mesa quando ele estava no restaurante e lhe fazia perguntas pessoais, por exemplo querendo saber se ela tinha namorado. Soto, que na época era relativamente novata no trabalho, não se sentiu à vontade para mandar um freguês pagante às favas.

Uma noite, quando ela foi à mesa do freguês para receber seu cheque, encontrou uma chave de hotel junto com o pagamento. "Ele falou: 'Eu adoraria ver como você fica sem esse uniforme. Venha me ver no meu quarto.'"

Soto se sentiu humilhada, mas não contou a seu chefe na época.

"Não falei à direção do hotel e não contei à segurança, porque tecnicamente falando o homem não tocou em mim e neste setor o freguês sempre tem razão", ela explicou. Mesmo que ela denunciasse, não imaginava que a empresa fosse tomar alguma atitude e não queria passar a impressão de ser uma funcionária que causa problemas. "Eu não queria que meu nome ficasse marcado. Então deixei para lá."

Essa experiência levou Soto a participar de uma campanha em Long Beach para levar botões de pânico aos trabalhadores hoteleiros da cidade. Liderada pelos sindicatos, a ideia de equipar camareiras de hotel com um aparelho para alertar a segurança dos hotéis começou a ganhar força em 2011, depois de o político francês Dominique Strauss-Kahn ser acusado de agredir uma arrumadeira em um hotel de Nova York. No ano seguinte, o conselho dos trabalhadores do setor hoteleiro de Nova York fechou um contrato para 30 mil trabalhadores que garantiu o uso de botões de pânico para as arrumadeiras cobertas pelo acordo.

"Acho que a maior parte do público não faz ideia do que as arrumadeiras sofrem apenas para limparem esses quartos e fazerem seu trabalho." Maria Elena Durazo

Em Long Beach, o sindicato de Nereyda Soto seguiu uma tática diferente: tentou conquistar os botões de pânico por meio de legislação, para que essa proteção fosse dada a todos os funcionários de hotéis da cidade, e não apenas aos que contam com um contrato negociado por sindicato. A câmara de comércio local fez campanha contra a legislação, calculando que ela custaria cerca de US$3 milhões aos hotéis afetados. Em setembro, após um esforço que durou um ano, a câmara dos vereadores de Long Beach rejeitou a medida proposta por cinco votos contra e quatro a favor.

Uma medida semelhante defendida pelo sindicato Unite Here em Chicago se saiu muito melhor. A câmara municipal aprovou no mês passado uma norma que ficou conhecida como "Hands Off, Pants On" ("não encoste as mãos e não tire as calças"). Ela exige que os hotéis forneçam botões de pânico às arrumadeiras e outros profissionais que trabalham sozinhos em quartos e banheiros de hóspedes. A medida tem prazo de até 1º de julho de 2018 para ser implementada. Ela também requer que os hotéis articulem políticas de combate ao assédio sexual, mostrando às funcionárias como denunciar incidentes e dando tempo a elas para registrarem boletins de ocorrência junto à polícia.

Diferentemente do contrato negociado pelo sindicato em Nova York, a medida aprovada em Chicago se aplicará a todos os hotéis da cidade, independentemente de seus funcionários serem sindicalizados ou não. Uma medida semelhante foi aprovada em Seattle no ano passado.

A campanha de Chicago provavelmente foi fortalecida após a divulgação dos resultados de uma pesquisa com seus filiados sobre assédio, que Jorge Ramirez, presidente da central sindical Chicago Federation of Labor, qualificou como "espantosos". Ramirez disse que o lobby dos hotéis de Chicago não se opôs ativamente à medida. Ele previu que, com a nova discussão nacional sobre o assédio sexual no trabalho, ficará mais difícil fazer oposição.

"Não vimos o setor dos hotéis festejando, mas ele tampouco se manifestou contra a nova medida", disse Ramirez. "Acho que ele teria dificuldade em se opor, especialmente em vista de tudo que tem vindo à tona nos últimos meses."

Para comemorar a aprovação da medida, as arrumadeiras usaram camisetas dizendo "Nada de Harveys em Chicago". Uma das que estava festejando era Cecilia, que passou meses incentivando suas colegas a defender a causa. Ela espera que os botões de pânico ajudem a dar mais segurança a trabalhadoras como a jovem arrumadeira que ela ajudou menos de dois meses atrás.

"É mais segurança, mais apoio", disse Cecilia. "Acredite em mim, ninguém deveria ficar com medo de trabalhar."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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