ENTRETENIMENTO

Autor do livro ‘Mindhunter’ elogia adaptação para Netflix e fala sobre relação com FBI

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Mark Olshaker afirma que ‘é importante entender quem são os serial killers’.

20/11/2017 13:41 -02 | Atualizado 20/11/2017 17:54 -02
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Na série ‘Mindhunter’, Jonathan Groff interpreta Holden Ford, personagem equivalente ao investigador do FBI John Douglas.

Desde que chegou na Netflix em outubro, a série Mindhunter, criada pelo roteirista e dramaturgo inglês Joe Penhall (Amor para Sempre), tem feito enorme sucesso. Talvez seja porque diferente de tantas outras histórias de serial killers na ficção, aqui o espectador tem a oportunidade de, por meio dos personagens principais, os agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany), sentar-se à uma mesa com um assassino e lhe perguntar: "por quê?".

Por trás da série, há o livro Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano (Intrínseca, 2017), escrito por John Douglas, o ex-agente do FBI que serviu de inspiração para o personagem de Groff, com o escritor e documentarista vencedor do Emmy Mark Olshaker.

Douglas, junto de seu parceiro Robert Ressler, no qual o personagem de McCallany é inspirado, rodou pelos Estados Unidos nos anos 1970 atrás de serial killers já encarcerados, com a intenção de entrevistá-los e fazer perfis deles. A intenção era buscar um entendimento profundo desses criminosos — e o resultado não apenas fez evoluir a abordagem do FBI desses casos como ajudou a consolidar a psicologia criminal e a cunhar o termo "serial killer". O pedaço mais importante da pesquisa está reunido no livro Mindhunter, repleto de descrições detalhadas das barbaridades feitas pelos assassinos.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Olshaker, 66, cai no riso ao ser perguntado se trabalhar no livro lhe trouxe pesadelos. "Sempre me perguntam isso. Eu realmente não os tive, mas minha esposa sim". Ele conta que o processo de escrever Mindhunter se baseou principalmente em entrevistar John à exaustão a respeito de cada caso.

"Nós tomamos notas, eu tinha tudo transcrito e escrevi na voz dele, de seu ponto de vista, para contar as histórias. Também fiz pesquisas adicionais para nos certificar de que entendemos bem os fatos", diz.

A carreira de Douglas no FBI durou 25 anos — havia, portanto, bastante trabalho a ser feito e cuidados a serem tomados. "Também falei com pessoas envolvidas nos casos, como os policiais ou detetives que os investigaram. Eu passava [o texto] para John ler, ele fazia correções e mandávamos o material ao editor. Foi uma colaboração durante todo o trajeto. E continua a ser."

Douglas e Olshaker fundaram em 1995 a empresa Mindhunters, Inc. e no ano seguinte lançaram o livro, que se tornou um enorme bestseller e o primeiro de quase duas dezenas de obras sobre o tema.

Entre os sujeitos entrevistados estão "estrelas" como Charles Manson, líder de um culto que dizimou nove pessoas em 1969, e Ed Kemper, que matou dez mulheres — dentre as quais a própria mãe, que ele não apenas assassinou como a estuprou depois de morta e destruiu sua laringe no triturador da pia da cozinha.

"Esse assunto continuará a ser interessante desde que as pessoas continuem a se interessar em comportamento humano ao extremo", diz o escritor. "A fascinação pelo assunto está em examinar e expandir nossa consciência sobre as possibilidades de cada pessoa, boas e más. Do outro lado [disso] há coragem, amor e todas as boas qualidades humanas", completa.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Na sua opinião, por que histórias sobre serial killers fascinam tanto as pessoas?

Mark Olshaker: Esta é uma pergunta muito boa e relevante. Acho que é porque os crimes violentos sobre os quais falamos envolvem emoções que todos nós temos: amor, ódio, vingança, lucro, inveja, raiva, salário, sorte. Todas essas coisas que chamamos de "condição humana", mas vividas ao extremo. Muitos de nós que temos essas emoções, as reprimimos, mas as pessoas que cometeram esses crimes, não. Nós também nos identificamos com as vítimas e nos fascinamos pelo conceito de mal, de que há pessoas por aí que agem como nós não agiríamos, fazem coisas horríveis e pensam que está tudo bem, que têm o direito de fazê-las. Ligando isso tudo há aquele senso de justiça que todos temos, com os quais nascemos ou nos ensinaram muito cedo na vida, de querer ver justiça, ver que o mal é vencido e a justiça é feita. São emoções e assuntos que são tão ou mais velhos que a Bíblia.

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Mark Olshaker, à esquerda, e John Douglas iniciaram a Mindhunters Inc. em 1995.

Aproveitando o gancho: você crê que faz sentido o uso da palavra "mal" para descrever esses criminosos?

Esta é outra pergunta bastante interessante. Nós perguntamos a respeito de serial killers e predadores: "eles nascem assim ou são feitas assim?". E respondemos: "ambos". Na maior parte dos casos, há algo em seu fazer que envolve propensão à violência, impulsividade ou sadismo — mas a maior parte deles [os assassinos] tem um mau passado. Seja com abuso, negligência ou o fato de que tinham esses impulsos e nem os pais ou professores intervieram. Acho que sua pergunta implica em "existe o mal ou são apenas pessoas com doenças mentais?". Eu diria que certas pessoas que fazem isso têm doenças mentais. Eu posso afirmar que alguém que cometa um assassinato sem justificativa é doente mental em algum nível ou outro, mas isso significa que eles são legalmente insanos ou não têm noção de que o que fazem é errado. E, enquanto saibam disso e possam controlar seus impulsos, não posso dizer que são maus, mas o que eles fazem é. A maior parte de nós pode se afastar disso, mas essas pessoas não. Há doença mental envolvida e entendemos isso, mas se eles ainda sabem que o que fazem é errado e não são realmente delirantes, e entendem que o que estão fazendo é errado, mas querem fazer mesmo assim, o que descreve quase todas essas pessoas, então, sim, é um ato de maldade.

