ENTRETENIMENTO

Os bastidores de 'Alias Grace,' nova produção da Netflix baseada em livro de Margaret Atwood

Com diretora de 'Psicopata Americano' e a roteirista Sarah Polley, Netflix aposta em outra obra da autora de ‘O Conto da Aia’

19/11/2017 10:46 -02 | Atualizado 19/11/2017 10:46 -02
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Alias Grace é a nova produção da Netflix.

Se O Conto da Aia é para onde vamos, Alias Grace é de onde viemos.

É o que diz Sarah Polley, roteirista e produtora por trás de mais uma adaptação da Netflix, do romance Vulgo Grace (1996), de Margaret Atwood, publicado no Brasil pela Editora Rocco. A obra de ficção histórica é protagonizada por Grace Marks, uma serva do século 19 acusada de assassinar brutalmente o patrão de sua casa e a amante, também empregada, com a ajuda de um cocheiro. O crime, ocorrido na vida real, abalou o Canadá em 1843, envolvendo a comunidade vitoriana em um chocante julgamento que resultou na prisão perpétua de Marks e no enforcamento de seu cúmplice. Depois de 30 anos na prisão, Marks foi finalmente perdoada, mas sua libertação foi um simples prêmio de consolação depois de décadas vivendo como uma mulher notória.

"Assassinato é uma palavra forte para estar associada a você", diz Marks no livro de Atwood. "Ela tem um cheiro, essa palavra ― almiscarada e opressiva, como flores mortas em um vaso. Às vezes, à noite, eu a sussurro para mim mesma: assassinato, assassinato. Ela murmura, como uma saia de tafetá no chão.

Polley trouxe o adorável conto "atwoodiano" para a vida real com a ajuda de Mary Harron, aclamada diretora de "Psicopata Americano". Juntas, criaram a minissérie de seis episódios que coloca Marks, habilmente interpretada por Sarah Gadon, no seu centro de gravidade. Ela, às vezes, parece impotente, o produto da pobreza e negligentemente forçada a uma vida implacável de servidão; outras vezes, como um enigma descuidado e deliberado, impulsionado por uma força interna que ainda não entendemos. É ela uma assassina de sangue frio ou uma náufraga indevidamente desprezada?

Tanto Atwood quanto a adaptação da equipe de Polley-Harron se esquivam de responder a essa questão. Em vez disso, a nova série da Netflix mostra o seu melhor quando mergulha nos detalhes históricos que complicam a narrativa de Marks. No mundo meticulosamente elaborado da série -- um eco de horrores reais do século 19 --, mulheres da classe baixa são relegadas a presas sexuais, atiradas como alvos constantes de investidas indesejadas e recipientes infelizes de abortos arriscados. De fato, se "O Conto da Aia" é a distopia fundamentalista de nosso futuro, "Alias Grace" cumpre sua missão de pintar uma clara imagem da ignorada história que tornaria Gilead possível.

Conversamos com Harron antes da estreia da série, em 3 de novembro, e ela confirmou o enervante paralelo realizado por Polley entre as duas arrepiantes adaptações de Atwood, além de explicar como foi dar vida à história de Grace Marks.

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O que inicialmente atraiu você para uma adaptação de Alias Grace?

Bem, eu não havia lido o romance. Não sabia nada sobre a história que seria contada, não tinha ideias pré-concebidas. Mas é uma trama bastante fantástica. Você acaba mergulhando totalmente nesse mundo. Sempre amei a ambiguidade e o mistério, e também uma personagem feminina que sofre muito, mas não convencionalmente, do tipo "Ah, pobre Grace". Ela é muito complicada. Ela é boa? É má? As coisas que ela sofreu a tornaram uma assassina? Todas essas coisas. Eu me senti imediatamente muito atraída para esse mundo.

Você era fã de Margaret Atwood antes disso?

Sim, sou canadense, claro. Também estava na universidade nos anos 70, quando seus primeiros romances começaram a surgir. Ou, pelo menos, foi quando eu comecei a descobri-los. Ela teve um grande impacto sobre o feminismo naquela época ― o daquela geração. Eu me senti muito tocada pelas históricas contadas por ela. Mas não havia lido suas obras mais recentes. Por isso, foi uma grande descoberta. [Alias Grace] é, na verdade, meu romance favorito de Margaret Atwood agora.

O romance é baseado em um crime real ocorrido no Canadá na década de 1840. Você sabia de alguma coisa sobre a história de Grace Marks?

