ENTRETENIMENTO

Daniela Thomas, diretora de Vazante: 'Existe uma despedida melancólica do cinema'

Em entrevista ao HuffPost Brasil, cineasta carioca fala sobre o futuro do cinema e o debate racial em seu novo filme.

19/11/2017 03:11 -02 | Atualizado 19/11/2017 11:25 -02
Montagem/Getty/Divulgação
Daniela Thomas fala sobre repercussão do filme 'Vazante', em cartaz no País.

Em cartaz nos cinemas brasileiros neste mês, Vazante é o primeiro trabalho solo de Daniela Thomas, que já codirigiu ao lado do cineasta Walter Salles filmes premiados como Terra Estrangeira (1995) e Linha de Passe (2008).

A trama se passa numa fazenda mineira em 1821 e retrata uma história que a diretora ouviu de seu pai e que acompanha a família há décadas: o casamento e convívio de um tataratio, tropeiro português de 50 anos com uma menina de 12.

Obra em preto e branco, habitada por inúmeras violências, amarguras e silêncios, Vazante propõe um retrato da escravidão no Brasil no período colonial. O longa, entretanto, já provocou incômodo de parte do público, sobretudo ativistas negros.

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Em setembro, o longa foi exibido no Festival de Brasília e duramente criticado no debate que seguiu sua exibição. Entre as principais críticas levantadas estava o fato de que o longa de Daniela apresenta personagens negros sem nome nem profundidade, o que os torna apenas de pano de fundo para os personagens brancos.

Para espectadores críticos do filme presentes no debate, tal decisão preservaria o imaginário cristalizado da história da opressão racial no Brasil e do retrato do negro no cinema nacional.

Em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil, a cineasta revela que a reação do público presente no debate a pegou de surpresa. "Eu tinha uma inocência enorme a respeito dos tons dos debates sobre raça no Brasil. E depois eu fui aprendendo que são assim. São muito quentes. Muito acalorados."

Passada a turbulência e a repercussão do episódio, a cineasta carioca admite que o calor do debate é "imprescindível" no contexto da militância, mas faz a ressalva que ele não deve excluir uma obra de arte e vice-versa. "É uma convivência complexa", afirma.

Na conversa que você acompanha a seguir, Daniela fala sobre os bastidores de Vazante, explica sua paixão pelo "cinema da paisagem" e, em tom melancólico, faz previsões sobre o futuro da sétima arte. "Sinto que estou me despedindo do cinema. Me parece que o cinema vai ser cada vez mais uma experiência de quem vai, por exemplo, num parque da Disney. O cinema como uma experiência temática", vislumbra.

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Leia a entrevista na íntegra:

HuffPost Brasil: Qual é a origem de Vazante?

Daniela Thomas: Primeiro, o fato de eu ter estudado História e ter um fascínio pelo passado do Brasil, algo que acredito estar pouco representado no cinema brasileiro. A gente tem uma buraco aí, há ausência de um olhar do cinema brasileiro para História do Brasil. Especialmente do cinema de autor, cinema mais pessoal. Eu sentia essa carência... Acredito que o cinema tem o potencial de evocar de maneira muito forte - por meio do trabalho com olhar e com a imagem - uma coisa que não existe mais. Esse era o principal desejo de todos. O filme é baseado em uma história que meu pai me contou sobre um evento que aconteceu na família algumas gerações para trás, que é esse tataratio que teria, aos 50 anos, se casado com uma menina de 12. Isso era possível e aceitável, tanto na igreja quanto na lei. Essa menina demorou três anos para menstruar e ele era um tropeiro que trazia bonecas para ela. Eu achei tudo isso muito perverso, mas ao mesmo tempo fascinante que fosse uma prática possível no País. E eu sempre tive um interesse imenso nos quase 400 anos de escravidão no Brasil porque - tendo lido Casa Grande e Senzala e tendo vivido no Brasil durante todo esse tempo - eu tenho a sensação de que existe aí algo a ser revelado, algo a ser pensado, que é essa questão da miscigenação nada doce. Foram basicamente esses dois pontos de partida para o filme.

O filme retrata um Brasil amargo e cheio de dores, sob a violência da escravidão e dos estupros. O que esse cenário diz sobre o Brasil de hoje?

