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Assédio e ataques sexuais: A rotina que tem traumatizado advogadas em uma das maiores prisões dos EUA

As defensoras públicas da prisão do condado Cook têm de lidar com um ambiente de trabalho inacreditavelmente hostil.

16/11/2017 11:21 -02 | Atualizado 16/11/2017 11:36 -02

Jim Young / Reuters
A Cook County Sheriff's police car patrols the exterior of the Cook County Jail in Chicago on Jan. 12, 2016. 

Defensoras públicas que trabalham para o condado Cook, que inclui Chicago, têm de lidar com o que só pode ser descrito como um pesadelo em termos de assédio e ataques sexuais, segundo uma ação movida por seis advogadas em uma corte federal do estado de Illinois na quarta-feira da semana passada.

Os detentos da Cook County Jail, uma das maiores prisões dos Estados Unidos, mostram o pênis e se masturbam na frente das advogadas, assistentes legais e estagiárias, tornando o trabalho delas praticamente impossível, segundo a ação e outras queixas públicas.

A situação é amplamente conhecida, mas as autoridades pouco têm feito para resolver o problema, dizem as advogadas.

As mulheres acusam sua chefe, a defensora pública Amy Campanelli, e o xerife do condado Cook, Thomas Dart, de não tomar medidas para evitar os casos mais gritantes de ambiente de trabalho hostil.

"É difícil comunicar-se com os clientes quando outros presos estão expondo seus genitais, eretos ou flácido, e se masturbando, nos olhando ou gritando conosco para que olhemos", escreve Crystal Brown, uma das defensoras que entrou com o processo, em uma queixa separada registrada mês passado junto à Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego. "Esse comportamento é ofensivo, degradante e não é bem-vindo."

Nos primeiros dez meses deste ano, 222 detentos da cadeia foram acusados de atentado ao pudor e, em mais da metade dos casos, as vítimas trabalhavam na prisão – 29 eram defensoras públicas. Muitas não fizeram queixas formais por medo de retaliação, segundo a ação. Um número parecido de incidentes foi registrado no ano passado.

O processo vem num momento em que mulheres de todo o país e de diversas profissões estão vindo a público para falar de assédio sexual. Queixas de advogadas e funcionárias da prisão também vêm aumentando, pois mais mulheres vêm exercendo funções em campos que eram dominados por homens.

A defensoria pública não respondeu aos pedidos de entrevista do HuffPost a respeito do processo. Mas, em uma carta enviada em março a Dart, considerado um xerife progressista, Campanelli caracterizou a situação como "crise".

"Nossas advogadas são forçadas a trabalhar num ambiente traumatizante e debilitante", escreveu Campanelli. "Esses ataques afetam a segurança do ambiente de trabalho. As advogadas relutam em falar com clientes por medo de serem atacadas física ou sexualmente."

"Tornou-se difundido. Tentamos de tudo", escreveu Campanelli, defensora pública desde 2015.

Ela pediu ao xerife a presença de mais guardas. O xerife os providenciou na primavera, mas Campanelli disse que eles se foram em agosto, de acordo com reportagem do Chicago Sun-Times.

Nossas advogadas são forçadas a trabalhar num ambiente traumatizante e debilitante. Amy Campanelli, defensora pública do condado Cook

A carta de Campanelli ressalta um motivo chave pelo qual a situação vem se agravando nos últimos dois anos, segundo a ação. Neste caso, a defensoria pública tem como objetivo proteger as vítimas – suas funcionárias –, mas também proteger seus clientes, os presos.

Segundo a polícia, responsável pela prisão e pelas salas dos tribunais onde ficam os detentos, propôs medidas punitivas para lidar com o problema, mas a defensoria hesita em aceitar a solução.

Se um detento exibe a genitália numa sala do tribunal, por exemplo, a polícia queria impedi-lo de aparecer diante do juiz. Mas, em sua carta a Dart, Campanelli disse que essa solução não é viável, pois compromete os direitos do preso e significaria um atraso no andamento do processo.

"É frustrante, para dizer o mínimo, que, quando oferecemos uma solução criativa, elas são derrubadas pela defensoria pública", disse Cara Smith, responsável pelas políticas da polícia do condado Cook, ao HuffPost.

"Temos de deixar de lado por um instante o fato de que esses indivíduos são seus clientes", afirmou ela. "Ninguém deveria ter de trabalhar num ambiente desse tipo. Há anos estamos comprometidos com uma solução para este problema."

Smith afirma que as questões de atentado ao pudor e masturbação não são exclusivas do sistema prisional do condado. Mas a Associação dos Defensores Públicos de Illinois e a Associação dos Xerifes de Illinois disseram recentemente ao Chicago Sun-Times que nenhuma outra cadeia tem um problema na mesma escala.

A cadeia do condado Cook tem cerca de 7 500 presos e é conhecida por receber muitos doentes mentais. Segundo uma reportagem de 2015 da revista The Atlantic, um em cada três detentos sofre de algum tipo de doença mental.

Frank Polich / Reuters
Cook County correctional officers enter the maximum security part of the jail in Chicago on Feb. 12, 2006.

O comportamento dos presos é especialmente ruim nas áreas de segurança máxima, segundo a queixa, que enfatiza que os atentados ao pudor e a masturbação têm o objetivo de ameaçar as defensoras públicas.

Uma das autoras da ação, Samantha Slonin, entrou com um processo criminal contra um detento que se masturbou diante dela numa sala de tribunal no ano passado. Depois do incidente, ela foi obrigada a dividir uma sala com o mesmo preso três outras vezes, segundo o processo. Nessas ocasiões, o preso teria dito que iria "dar uma surra" em Slonin e "matá-la".

Outra advogada, Erika Knierim, pediu que Dart dissesse algo aos presos que mostravam suas genitálias. Segundo o processo, Dart afirmou que "ela poderia entrar com um processo, mas que nada aconteceria; no fim das contas, não [o problema] vai parar; e que ela deveria simplesmente fazer seu trabalho."

Smith, da polícia, diz que essas alegações não são verdadeiras. Ela também afirmou que a polícia não recebeu uma cópia da queixa.

As defensoras públicas também afirmam que foram apalpadas por detentos. E pelo menos um deles ejaculou numa defensora pública.

Os advogados homens não são sujeitos a esse tipo de assédio, mas eles são minoria. Mais de 60% da defensoria pública do condado Cook é composta por mulheres.

Apesar de muitas reclamações, reuniões e memorandos, afirmam as autoras do processo, pouco foi feito para resolver o problema.

Se um defensor público faz uma queixa, o detento é indiciado por atentado ao pudor, um delito leve. Mas isso não tem surtido efeitos na contenção do problema, pois muitos dos presos já são acusados de crimes muito mais graves, diz a ação.

As mulheres também temem represálias, segundo o processo. Uma defensora que registrou queixa foi objeto de reclamações de seus superiores e de outros integrantes do sistema judicial.

Brown e as outras mulheres que entraram com o processo dizem que o objetivo é conseguir a certificação de ação coletiva, para que o processo represente pelo menos 200 advogadas e estagiárias da defensoria pública.

Leia o texto completo da ação aqui.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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