Li algumas críticas do livro [de Atwood] quando foi lançado, mas nunca havia ouvido falar [de Marks]. Era muito misterioso. Fiz muitos dramas de época ― meu primeiro filme ["Um Tiro Para Andy Warhol"] era dos anos 60, "Bettie Page", da década de 1950, "Psicopata Americano" dos anos 80. Estudei literatura na universidade ― estou bastante imersa em romances vitorianos ―, por isso, sempre quis fazer um drama de época como este. É uma abordagem muito interessante sobre uma história do século 19.

A história gira em torno, talvez, de um dos personagens mais enigmáticos de Margaret Atwood. Se você pudesse dar sua própria descrição de Grace Marks, qual seria?

Isto é importante: ela é jovem, protestante, do Norte da Irlanda. É muito competente, capaz e inteligente. É o tipo de pessoa que poderia comandar uma corporação, mas nasceu em um mundo de incrível pobreza e opressão, e sofre muito. Ela é muito puritana, como muitos protestantes da Irlanda do Norte. Posso dizer isso, porque minha família é de lá. Ela tem amor no coração, mas a questão é: com todo seu sofrimento, isso a tornou uma pessoa melhor ou pior? Com todas as coisas terríveis pelas quais teve de passar, de que maneira elas a transformaram? Eu tive essa conversa com Margaret Atwood. As pessoas pensam que o sofrimento o torna nobre, mas nem sempre. Às vezes, muito sofrimento pode transformá-lo. Pode torná-lo vingativo e assassino. Você não sabe.

Sim, este talvez seja um dos aspectos intrigantes da forma como Atwood compôs o personagem. Você não sabe necessariamente se Grace é a protagonista ou a antagonista da história. E isso não parece ser importante. Não há muita moralidade para isso; é simplesmente uma interessante forma de explorar o personagem.

Sim. É uma história da vida real. Embora não haja muita informação sobre Grace, existem alguns registros históricos e entrevistas com pessoas na época sobre o que acontecia durante esses assassinatos. Adoro histórias de amor reais, porque os comportamentos são sempre contraditórios. Do tipo... por quê? Por que você não disse para ninguém? Por que, quando o açougueiro abriu a porta, você não disse que [James] McDermott ia matar alguém? É engraçado, quando Sarah Gadon e eu estávamos trabalhando no roteiro e fazendo anotações juntas sobre o personagem, pensávamos: "Grace, no que você estava pensando?". Você pensa que conhece Grace. Você pesa que tem algo a dizer sobre ela, mas, então, há alguma parte da história que torna aquilo sem sentido. Como Simon [Jordan] durante o drama. Simon se sente constantemente decepcionado e confundido por ela, batendo a cabeça contra a parede, porque você nunca pode realmente ter uma ideia de quem ela é.

Durante uma aula magna no TIFF [sigla em inglês de Festival Internacional de Cinema de Toronto] este ano, você disse ao público que a chave para conseguir uma performance destacada de seus atores tem a ver "inteiramente com o elenco". Como foi o processo de escalar Sarah Gadon para o papel de Grace? Como soube que tinha de ser ela?

Eu tinha trabalhado com ela antes, há seis ou sete anos, em um filme chamado "Relação Mortal", no qual na verdade ela interpretava [uma garota de] 16 [anos]. Eu havia testado centenas de pessoas para o personagem, e ela gravou uma audição para mim no computador, porque estava filmando no exterior. Assim que a vi, pensei, esta garota é formidável. Quando você a conhece, é um tipo de 'alma velha', uma pessoa muito impressionante. E, trabalhando com ela, é muito sutil. Ela faz o que realmente gosto nos atores, trabalha com várias camadas. Faz ajustes muito rapidamente. Mesmo sendo uma jovem atriz sem ter feito muitos filmes, podia fazer essas incríveis mudanças sutis e insinuar muita coisa acontecendo abaixo da superfície. E, também, com Grace você quer alguém com muita beleza, mas que tenha mistério, o que ela tem de sobra. Você poderia realmente apenas ficar observando seu rosto por um longo tempo. E com Edward [Holcroft], também. Existem essas longas cenas onde eles estão apenas sentados em uma sala conversando. Você quer permanecer em seus rostos.

Que tipo de pesquisa você fez antes das filmagens ― em termos de ler sobre a época e crimes na vida real?

