MULHERES

O lado violento da maternidade está escancarado no projeto 'Radical Women'

Para muitas mulheres, a gestação feliz não é uma opção.

20/11/2017 20:21 -02 | Atualizado 20/11/2017 20:27 -02

CORTESIA DA ARTISTA
Marta María Pérez,

Em 1985, a artista Marta María Pérez, cubana radicada no México, apontou uma faca para sua barriga desnuda e grávida – e fez uma foto. A imagem em preto e branco mostra a futura mãe empunhando um punhal, seu rosto cortado, sua individualidade apagada. É uma representação chocante da maternidade, um grito distante das imagens idealizadas que inundam as redes sociais e as revistas de estilo de vida. Imagens que sugerem que as mães são – e deveriam ser – dóceis, domésticas, impecáveis e, com frequência, brancas.

"Eu imediatamente pensei no filme 'Psicose' quando vi essa foto", escreveu a escritora NeKelia Henerson, sobre o trabalho de Pérez, em 2010. "Bem, na versão 'maternidade'."

A foto de Pérez faz parte de Radical Women: Latin American Art, 1960-1985 (Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana, 1960-1985), uma ampla pesquisa sobre o trabalho de mulheres latinxs em exposição no Museu Hammer, em Los Angeles. Juntas, as mulheres pintam um quadro que diverge do modelo amplamente aceito de maternidade, feliz e livre de complicações ou conflitos. Em vez disso, essas mães são políticas, raivosas, devassas, francas, espirituais e experimentais. Suas imagens da maternidade saúdam a dor assim como o amor, a verdade e a fantasia, o horror e a tranquilidade.

É como diz a curadora convidada do Hammer, Andrea Giunta, que organizou a exposição junto com Cecilia Fajardo-Hill: "Elas propõem maternidades mais realistas, atravessadas por diferentes registros culturais, sociais e políticos."

COLEÇÃO DE LOURDES GROBET
Lourdes Grobet (México, 1940),

A foto nua e ameaçadora de Pérez é chamada "No matar ni ver matar animales" (Não matar animais nem vê-los serem mortos"). Segundo ela explicou ao HuffPost, o título se refere à superstição afro-cubana de que uma mulher grávida que mata um animal ou assiste à sua morte dará à luz uma criança com instintos violentos ou criminosos. O mito reproduz uma convicção dos séculos 17 e 18, apoiada por alguns filósofos e médicos da época, de que a imaginação desconhecida de uma mulher grávida poderia afetar – e potencialmente infectar – a criança gestada em seu ventre.

Se uma mãe tivesse a experiência de um choque, fome ou luxúria, seu filho poderia nascer com deformidades físicas, diziam na época alguns dos principais especialistas. Assim, quando as crianças de fato nasciam com deficiência ou sofrimento, a culpa era da "imaginação monstruosa" da mãe. Segundo a professora Marie-Hélène Huet, de Princeton, cientistas e filósofos homens reagiam a partos desse tipo perguntando: "Que pensamentos maternais sombrios produziram um monstro como esse?"

Uma versão dessa ansiedade misógina perdura hoje graças a uma gama de superstições e crenças espirituais persistentes, incluindo aquelas pertencentes à Santería, que Pérez professa e questiona. Sua imagem "Não matar", em especial, integra de uma série mais ampla chamada "Os Concebidos", para a qual ela documentou sua experiência de ter gêmeos. Pérez processou a gravidez pelo prisma de sua religião, com suas superstições e tabus. As fotos são "presságios", escreve Marcela Guerrero no catálogo, oferecendo "uma visão não romantizada da maternidade que transgride as noções ocidentais."

CORTESIA DA ARTISTA
Marta María Pérez (Cuba, 1959),

Os títulos da série são inspirados no livro El Monte, da antropóloga Lydia Cabrera, uma descrição minuciosa das principais religiões afro-cubanas, incluindo Santería, Yoruba e Palo Monte. Outra foto de Pérez, denominada "Te nace ahogado con el cordón" (Seu bebê nasce asfixiado pelo cordão umbilical), retrata um topless da artista, logo abaixo dos lábios e logo acima dos mamilos, usando somente um colar de pérolas. O título alude à crença não fundamentada de que usar um colar durante a gravidez pode fazer com que o bebê seja estrangulado pelo cordão umbilical.

Ao longo dos anos, à medida que as tecnologias evoluíram, a comunidade científica descartou muitas dessas ideias, relegando-as ao terreno da superstição. Mas ainda existe uma longa lista de atividades ainda potencialmente perigosas e realizadas por futuras mães: fumar, beber, ingerir cafeína, usar salto alto e comer frios ou cream cheese. A lista continua. Desde o controle do pensamento até ações de policiamento, o desejo cultural de regular e dominar as mães grávidas permanece. Ainda se espera que as mulheres sejam mães impecáveis – mesmo antes da chegada da criança.

Em última análise, pode ser difícil traçar uma linha entre a proteção responsável de uma criança e o policiamento desnecessário da mãe. Como escreveu Lynn M. Paltrow, autora de When Becoming Pregnant Is a Crime: "Reconhecer o 'abuso fetal' nos leva a criminalizar a gravidez em si, pois nenhuma mulher pode oferecer o útero perfeito."

