MULHERES

11 mulheres revisitam os lugares onde sofreram assédio sexual

"Elas estão reivindicando a posse daquela experiência", diz a fotógrafa Eliza Hatch

25/11/2017 18:23 -02 | Atualizado 25/11/2017 18:29 -02
Eliza Hatch
Foto do projeto "Cheer Up Luv", de Eliza Hatch.

No começo deste ano, Eliza Hatch estava caminhando pelas ruas de Londres quando um homem passou por ela e disse: "Cheer up [anime-se]". Aquelas duas palavras levaram a fotógrafa de 23 anos a criar um poderoso projeto fotográfico sobre assédio sexual, apropriadamente intitulado "Cheer Up Luv" (Anime-se, Amor).

A série de fotos retrata dezenas de mulheres nos diferentes lugares onde homens fizeram gracejos ou as assediaram sexualmente. Todas elas compartilharam suas histórias de assédio sexual; muitos casos ocorreram em lugares públicos como calçadas, esquinas e praças.

Hatch disse ao HuffPost que, depois que esse estranho disse para ela "se animar", ficou realmente com raiva.

"Aquela única frase, a qual estou acostumada a escutar, finalmente me irritou tanto ao ponto de ter de fazer alguma coisa", disse. "Aquilo me levou a conversar sobre assédio com minhas amigas e acabamos compartilhando histórias por mais de uma hora, conversando sobre assédio sexual como se fosse a coisa mais normal do mundo."

Hatch disse que decidiu começar o projeto depois que seus amigos homens expressaram "incredulidade e horror" ao tomarem conhecimento de que ela e suas amigas sofriam tamanho assédio sexual.

"Percebi que o problema não era apenas o assédio em si, mas a consciência em torno disso", afirmou.

("Eu estava indo para o trabalho e tinha alguns minutos para descansar, então me sentei em um banco próximo. Havia um homem [que estava] a alguns bancos distante de mim, ele se aproximou, puxou o pau para fora, e começou a se masturbar enquanto me encarava fixamente." - Krupa)

Hatch afirmou que a série foi bem-recebida, e uma quantidade enorme de mulheres de todas as idades, tamanhos e etnias quis participar.

"Foi terapêutico tanto para as mulheres envolvidas quanto para mim", disse. "Houve uma reação extremamente positiva das mulheres que fotografei, já que estão reivindicando a posse daquela experiência, e transformando uma situação onde antes foram vitimadas em outra onde são empoderadas."

Ela acrescentou que espera que esta série possa elevar as vozes das mulheres em conversas sobre assédio em espaços públicos.

"Este projeto é para as mulheres envolvidas e para as pessoas que têm histórias para compartilhar", Hatch disse ao HuffPost. "Quero dar voz às mulheres e continuar a aumentar a conscientização em relação a um problema sobre o qual falava-se pouco anteriormente."

Confira abaixo mais depoimentos do projeto fotográfico "Cheer Up Luv".

