LGBT

A história do casal gay que fugiu do Irã com a esperança de uma vida melhor nos EUA

"Não tenho medo de Donald Trump, mas tenho medo da ideologia que ele representa"

20/11/2017 19:03 -02 | Atualizado 20/11/2017 19:10 -02

Courtesy of Ramin Haghjoo
Nima Nia (à esq.) e Ramin Haghjoo posam para foto em seu casamento, em agosto.

Na melhor das hipóteses, se Ramin Haghjoo e Nima Nia ainda morassem no Irã, estariam casados. Mas não um com o outro – e sim com mulheres, provavelmente casamentos arranjados. Talvez eles tivessem encontrado mulheres atraídas por mulheres procurando esconder sua homossexualidade, como fez um dos amigos de Haghjoo. Em um cenário mais sombrio, eles estariam mortos ou presos pelo crime de ser quem são: gays.

Em vez disso, Haghjoo e Nia se mudaram para os Estados Unidos, onde se casaram em agosto.

Os dois vieram como refugiados há vários anos, depois de fugir do Irã via Turquia. As coisas estão melhores no novo país, e ambos veem sua história como um sinal de esperança para outros LGBTQ iranianos. Eles estão vivos, casados e vivem abertamente como gays.

Mas Haghjoo e Nia também estão num país em que o presidente quer impedir a entrada de refugiados iranianos e de vários outros países majoritariamente muçulmanos, afirmando que essas pessoas representam ameaça à segurança dos Estados Unidos. E eles estão preocupados com o que vai acontecer – e já está acontecendo – com as pessoas da comunidade LGBTQ num país sob governo republicano.

Eles querem que o Irã mude para que pessoas como eles possam ser aceitas como casais gays. Eles querem que os Estados Unidos mudem para que eles possam ser aceitos como refugiados gays do Irã.

"Depois de cruzar tantas fronteiras, qual será meu próximo país amanhã?", postou Haghjoo no dia da eleição presidencial americana do ano passado.

A história de Ramin Haghjoo

Haghjoo, 31, cresceu em Teerã, numa família que o apoiava, mas ainda assim enfrentava dificuldades. Ele saiu do armário aos 19 anos, para uma enfermeira, que disse que ele deveria contar para sua família. Eles o aceitaram, em grande parte – com exceção de um irmão que o agrediu verbalmente até que sua mãe ameaçou deserdá-lo.

Courtesy of Ramin Haghjoo
Haghjoo ajusta a gravata antes do casamento.

Por causa de sua sexualidade, considerada um problema mental no país, Haghjoo foi isentado do serviço militar obrigatório para todos os iranianos. Ele morria de medo de falar sobre sua sexualidade, pois o Irã é um lugar perigoso para pessoas LGBTQ. A homossexualidade é ilegal, e sexo entre homens pode ser punido com a morte. Beijar ou simplesmente confessar homossexualidade também pode receber punições. Embora existam redes secretas para a população LGBTQ, muitas delas na internet, as pessoas convivem com o medo constante de exposição.

Mas Haghjoo também queria ser honesto a respeito de si mesmo, além de fugir do serviço militar, porque ele pode ser perigoso mesmo para gays ainda no armário.

Ele corria outros riscos. Em um protesto em junho de 2009, durante o Movimento Verde – que pediu a derrubada do então presidente, Ahmoud Ahmadinejad – ele gritou para um senhor e uma senhora que estavam na mira de um militar uniformizado. O homem virou a arma para Haghjoo e atirou. A bala atingiu o lado direito de seu abdome. Ele teve retirados quase 30 centímetros de seu intestino na cirurgia e ficou quase uma semana no hospital.

Haghjoo falou da experiência de ser baleado para um documentarista e depois soube que o filme se concentraria em sua história. Ele ficou com medo da atenção que receberia e decidiu fugir para a Turquia. O documentário foi exibido uma semana depois de sua fuga. Ele quis voltar, mas sua mãe achava que não seria seguro. "Não volte", disse ela.

A história de Nima Nia

Nia, 29, começou a receber mensagens de texto de um número desconhecido em 2006. A primeira dizia "Feliz Dia dos Namorados", e o número era da cidade de Isfahan, onde ele estudaria nos próximos anos. Inicialmente, ele respondeu as mensagens, achando que era de alguém das salas de bate-papo LGBTQ. Mas depois ele parou. Quando chegou a Isfahan, recebeu mais uma mensagem. "Bem-vindo à nossa cidade." Nia não respondeu.

Logo depois chegou outra mensagem, ameaçando telefonar para ele em casa. Aí, o telefone de sua casa tocou.

O homem disse saber que Nia era gay e que nada ruim aconteceria com ele se ele cooperasse, indo à casa do homem e denunciando outros gays. Nia não confirmou ser gay nem entregou os nomes de outras pessoas, mas o homem continuou telefonando.

Na faculdade, um segurança disse que um homem estivera procurando por ele e perguntando sobre sua rotina. Nia achou que estava sendo seguido.

Certo dia, o homem ligou dizendo que estava perto da casa de Nia. Ele ouviu sirenes pelo telefone e pela janela. Ficou com medo.

Courtesy of Ramin Haghjoo
Nia sorri no dia de seu casamento.

Depois de meses de assédio, Nia conheceu outro homem que trabalhava como segurança em um banco e contou o que estava acontecendo. O segurança contatou o autor do assédio, e as ligações pararam.

Mas, quando Nia começou a sair com o segurança, novos problemas surgiram. O segurança começou a ser hostil, ameaçando Nia e sua família. O problema só desapareceu quando Nia foi servir o exército em outra cidade. (Ele decidiu não revelar sobre sua sexualidade para as autoridades.)

Quando voltou a Mianeh, dois meses depois – seu serviço militar obrigatório foi mais curto porque seu pai havia combatido --, Nia arrumou uma nova casa e um novo telefone. Voltou para a faculdade para estudar arte. Mas ainda assim não se sentia seguro – todas as ligações de números desconhecidos o deixavam nervoso, e ele tinha medo que atirassem algo contra sua janela.

Nia finalmente decidiu que não poderia continuar em seu país, apesar de faltar só um semestre para se formar. Ele fugiu para a Turquia, deixando sua vida e a arte para trás.

A vida de refugiados

Haghjoo chegou antes à Turquia, em 2010. Ele e Nia eram amigos em Teerã, mas só começaram a namorar depois de deixar o Irã.

Durante oito meses, Haghjoo esperou para ver se conseguiria entrar nos Estados Unidos como refugiado, com base na perseguição que sofria por sua orientação sexual, suas convicções políticas e sua religião. Ele é sufi, e praticantes dessa vertente mística do islamismo são perseguidos pelo governo xiita do Irã. Nia, por sua vez, pediu asilo nos Estados Unidos com base na perseguição que sofria como homossexual.

Outros iranianos na Turquia diziam que ser gay facilitava as coisas para Nia e Haghjoo – o processo de asilo deles seria mais rápido do que para os refugiados políticos. Mas essas pessoas não entendiam que ser gay no Irã "era uma prisão", diz Nia.

A vida na Turquia também era difícil. Eles não tinham dinheiro, e às vezes passavam fome esperando a transferência de dinheiro de suas famílias. Nia foi expulso da casa que alugava durante o inverno, porque o dono a vendeu.

Mas pelo menos eles estavam juntos. Quando Haghjoo disse pela primeira vez que amava Nia, Nia não estava pronto para responder. Somente em 2011, quando Haghjoo soube que seria aceito nos Estados Unidos e começou a organizar a mudança, Nia finalmente disse que amava o namorado. Outro ano se passou até que o pedido de asilo de Nia fosse aceito. Ele reencontrou o parceiro na Filadélfia em novembro de 2012.

Mudar-se para os Estados Unidos foi difícil, mesmo que eles achassem que aquela era a melhor opção. O direito de ser cidadãos de seu país de origem lhes fora retirado. Ambos também tinham medo que algum familiar ficasse doente e morresse, e eles não poderiam voltar para dizer adeus. "Abandonei todas essas coisas lindas e enormes em troca da liberdade", diz Nia. "Não é justo."

A vida nos Estados Unidos

A adaptação à vida nos Estados Unidos não foi fácil. Nia trabalhou em empregos que odiava, incluindo um armazém do Walmart. Ele não tinha como usar o que aprendera na faculdade de artes – tinha de agarrar as oportunidades existentes para um recém-chegado aos Estados Unidos. Nia começou a perder as esperanças no país.

Em 2014, o casal se mudou para Washington em busca de empregos melhores. Nia finalmente conseguiu um trabalho criativo: fazendo design e produção para o podcast de uma organização sem fins lucrativos. Mas ele saiu daquele emprego porque não era bem tratado, diz Nia. Agora ele está produzindo uma história em quadrinhos narrado por um gato. Haghjoo trabalha como pesquisador de direitos humanos para uma outra organização sem fins lucrativos.