Nós somos frutos de uma sopa. Onde é que o Brasil foi cozido? Num tripé. O que é que tinha nessa sopa? Tinha extrativismo. Uma sociedade inteira cuja economia foi estruturada no extrativismo. A gente não foi colonizado por famílias de agricultores que vieram aqui e se assentaram. A gente foi sempre uma empresa de extrativistas que vinham para cá tirar do País e levar para fora. Daqui se extraía a madeira no começo, depois ouro, depois diamante e depois a gente entrou num regime de plantation, que é outra forma de extrativismo: você faz coisas para extrair da terra e destruir a terra. A outra perna desse tripé foi o patriarcalismo. Ou seja, o poder ilimitado do homem. Do homem que tem o capital. Essa pessoa reinou e ainda reina no Brasil. Reinou sobre todas as outras pessoas, sobre as mulheres e sobre os seus escravos absolutamente. Escravos, segundo o que aprendi com a [historiadora] Lilia Moritz Schwarcz, eram considerados bens semoventes. Igual o cavalo, o boi. Nos inventários, eles eram listados como bens semoventes. Imagina que loucura era isso. E a outra perna foi o escravismo, que de certa forma foi como se estruturou a economia. No Brasil, a economia se organizou com o trabalho escravo. Dessa sopa não podia sair coisa muito boa porque ela é só violência. Todas essas coisas que eu falei são violências contra o lugar, contra as pessoas, contra as mulheres. É sobre esse embrião do brasileiro miscigenado que o filme trata. Existe essa ideia de que o brasileiro sempre foi miscigenado. No entanto, essa miscigenação não foi doce. Essa miscigenação foi fruto do poder infinito do homem que podia decidir quando e com quem ter sexo e procriar. O filme conta um pouco essa história.

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O silêncio é algo bem marcante no filme...

A questão do silêncio tem várias razões pessoais para existir no filme. Existe o fato de que na minha família materna, com quem eu convivi muito na minha infância, os meus avós falavam pouco. Se eu ouvi eles falarem três ou quatro palavras, foi muito. Eles eram pessoas muito taciturnas, silenciosas, muito calados. E a vida para eles era isto: conversar era uma coisa não usual. Eu cheguei a uma hipótese também que o silêncio ocorre porque todo mundo que está ali não pertence àquele lugar. Na fazenda, há uma diáspora geral: o português não pertence a ela, a menina não pertence a ela, os escravos não pertencem à fazenda. Há o encontro de inúmeras diásporas, digamos. Estão todos fora de suas casas forçados a viver em outro lugar. Nesse ambiente não é a conversa que impera, e sim o silêncio. A impossibilidade da comunicação, do convívio, de se estabelecer convívios possíveis. Eu também fui muito inspirada por Vidas Secas, do Graciliano Ramos, e pela adaptação para o cinema feita pelo Nelson Pereira dos Santos. São duas das coisas que mais me impactaram do que li e vi na vida, e que tratam do silêncio, da dificuldade de comunicar, de se estabelecer conversas entre as pessoas. E eu acho isso fascinante.

Ao mesmo tempo que transmite tristeza e desencantamento, Vazante é um filme esteticamente muito bonito. De onde veio a escolha pela imagem em preto e branco?

A minha preocupação era com a questão da verossimilhança. Minha intenção era tentar realmente criar uma imagem que fosse rigorosamente parecida com o que a gente sabe sobre o passado. Porque, enfim, não existe essa imagem. É sempre uma fantasia. Mas a gente tentou levantar tudo o que existe na historiografia sobre para poder fazer uma hipótese verossímil do que seria esse tempo. Enfim, cinema que me comove e movimenta emocionalmente é aquele que usa a tela toda. É o cinema que eu sempre amei. O cinema do Antonioni, do Kubrick, do mexicano Carlos Reygadas. Eu tenho paixão pelo cinema da paisagem. Eu acho que o horizonte o cinema são irmãos. Eu realmente tenho um fascínio pelos grandes paisagistas do cinema. E indo nesse lugar com grandes horizontes que a gente foi, realmente eu tive um flerte com essa coisa da paisagem.

O mexicano Inti Brionis é o responsável pela direção de fotografia. Como ele chegou ao projeto?

Eu conheci o Inti num trabalho que ele fez junto com o Felipe Hirsch na MTV chamado A Menina Sem Qualidades. Fiquei encantada com ele. Na sequência, tivemos uma conversa super produtiva. E ele encarou uma proposta louca que fiz, que era de não filmar com luz. A gente não usou luz natural. Nessa minha obsessão com a questão da verossimilhança, não dava para colocar um refletor naquela casa. Então a gente usou velas e bicos de gás pra ajudar no fogo das fogueiras. Não usamos nem lanterna. Nem nas situações mais extremas. O Inti é muito CDF [risos], é uma pessoa com bastante recurso e acabou descobrindo um equipamento com uma sensibilidade altíssima e que só filma em preto e branco. Então a gente pode trabalhar com uma sensibilidade muito alta, podendo filmar nessas condições tão particulares.

