MULHERES

Os números do assédio sexual e moral no mercado da publicidade mostram ambiente bastante hostil

Pesquisa inédita sobre mercado da publicidade em São Paulo indica que, na área, o algoz do assédio geralmente já foi vítima.

15/11/2017 15:09 -02 | Atualizado 15/11/2017 15:09 -02
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Entre as profissionais que relataram o assédio sexual, 39% dizem que sofreram o abuso com contato físico.

O que é preciso para sobreviver no mercado da publicidade?

Uma pergunta que à primeira vista parece que resposta fácil: talento, esforço, criatividades...

Não.

Para as mulheres, "muitas vezes é preciso se masculinizar para sobreviver no mercado". O discurso, ouvido pelo HuffPost Brasil no início deste ano, também foi relatado no estudo "Hostilidade, silêncio e omissão: o retrato do assédio no mercado de comunicação em São Paulo".

Os dados que unem assédio moral e sexual mostram que 90% das mulheres e 76% dos homens afirmam já terem sido vítimas. O percentual está acima da média de outros mercados. Pesquisa da Vagas.com mostra que 52% dos profissionais relatam já ter sofrido algum tipo de assédio.

A primeira estatística sobre assédio moral e sexual no mercado da publicidade indica que até os homens precisam criar uma "casca" — que normaliza a hostilidade.

A sondagem afirma:

"Os resultados mostram a existência de um ciclo de repetição de hostilidade - que definitivamente não nasceu hoje, mas, sim, foi originado há décadas e vem se mantendo através do silêncio e omissão. O estudo aponta para a existência de pessoas afirmando terem sofrido assédio moral em diferentes níveis: presidentes e sócios são apontados como assediadores por 22% dos estagiários e assistentes, enquanto diretores, principal interface sênior com as equipes, surgem como os que mais afirmam terem sido assediados (83%), ao mesmo tempo que são citados como assediadores por 63% do total da amostra."

Como resumiu Renata D'Ávila, presidente do grupo e CSO da agência F.biz, a vítima também é o algoz. "Se você tem 22% de estagiários assediados por quem está no topo, esses estagiários vão se tornar diretores que assediam, presidentes que assediam, e esse ciclo vai continuar." Ela cita como exemplo do assédio sofrido os prazos bastante apertados demandados em relação aos clientes.

Assédio sexual

As mulheres foram as que mais relataram casos de assédio sexual. Uma em cada duas disse já ter sofrido esse tipo de abuso no trabalho. Entre as que relataram o assédio sexual, 39% dizem que já sofreram abuso com contato físico — a maioria das vítimas são da área de criação.

Um dos padrões identificados na pesquisa foi o das mulheres jovens que entram na agência e são assediadas pelo superior e, quando o homem percebe que ela não quer nada com ele, ele passa a boicotá-la. Este tipo de ambiente, ressalta D'Ávila, impede que a mulher se sinta livre e faz que ela queira fugir.

Há casos em que as pessoas ao redor de quem é assediado tentam minimizar o abuso. