MULHERES

Tia Ciata é a mãe negra do samba, que cedeu sua casa e sua vida para o estilo nascer no Brasil

Nascida Hilária Batista de Almeida, Ciata saiu da Bahia durante a diáspora para se tornar a dama do samba e do candomblé do Rio de Janeiro.

20/11/2017 05:44 -02 | Atualizado 20/11/2017 08:39 -02
Divulgação / Acervo da Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata
Tia Ciata é considerada matriarca do samba brasileiro e referência do candomblé no início do século 20.

Praça Onze, Rio de Janeiro, início do século 20. O quintal de Tia Ciata, no coração do centro carioca, era reduto da música, da fé e da resistência. Em sua casa, grandes compositores do Rio Janeiro se juntavam ao moradores da Pequena África - como era conhecido o bairro que abrigava negros, judeus e imigrantes - para festejarem, cantarem e dançarem samba de roda.

Foi naquele quintal festivo que Donga compôs Pelo Telefone. Em 27 de novembro de 1916, ele registrou sua composição como "samba carnavalesco" na Biblioteca Nacional. Era o primeiro samba registrado e gravado na História do País.

Ai, ai, ai / Dança o samba / Com calor, meu amor

Ai, ai, ai / Pois quem dança / Não tem dor nem calor

Tia Ciata não era só a grande anfitriã que recebia seus convidados com uma comida boa que só ela sabia fazer, mas era também parte da folia. Guiava e dançava como ninguém rodas de partido alto e miudinho - estilos de samba.

Ela é a grande matriarca do ritmo no País. Em entrevista ao Ministério da Cultura, a pesquisadora Rachel Valença, do Museu da Imagem e do Som, destaca a cultura matriarcal deste estilo:

"O homem era o provedor [na época], mas a mulher também vendia comida. Fora isso, era uma aglutinadora de cultura. A casa de Tia Ciata foi a mais marcante nesse sentido. O samba é o fenômeno mais impressionante do século 20, porque, em 100 anos, ele passou de perseguido a símbolo de uma nação, é uma trajetória muito gloriosa."

Tia Ciata era patrimônio do Rio de Janeiro, mas foi na Bahia que nasceu e cresceu. Nasceu Hilária Batista de Almeida, em Santo Amaro, no ano de 1854. Começou cozinheira, foi iniciada do candomblé e se tornou mãe de santo.

Viajou para o Rio com 22 anos durante a diáspora baiana, no final do século 19. De turbante na cabeça e vestido branco de baiana, saía pelas ruas da Cidade Maravilhosa para vender seus quitutes.

Ciata curou até presidente. Quando o Rio ainda era a capital do Brasil e o Palácio do Catete era a morada presidencial, ela foi chamada às pressas para ajudar o então presidente, Wenceslau Brás, a se curar de uma ferida na perna. Filha de Oxum, incorporou um orixá e entregou uma receita curadora para Brás.

Assim, Tia Ciata se consolidou como símbolo da resistência negra pós-abolição; de exaltação do candomblé quando a prática ainda era proibida; e precursora do samba quando ele ainda era "coisa de vagabundo".

Hoje, ela é também um símbolo para o feminismo negro. No final de agosto, o coletivo Mulheres de Pedra lançou um documentário curta-metragem sobre seu protagonismo na cultura do País. Assista ao trailer abaixo:

Quem são as heroínas negras do Brasil