O que você levou de aprendizado do debate que ocorreu no Festival de Brasília após a sessão de Vazante?

Muitas coisas. A questão principal é como tornar possível a convivência entre a qualidade atávica de uma obra de arte - que é a liberdade de criação e independência - e as necessidades que eu acredito e partilho - que dizem respeito à melhora da vida dos negros no Brasil, a representatividade do negro nas artes e na vida cotidiana do País. A convivência entre essas questões não é fácil. Porque as necessidades dessa militância não tem nada a ver com uma obra sutil, que trabalha num diapasão não-militante e que não está em busca de respostas das questões que a militância está colocando no momento. Esse filme não tem como ser pensado a partir desse lugar sem falhar. Mas, ao mesmo tempo, ele existe como obra e tem direito a existir. Porque uma obra de arte não é feita para agradar. Ela é feita. Ela não pode "ser feita para". Eu tenho um amigo que diz que a obra de arte ideal é aquela que não serve para nada [risos]. Mas, nesse caso, não é bem assim. Esse filme tem um objetivo de ter um olhar afiado para o passado. Mas ao mesmo tempo sem nenhum desejo de resolver as questões. Apenas de apontar, mostrar. O que é curioso é que eu não tinha noção...

Você foi pega de surpresa com a reação do público negro no festival?

Sim, porque eu tinha - não tenho mais - uma inocência enorme a respeito dos tons dos debates sobre raça no Brasil. E depois eu fui aprendendo que são assim. São muito quentes. Muito acalorados. Esse calor faz parte desse momento da luta e do debate. E, por ignorância, eu não sabia disso, não estava envolvida nessas discussões. Então fui pega de surpresa num festival de cinema participando de um debate que poderia estar acontecendo na Universidade de Brasília. E foi assustador.

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E você acredita que é importante esse calor no debate sobre questões raciais?

Eu acho imprescindível. Mas eu acho que são duas coisas não excludentes. Não deve excluir a existência de uma obra de arte, nem a do debate. É uma convivência complexa. Por outro lado, o fato do filme ter ganhado o poder de estimular esse debate, levá-lo para a televisão, para você, o fato de você estar me entrevistando agora. A quantidade de matérias que esse filme suscitou por causa desse debate trouxe pra frente a questão da representação do negro no audiovisual brasileiro. E para mim isso é um privilégio incrível. Eu acredito nessa luta. Eu sou completamente crente de que a dívida do Brasil com o negros é infinita. A gente não pode viver mais com essa sombra da escravidão perseguindo a vida das pessoas. Se o filme contribuiu de alguma maneira para esse debate, ele se tornou algo que eu jamais poderia sonhar.

Em São Paulo, três salas estão exibindo Vazante. Já Liga da Justiça, por exemplo, está em cartaz em pelo menos 15 salas. Como você analisa essa questão da distribuição de filmes no Brasil?

Essa é uma melancólica constatação. Isso acontece não só no Brasil, mas em países do mundo inteiro. O cinema de autor ou o cinema que não é ligado às grandes corporações americanas estão realmente se despedindo das telas. Eu acho até que o próprio exercício de estar por duas horas no cinema, apartado do seu celular, está sendo muito sacrificante para a maioria das pessoas. E agora, enquanto você está tendo a experiência, você tem que comunicá-la. Você tá comendo, você comunica a comida; você está com os amigos, você comunica os amigos. As experiências são reportadas instantaneamente. E o cinema te obriga a ficar duas horas separado dessa convivência contínua com os amigos e com as pessoas. Sinto que estou me despedindo do cinema. Me parece que o cinema vai ser cada vez mais uma experiência de quem vai, por exemplo, num parque da Disney. O cinema como uma experiência temática. Eu vejo o Fernando Meireles fazendo filme para a Netflix, que não vai nem numa tela mais, por exemplo. Existe uma despedida melancólica do cinema. Eu não tinha expectativa, especialmente aqui no Brasil, pois acho que o cinema brasileiro tem uma péssima reputação para as pessoas que ainda querem ver filmes na telona. O cinema, por outro lado, tem uma coisa genial que é a perenidade. Eu assisto filmes que foram feitos desde cem anos atrás até, sei lá, semana passada. Então, existe alguma coisa mítica sobre o produto filme que ainda é fascinante, que ainda atrai as pessoas para os títulos. Isso é importante e acredito que ainda tem algum tempo de vida.

Assista ao trailer de Vazante:

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