Humans Of New York
Haghjoo e Nia apareceram no projeto fotográfico Humans of New York.

A eleição de 2016 foi difícil de acompanhar para o casal. Ambos acham que o sentimento anti-LGBTQ está mais explícito desde a chegada de Donald Trump à Casa Branca. O presidente tentou impedir que transexuais sirvam nas Forças Armadas, e o Departamento da Justiça afirmou que a Lei dos Direitos Civis de 1964 não proíbe discriminação baseada em orientação sexual. Haghjoo diz que tem um medo "muito real" de sentir-se ameaçado em regiões do país pró-Trump. Ele evita ir a esses lugares.

Os esforços de Trump para impedir que iranianos e cidadãos de outros países majoritariamente muçulmanos também os atingem. Não faz sentido punir as pessoas contrárias às políticas dos governos de seus países pelo que fazem esses governos, diz Haghjoo. Barrar refugiados parece particularmente cruel. Os americanos deveriam tentar se colocar na posição dos refugiados e pensar no que essas pessoas passaram.

"Não tenho medo de Donald Trump, mas tenho medo da ideologia que ele representa", diz Nia. "Essa ideologia não é bondosa, não é pró-direitos humanos, não é pró-diversidade."

Haghjoo diz que "está cansado de lutar por direitos" e, se os homossexuais começarem a perder direitos como aconteceu no Irã, ele vai embora.

"Só se mudarmos para outro planeta", disse Nia.

Celebração

Mas nem tudo é notícia ruim. Em janeiro, Nia pediu Haghjoo em casamento, em Boston. Foi surpresa – Haghjoo achava que seus amigos estavam se reunindo na cidade para comemorar seu aniversário. Nia mostrou um vídeo com fotos dos dois, ao som de "Dance Me to the End of Love", de Leonard Cohen. Aí chegou um bolo decorado com a foto do casal e as palavras: "Casa comigo". Todos choraram.

Courtesy of Ramin Haghjoo
Haghjoo e Nia de mãos dadas depois da cerimônia de casamento.

Haghjoo e Nia se consideram opostos em alguns pontos. Seria chato estar com alguém muito parecido, diz Nia. Ele adora que seu marido é gentil com todo mundo e se sente responsável pelas pessoas à sua volta. "Me apaixonei por tudo isso, infelizmente", brinca Nia. Haghjoo ama a sinceridade e a dedicação de Nia às artes e à criatividade.

Os dois se casaram em 26 de agosto na cidade de Upper Marlboro, perto de Washington. A única pessoa da família presente foi uma irmã de Nia, que também vive nos Estados Unidos. A maioria dos parentes de ambos não apoia o casamento, apesar de a família de Haghjoo ter a cabeça aberta em relação a sua sexualidade. Mas, mesmo que os familiares quisessem ir do Irã para a casamento, teria sido praticamente impossível conseguir vistos. Seria difícil mesmo antes da ordem executiva de Trump impedindo a entrada de iranianos nos Estados Unidos. (Essa ordem foi derrubada na Justiça.)

Courtesy of Ramin Haghjoo
A cerimônia de casamento de Nia e Haghjoo.

Haghjoo e Nia celebraram mesmo assim. A primeira dança foi uma música com letra de Seyed Medhi Mousavi, um refugiado político iraniano que hoje mora na Noruega. Ele escreveu a música especificamente para o casal.

"Imagine que há uma pessoa para você, que quer deixar o choro para trás", diz a letra, traduzida do persa. "É a pessoa que você viu nos seus sonhos, quem entende a profundidade da sua dor. Que é diferente do resto do mundo, que sabe que a vida é difícil, que tem seus próprios problemas, mas ainda assim, a seu lado, está feliz!"

Courtesy of Ramin Haghjoo
Os recém-casados posam para uma foto.

Nia e Haghjoo querem contar sua história para que outros gays vivendo com medo saibam que é possível encontrar uma vida fora do armário – mesmo que você tenha de deixar tudo para trás. "Deixei dinheiro, meu carro, minha casa, meus amigos", diz Haghjoo. "Perdemos muita coisa."

"Agora você quer construir uma nova vida, uma vida incrível, com seu amor", continua ele. "Às vezes eu digo que Nima é meu dinheiro, meus pais, meu irmão, meus amigos antigos, minha família. Ele é meu tudo."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost AU e traduzido do inglês.

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