Margaret Atwood tinha recomendado alguns livros. Ela deu a Sarah Polley uma lista de livros, e eu li um em particular ― um relato do século 19 de uma mulher viajando pelo Canadá. Era realmente interessante na condição de servas como presas sexuais. É sempre interessante ler relatos contemporâneos que mostram as atitudes da época. Margaret Atwood tinha feito muita pesquisa sobre linguagem. Geralmente, fico muito incomodada com imprecisões sobre o período e anacronismos de diálogo, mas Margaret Atwood tinha feito todo o trabalho. Ela é muito autêntica, não apenas em como as pessoas conversavam, mas em como as pessoas pensavam e se comportavam. Você sabe, as mulheres pensavam de formas diferentes [na década de 1800]. Grace via sua vida muito diferentemente de como uma mulher de hoje vê a própria vida, ou a sexualidade, religião, tudo.

Mas, em termos do tipo de pesquisa que tive de fazer, foi mais com o designer de produção sobre conseguir os reais detalhes daquele mundo corretamente. E Sarah Gadon teve que aprender como fazer todo esse trabalho doméstico! Ela teve de aprender a costurar e bordar. Não queria que ela fingisse, e ela também não queria. Ela está bordando durante tantas daquelas conversas, que tinha de ser tão boa a ponto de fazer sem olhar. E precisa ser completamente natural. Ela passou semanas e meses aprendendo. O trabalho doméstico é uma história à parte nisso.

Vendo [Gadon] como Grace, podemos realmente notar calos em suas mãos.

Isso! Eu estava com o departamento de maquiagem e dizia: "Vocês têm de deixar suas mãos mais ásperas." E ela tem lindas mãos. Ela mesma conseguiu fazer um pouco sozinha, e então o time da maquiagem as deixou mais ásperas também.

Você passou um tempo na Penitenciária de Kingston, em Ontário, onde a Grace Marks da vida real esteve presa. Como foi filmar lá?

Isso foi outra coisa interessante. Quando li o roteiro, pela maneira como foi escrito, a cela era muito maior. Mas quando fomos checar o local da filmagem na Penitenciária Kingston, e também no museu da penitenciária, vimos a reprodução de uma cela do século 19. Era quase um caixão de 1,5 metro, o tamanho de uma cama de solteiro. E era onde as pessoas passariam metade de suas vidas. Fiquei muito impressionada com isso, com a ideia de que [Grace] foi enterrada viva por todos esses anos ― todos os prisioneiros foram. Então tive de convencer todo mundo, porque a filmagem ficou muito mais difícil, para deixar a cela menor. Ela ainda podia ficar de pé, porque deixamos a cela 30 centímetros mais larga. Eu sabia que seria mais difícil filmar, porque não podíamos colocar a câmera dentro da sala, mas o designer de produção concordou comigo ― isto é importante e precisamos torná-lo real.

A outra coisa que saiu do museu, que não estava na verdade no roteiro original ou no livro, era essa coisa chamada "the box" [a caixa], onde eles colocavam os presos dentro desse caixão vertical. Tem esta cena com Grace onde você vê sua face em um pequeno buraco na madeira e ela está gritando. Vimos aquela caixa e pedimos a Sarah [Polley] para escrever sobre aquilo. É horripilante. É medieval. Quero dizer, as regras... Você é chicoteado por olhar ou sussurrar, ou se você dá uma gargalhada ou sorri. Era algo barbárico, e queríamos mostrar como realmente era aquilo.

Foi muito difícil para Sarah Gadon atuar com isso? O cenário autêntico traz um tipo de gravidade diferente para o roteiro?

Acho que sim. Foi difícil para ela. Entrei na caixa para ver como era e pensei, meu Deus, me deixe sair. Eu não forçaria uma atriz a fazê-lo, mas acho que a maioria das atrizes que estão levando a sério querem ir lá e experimentar um pouco disso.

Um dos meus trechos favoritos da crítica de 1996 do New York Times sobre "Alias Grace" diz: "Não há nada como o espetáculo da vilania feminina levada à Justiça para reviver o antigo, cansativo e aparentemente interminável debate sobre se as mulheres são, por natureza, santas ou demoníacas". Isto é obviamente um tema central do livro de Atwood. Como você e Sarah Polley abordam este "debate" em sua adaptação?

