LGBT

Na CPI dos Maus-tratos, curador do 'Queermuseu' diz que obras censuradas foram roubadas do contexto

Gaudêncio Fidélis alertou sobre os prejuízos em tirar obras como 'criança viada' do seu significado.

23/11/2017 19:49 -02 | Atualizado 23/11/2017 19:49 -02
Reprodução/Senado/Divulgação/Bia Leite
Gaudêncio Fidélis, curador da Queermuseu, em depoimento a CPI dos Maus-tratos.

Em depoimento a CPI dos Maus-tratos nesta quinta-feira (23), Gaudêncio Fidélis, curador da Queermuseu, alertou sobre o perigo da retirada de uma obra de arte de seu contexto e explicou não falaria para construir um "consenso", mas "esclarecer e resgatar o real significado" das obras.

"O que causou o choque foi o fato de que as obras foram retiradas de sua verdade e foram colocadas em outra narrativa. E isso é mais complexo do que um simples 'fora de contexto'. Fico preocupado. Quando falo de retirada de contexto é o fato de que a obra é roubada de seu significado e um outro é atribuído a ela - nesse caso, a acusação de pedofilia e zoofilia", explicou Fidélis, curador da mostra Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte.

A finalidade da CPI é investigar as irregularidades e os crimes relacionados as violências contra crianças e adolescentes no País. No entanto, o debate que prevaleceu na reunião foi sobre a influência que as imagens teriam na formação das crianças. Para Fidélis, é papel da arte incomodar o público.

"Quando eu falo em ferir sensibilidades eu não estou me desviando das perguntas. A arte não vai contentar a todos nós. A arte é um espelho, eu projeto nela as minhas crenças, preconceitos, disposições e indisposições com o outro. Essas obras são de natureza significativa e estão dispostas a discutir sobre nossa convivência e tolerância com o outro."

O curador, ainda, aproveitou o espaço para trazer as outras possibilidades de interpretação de algumas das obras que geraram polêmica.

Criança Viada

"A obra da Bia Leite com a frase 'criança viada' sempre foi sobre o bullying contra as crianças LGBTs. Essa obra é uma denúncia e foi feita sob a perspectiva da comunidade LGBT. As frases não são nada menos do que os xingamentos que as crianças recebem quando são alvo de bullying. Mas é claro que quando nós chegamos a essa obra é um choque para todo mundo, porque você tem que enxergar essa violência e não há escapatória."

Divulgação/Bia Leite

Zoofilia

"A obra da Adriana Varejão foi uma das que mais causou polêmica no processo da descontextualização. E todos nós fomos vítimas porque não fomos à mostra. Teve uma atribuição de zoofilia a um fragmento da pintura, que foi retirada do contexto, e que retira dela também o seu significado principal: a obra é sobre as mazelas da exploração brasileiras. E isso não é uma opinião minha, é um consenso da história da crítica de arte sobre essa obra."

Divulgação/Adriana Varejão

A Queermuseu

A exposição contava com mais de 270 obras, entre pinturas, gravuras, fotografias, vídeos, colagens, esculturas e cerâmicas de nomes como Alfredo Volpi, Adriana Varejão, Cândido Portinari, Ligia Clark, Clóvis Graciano, entre outros.

A mostra foi viabilizada pela captação de R$ 800 mil por meio da Lei Rouanet e tinha como objetivo "explorar a diversidade de expressão de gênero e a diferença na arte e na cultura em períodos diversos."

As obras foram alvo de protestos nas redes sociais e no local de exposição. Após as manifestações, a Queermuseu foi cancelada pelo Santander Cultural.

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