O contexto social pode colaborar com a criação de assassinos em série?

Absolutamente sim. O contexto social é muito importante. O que acontece com essas pessoas é muito importante. Isso não justifica [os crimes]. Parte do processo de perfila-los é entender de onde eles vieram, como reagiram a outras pessoas e o contexto social pode ser parte de entender como pega-los. Se nós soubermos como eles interagem, o que é importante para eles, se eles vão reagir ao noticiário ou à mídia, tudo isso é uma grande parte do processo.

John Douglas "entrou" na mente de serial killers para aprender como eles pensam. Você crê que há um limite para se entrar em um buraco negro como esse?

A ideia de que você "aprende a pensar como o criminoso" é um pouco exagerada. Todo bom detetive, em certa medida, coloca-se no lugar do criminoso e pensa como ele. O que John fez de excepcional foi começar a entender como o pensamento do criminoso corresponde às evidências nas cenas do crime. Ele era capaz de se colocar na mente do assassino, mas fazia isso de maneira que contasse como evidência. John se colocava no lugar das vítimas também, para entender como elas reagiriam e como se deu a interação entre vítima e criminoso. Com certeza há um "pedágio emocional" para alguém como John colocar-se nessa posição, mas há mais um pedágio emocional para ele se colocar no lugar da vítima — porque elas foram as que sofreram, eram as inocentes. É difícil de se livrar disso depois. Saber pelo que essas vítimas passaram e sentir sua responsabilidade em relação a elas, às famílias delas deu a John o maior pedágio emocional de todos.

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Holt McCallany, Anna Torv e Jonathan Groff em cena de 'Mindhunter'.

E Ed Kemper? Ele tem um caso particularmente chamativo por ter matado tantas mulheres. Elas frequentemente são vítimas de serial killers.

No caso de Ed Kemper, jovens mulheres inocentes, muitas delas estudantes universitárias, estavam na mira dele basicamente porque Kemper estava tentando se vingar da mãe dele. Ela o fez sentir-se socialmente deslocado, inaceitável e feio demais para garotas. Kemper continuou com isso [os crimes] até finalmente ter a coragem de matar a própria mãe. Isso não é justificável, e de qualquer maneira, continua a ser um ato de maldade pelo qual ele é responsável, mas significa que em casos como o de Kemper, [buscar entender] permite que a gente possa saber as causas. Isso é parte do processo e é sobre isso o que nosso livro é, de maneira geral. Não se trata de justificar, não dar desculpas ou desculpa-los, mas entender como essas pessoas são, tornam-se quem elas são.

A ficção faz um bom trabalho ao abordar essas histórias?

Não. Acho que muito dos livros entretém bastante, cativam e, na maior parte dos casos, dão descrições corretas sobre o que poderia estar se passando pela mente da vítima ou do assassino. No entanto, para ser ficção que emociona, os escritores geralmente têm que divergir da realidade. Por exemplo, não há serial killers como Hannibal Lecter, que são intelectuais e brilhantes. Porque se os fossem, seriam inteligentes o suficiente para mudarem de campo. [Essas narrativas de ficção] são bastante engenhosas, mas na maior parte das vezes, há a obsessão por [apenas] um sujeito. E, se os assassinos fossem tão brilhantes assim, nós nunca os pegaríamos. Eu gosto de ler ficção policial, mas não acho que muitas delas estejam corretas.

Você e John já viram a série da Netflix? Gostaram dela?

Sim, nós gostamos muito dela. É uma série bastante inteligente. Entendemos desde o início que David Fincher mudaria alguns dos detalhes pessoais e decidiu que as pessoas da aplicação da lei, como John e seu parceiro Robert Ressler, teriam suas histórias ficcionalizadas e que os criminosos teriam seus nomes e histórias verdadeiros mantidos. Nós concordamos com isso, porque eles teriam que fazer algo interessante e com personagens cativantes. A série tem respeitado bastante as histórias, as informações e os insights que, de uma maneira ou de outra, vêm do livro. Estamos muito feliz com isso. Ficou fiel ao que realmente aconteceu e também gostamos do fato que, diferente de outras séries, não tem a necessidade de mostrar violência gráfica, mas os efeitos dela. É mais assustador falar a respeito do que mostrar isso acontecendo.

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Capa de 'Mindhunter' feita por Aline Ribeiro para Intrínseca.

Lançado no Brasil no fim de setembro pela Intrínseca, Mindhunter tem 384 páginas, custa R$ 39,90 em impresso e R$ 24,90 em e-book.

A série Mindhunter está disponível na Netflix desde 13 de outubro, com dez episódios de 45–60 minutos de duração, direção e produção de David Fincher (Garota Exemplar, A Rede Social) e Charlize Theron (Atômica).

Assista ao trailer:

Artista feminista explica a sua obsessão mórbida com assassinos em série