Sarah Polley realmente tem uma frase ótima sobre isso, sobre mulheres se conformando tanto e correspondendo às expectativas de outras pessoas sobre elas. De mulheres desempenhando papéis diferentes em diferentes circunstâncias. É sobre o que ela está se referindo naquelas primeiras palavras do roteiro, quando [Grace] diz: "As pessoas pensam que sou uma demônia. As pessoas pensam que sou uma pobre vítima inocente. As pessoas pensam que sou isso e aquilo". O que é a mulher essencial? As mulheres vitorianas, especialmente, têm todas essas imagens colocadas sobre elas.

Também adorei a ideia de que uma mulher possa ser vista e retratar um personagem de formas tão diferentes, sem você saber qual é a real. Isso permitiu um personagem feminino muito mais complicado. Uma das coisas que adoro sobre Margaret Atwood é que ela nunca [sugere]: "Homens são maus, e as mulheres são boas". Ela está escrevendo sobre duras pressões sociais e injustiças que nem sempre despertam o melhor das pessoas. Como o relacionamento entre Grace e Nancy [Montgomery], que são ambas realmente vítimas reais da sociedade, ambas jovens da classe trabalhadora, uma das quais está grávida e conseguiu criar um pequeno status para si mesma. Acho que Margaret Atwood tem essa visão sobre mulheres que podem se tornar ratos em uma gaiola ― podem se voltar umas contra as outras, porque há muito pouca segurança para elas. Isso foi muito verdadeiro, sobre como difíceis situações sociais podem despertar competitividade e rivalidade. Você gostaria de pensar que as mulheres são sempre [solidárias], mas...

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Como foi ter Margaret Atwood no set? E dirigi-la no papel de figurante?

Ah, foi divertido. Não tive de dirigir muito. Houve muito pânico porque a programação não funcionou. Era o segundo dia de filmagem, e ela estava esperando com uma vestimenta pesada num calor de 90 graus [Fahrenheit, cerca de 32 graus Celsius] por horas e horas. E nós: "ahhhhh". Mas ela lidou super bem com aquilo. E acho que se divertiu muito, porque seu trailer dizia: "Mulher Difícil". Era o seu nome [no episódio].

O quanto ela influenciou ― se é que influenciou - a adaptação?

Não sei, não tenho conhecimento. Sarah mostrou a ela muitos rascunhos em todas as etapas, acho. Acho que [Atwood] não é de interferir muito, mas Sarah Polley estava ansiosa por ser muito fiel, então a consultou bastante.

Obviamente, toda a série está sendo lançada na esteira da temporada 1 de "O Conto da Aia". Se fosse possível haver mais fandom em torno de Margaret Atwood, este seria o momento. Muitos viram "O Conto da Aia" como uma série abertamente feminista que inspirou muito ativismo. Você vê "Alias Grace" como uma série abertamente feminista?

É feminista no sentido de que está apresentando uma peça importante e negligenciada da história feminina, que são as vidas das servas de uma maneira realista. A história de Mary Whitney acontece com dezenas de milhares de garotas. Centenas de milhares de jovens engravidam, são estupradas ou seduzidas e abandonadas, eram exploradas sexualmente por homens da classe alta. E essa é realmente uma parte negligenciada da história, de como eram as vidas dessas garotas.

Sarah Polley disse que "Alias Grace" é de onde viemos e, "O Conto da Aia", para onde podemos ir. É importante saber politicamente de onde viemos de uma forma precisa. A mesma coisa está acontecendo em como vemos a escravidão ou a Confederação e a Guerra Civil. É importante que escavemos para trás e digamos: "Temos certas versões do passado, mas, existem outras versões das quais precisamos estar cientes? Neste caso, há uma visão de certa forma idealizada da casa de campo, e dos servos felizes que amam seus patrões, e de patrões que se preocupam com seus servos. É verdade? Não! Aqueles servos eram inacreditavelmente explorados. Especialmente as garotas, que eram presa sexual de homens jovens. Elas engravidavam, e era o fim. Como era conseguir um aborto naquela época? Bem, vamos mostrar para vocês. Nem faz muito tempo, e foi de onde nossa sociedade saiu. Precisamos nos lembrar disso. Eu me lembro que, quando estava morando em Londres, havia essa ideia de voltar aos valores vitorianos. Bem, estes eram os valores vitorianos: trabalho infantil e mulheres jovens sendo abandonadas nas ruas. Essa é nossa história.

Este tema parece particularmente relevante em um momento quando um presidente quer "Make America Great Again" ["Tornar a América novamente grande", slogan usado pelo presidente dos EUA, Donald Trump].