  • Jess
    Eliza Hatch
    "Estava indo para a casa depois do trabalho e falando ao telefone, prestes a atravessar a via. Um cara parou o carro no meio da via e me pediu para entrar. Eu disse que não e tentei dar a volta, então ele moveu o carro para bloquear minha passagem. Eu tentei ir para trás do carro, mas ele fez a mesma coisa. Ele então gritou: 'Entre no carro ou vou te atropelar!'. Eu então esmurrei meus punhos no capô do carro e gritei, o que deve tê-lo assustado. Isso me deu tempo para atravessar a via e fugir."
  • Florence
    Eliza Hatch
    "Há dois anos, eu estava indo para um supermercado em Marselha durante o verão. Um cara estava saindo do carro e disse: 'La pute c'est magnifique' [A puta é linda], enquanto eu passava."
  • Monica
    Eliza Hatch
    "Eu estava no metrô, e fui abordada por um homem que começou a me fazer perguntas. Éramos os únicos na plataforma, e ele me perguntou se eu era solteira, se eu era lésbica e, finalmente: 'Posso mostrar meu pênis?'. Ele estava me encurralando contra a borda da plataforma; por sorte, o trem chegou naquele momento, caso contrário não sei o que ele teria feito."
  • Gina
    Eliza Hatch
    "Eu havia acabado de me mudar para Nova York e um dia decidi ir para 'downtown'. Sentei-me no trem e um cara entrou e parou bem na minha frente, segurando no corrimão. Eu virei meu rosto e corpo para a direita para não ter o corpo dele na minha frente. Então, vi um movimento estranho ocorrendo à minha esquerda, no canto do meu olho. Era seu pênis para fora do zíper da calça, e ele estava esfregando-o. Eu rapidamente virei os olhos. Simplesmente achei que era algo doentio ele sequer pensar em fazer aquilo na minha frente. Sou baixa, por isso qualquer pessoa de pé na minha frente ficará no nível dos meus olhos com aquela parte do corpo. Havia milhares de assentos livres, e ele escolheu ficar justo na minha frente. Então rapidamente decidi descer na estação seguinte. Realmente não sabia o que fazer. Foi uma experiência estranha."
  • Maya
    Eliza Hatch
    "Depois de sair de uma discoteca com meus amigos e minha namorada, decidimos pegar um ônibus do outro lado da rua. Quando estávamos esperando o ônibus, um homem se aproximou e começou a conversar comigo. Eu disse imediatamente que era lésbica e que estava com minha namorada. Ele então encarou aquilo como um tipo de desafio, e me disse que eu apenas precisava de seu pau e tentou mostrá-lo para mim. Felizmente, meu amigo o interrompeu e conseguiu que ele fosse embora. Todo o incidente durou cerca de 20 minutos e foi muito traumático."
  • Gabriella
    Eliza Hatch
    "Quando eu tinha 15 anos, estava caminhando para a casa depois da escola como sempre, com meu uniforme escolar. Desta vez, no entanto, um homem em uma van ficou me mandando beijos. Decidi ignorá-lo, já que me causou repulsa, mas ele persistiu e ficou dizendo coisas. Depois de caminhar um pouco mais na via, olhei para trás e percebi que ele havia parado, estacionado a van, aberto as portas e caminhava em minha direção. Por sorte, eu estava na esquina de casa, então desci a rua correndo para chegar em casa e não olhei para trás."
  • Danielle
    Eliza Hatch
    "Eu estava sentada em um ônibus viajando pela Croácia, e quatro caras se sentaram na fileira de assentos na minha frente. Um deles sentou-se ao meu lado, sem ser convidado, e começou a puxar conversa. Nas duas horas seguintes, ele continuou se aproximando cada vez mais e até tentou me tocar e me acariciar. Ele tentou colocar as mãos por debaixo do meu macacão, e todas as vezes eu dizia para ele me deixar em paz. Havia um casal sentado na nossa frente, mas que não fez nada durante todo o tempo. Quando o ônibus parou, eu tentei me afastar e ele passou a mão no meu traseiro."
  • Jess
    Eliza Hatch
    "Quando tinha 12 ou 13 anos, eu e minhas amigas costumávamos pegar o ônibus para ir à escola, e um homem que devia ter cerca de 40 anos tentou tirar fotos com o celular de nossas saias -- a polícia acabou sendo chamada, mas, no final, disse que não podia fazer nada."
  • Dorina
    Eliza Hatch
    "Estava andando por uma rua em Manhattan, quando vi um homem caminhando em minha direção. A filha dele estava segurando sua mão, e o filho mais novo estava atrás dele, em um scooter. Quando a distância entre nós diminuiu, percebi que ele estava olhando intensamente para mim, examinando minhas pernas, meu vestido de verão, meu decote. Quando nossos caminhos se cruzaram, ele se inclinou em direção a mim e sussurrou: 'Hummm, eu gostaria de provar seu chocolate.' Eu fiquei muito horrorizada, porque a filha dele estava logo ali, vendo seu pai me atacar verbalmente, enquanto seu filho estava atrás, aprendendo as atitudes do pai."
  • Juliette
    Eliza Hatch
    "Eu tinha 19 anos e havia acabado de me mudar para Paris. Estava num trem lotado e havia um cara colado nas minhas costas, então ele começou a se mover na minha direção. Primeiro pensei que ele estivesse tentando sair do trem, mas, então, começou a sussurrar no meu ouvido. Eu virei para encará-lo, tentando mostrar que estava com raiva, mas ele colocou as mãos nos meus quadris e começou a se encostar. Eu então pisei com força no pé dele, e saí correndo do trem."

Confira mais depoimentos do projeto "Cheer Up Luv" de Hatch no Instagram.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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