DOADO PELA ARTISTA
Johanna Hamann (Peru, 1954-2017),

Pérez não é a única artista do Hammer a questionar noções convencionais de barrigas de grávidas. Feitas com moldes de gesso, as "Barrigas" de Johanna Hamann – representações de ventres grávidos que pendem de ganchos de metal, com seu conteúdo derramando feito um tecido diáfano ou vísceras humanas – fazem lembrar tanto vestidos pendurados num armário como carcaças exibidas num açougue. Como disse a curadora Giunta, "elas se referem à relação entre maternidade e trauma em pelo menos dois sentidos: um deles subjetivo, visualizando aspectos da maternidade que os estereótipos sociais eliminam; e, por outro lado, a violência da sociedade peruana da época, à qual a polícia e as forças militares estavam vinculadas".

Imagens idealizadas da gravidez podem sugerir que transformações milagrosas na maternidade ocorrem no vácuo, mas algumas mulheres na verdade vivem essa etapa da vida sob pressões externas diversas, incluindo opressão política e tensões sociais. Em 1979, ano em que Hamann começou a trabalhar nas "Barrigas", o Peru vivia a transição de um regime militar para um civil, sob a liderança do presidente Francisco Morales Bermúdez. Os moldes da artista prestam homenagem à dor dentro do corpo de uma mulher, assim como ao mundo fora dele.

Enquanto Hamann e Pérez visualizam a gravidez, outra artista, Louise Grobet, explora o que acontece após o nascimento. Em sua foto "La Briosa", de 1981, uma mulher usando máscara de luta livre alimenta um bebê com mamadeira. Como explicou Giunta, mães e donas de casa no México servem como espectadoras e também jogadoras do carnavalesco – e às vezes brutal – esporte de luta livre amador. Em sua foto, Grobet dinamita a distinção entre a mãe gentil e a lutadora um tanto ridícula. Ambas põem à prova os limites do corpo e exortam a mulher a desempenhar um papel determinado que tem uma história profundamente arraigada na cultura pré-hispânica. "Nesse sentido", diz Giunta, "a maternidade é ligada a uma forma de violência festiva e simbólica".

A violência também é palpável no filme "Popsicles" (1984), da artista chilena Gloria Camiruaga. Na trama, suas filhas chupam picolés com pequenos soldados de plástico dentro deles, entoando a "Ave Maria" enquanto o resíduo dos doces mancha seus lábios e dentes. Camiruaga descreveu o trabalho como um "rosário de alarme, eterno e circular". Suas filhas participam de atividades infantis aparentemente inocentes – fazendo devoções, comendo doces – mas cientes, ao mesmo tempo, da ameaça de violência sob a superfície. O soldado de brinquedo é uma referência ao ditador Augusto Pinochet, que governou o Chile à frente de um regime militar autoritário entre 1973 e 1990.

"Com essa performance, ela faz referência à ditadura de Pinochet, mas também coloca num lugar crítico sua própria maternidade, usando suas próprias filhas", diz Giunta. "Temos que pensar que as ditaduras, e a violência social e policial em geral, geram uma violência que tem como alvo específico o corpo feminino [...], inclusive com cesáreas praticadas sem anestesia em mulheres nas prisões."

As experiências físicas da gravidez, parto e maternidade estão longe de serem os acontecimentos prístinos e etéreos que algumas representações mainstream sugerem. Nos Estados Unidos, a taxa de mortalidade materna está aumentando. Houve 28 mortes de mães para cada 100.000 nascimentos em 2013. Lesões não letais são muito mais comuns. De acordo com a revista Mother Jones, entre 50% e 80% das mulheres que dão à luz sofrem de laceração da pele e dos músculos perineais. Além disso, cerca de metade delas tem incontinência urinária e 66% relatam dor lombar residual.

Para mulheres negras e de comunidades marginalizadas, a gravidez traz outros obstáculos. Em 2008, uma operação em larga escala das autoridades federais de imigração no Iowa levou à detenção de 389 trabalhadoras predominantemente latinxs numa unidade de processamento de carne. Bebês nascidos 37 semanas após a batida policial tiveram um risco 24% maior de baixo peso ao nascer do que os nascidos um ano antes, segundo um estudo da Universidade de Michigan. As mães também tiveram maior risco de parto prematuro após a operação. Para muitas mulheres latinxs nos EUA de hoje, especialmente imigrantes indocumentadas ameaçadas pelas políticas do presidente Donald Trump, uma gravidez eufórica não é uma opção.

As artistas da "Radical Women" enfrentam, incessantemente, as realidades do parto e da maternidade, não importa o quão dolorosas, desagradáveis, confusas ou embaraçosas elas sejam. A cultura ocidental exige a adesão das mulheres ao mito da maternidade como algo imaculado e milagroso. Cada desvio da norma é percebido como fraqueza ou insubordinação por parte da mãe. Artistas como Pérez, Hamann, Grobet e Camiruaga refutam essas expectativas, problematizando a ideia da maternidade e jogando luz sobre o trabalho, o trauma e a ansiedade envolvidos nas tarefas de criar e educar uma criança.

CORTESIA DA ARTISTA
Marta María Pérez (Cuba, 1959),

"Radical Women": em exposição no Museu Hammer, em Los Angeles, até 31 de dezembro de 2017.

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