[Risos] Muitas vezes queremos idealizar o passado, e isso pode ter uma agenda política por detrás. As pessoas idealizam a década de 1950 na América por essa mesma razão ― isso foi uma coisa do Reagan. Vamos voltar aos anos 50. Bem... segregação. Em termos de histórias de mulheres, existem muitas que não foram contadas e perspectivas que não foram mostradas. "Alias Grace" não é necessariamente um chamado óbvio à ação [como "O Conto da Aia"], mas isso não significa que não seja uma perspectiva importante.

Você tem uma história de retratar histórias de mulheres. Fez filmes sobre Valerie Solanas, Bettie Page e Anna Nicole Smith. Existem outras mulheres que poderiam, de forma semelhante, desafiar noções de feminilidade que você estaria interessada em destacar em um filme?

Atualmente estou fazendo audições para o projeto das garotas Manson. O interesse aqui é: como essas garotas hippie, aparentemente normais, acabaram fazendo essas coisas terríveis? Foi a relação delas com o culto? Por que cederam sua vontade para esse líder louco? Parte do filme é ambientado no começo dos anos 70, quando ela estão na prisão, e parte da história é contada a partir do rancho Manson. As pessoas realmente não se interessam pelas garotas quando elas contam aquela história. Elas realmente não mostram como aconteceu ― como chegaram a fazer essas coisas. Como conseguiram? Como fizeram? Qual é a história ali? Havia essa jovem feminista com 30 e poucos anos que deu classes para as garotas Manson e escreveu um livro sobre elas. Sempre me interessei pela história não contada. E não apenas em uma história crua sobre uma luta nobre, mas em olhar temas bastante complicados do comportamento feminino. Nada pode ser mais complicado do que as garotas Manson.

Voltando um pouco ao passado, você se recusou a escalar Leonardo DiCaprio para "Psicopata Americano" em parte porque, na época, sua base de fãs consistia de adolescentes e também porque você já havia escolhido Christian Bale. Como foi resistir à pressão de executivos da indústria na época?

Bem, fui demitida, então foi isso. [Nota do editor: Harron foi posteriormente recontratada como diretora de "Psicopata Americano"]. Ou você poderia dizer, me demito, mas eles me despediram porque eu não queria me encontrar com DiCaprio e não queria escalá-lo. Eu já havia dito que iria escalar Christian, que não era famoso na época. Leo era. Acho que todo mundo pensou que eu estivesse louca. Havia duas coisas: achava que Leo era um ótimo ator, mas não era o adequado para o papel. Christia era o adequado. E nunca faria um filme se achasse que o protagonista não era o certo. Mas também sabia que se trouxesse a maior estrela do mundo para "Psicopata Americano", eles rescreveriam totalmente o roteiro, e eu perderia o controle sobre o tom do filme. Também pensei que seria totalmente inapropriado para este ator, com uma enorme base de fãs jovenzinhas, interpretar esse papel. Simplesmente parecia equivocado em muitos níveis. Foi uma vantagem com Christian Bale ter alguém que não era famoso, porque as pessoas não tinham muitas ideias pré-concebidas. Sua fama não interferiu.

Sou muito, muito específica sobre o elenco, já enfrentei muitas batalhas sobre isso. Não acho que estive em um filme sem ter uma batalha sobre o elenco. É uma coisa que para mim é tudo ou nada. Realmente não farei um filme se acreditar que o ator principal não é o correto para o papel. Nunca houve um bom filme se o protagonista não foi bem escolhido. Fazer um filme é difícil o bastante. Mas a Netflix foi muito boa. Disseram: "Você não tem de escalar estrelas". E acho que isso vai tornar Sarah Gadon uma estrela.

Ficou mais fácil, ao longo de sua carreira, ser assertiva nessa arena e ter uma posição de poder nesses dilemas de elenco?

Realmente, não. E você imaginaria que ficaria mais fácil.

Última pergunta: Por que "Um Tiro Para Andy Warhol" ainda não está disponível para 'streaming' em nenhum lugar?

Acabei de encontrar Christine Vachon, a produtora, na premiere do filme de Todd Haynes ["Sem Fôlego"], e ela disse que estão tentando conseguir os direitos de volta. É uma dessas coisas, a empresa que o distribuía fechou. Parte meu coração que esse filme não esteja disponível. Tem todos esses grandes atores. Lili Taylor. O primeiro filme de Justin Theroux! Adoraria ver esse filme de volta. Por isso estamos trabalhando para isso.

Esta entrevista foi editada e resumida. "Alias Grace" está disponível para streaming na Netflix.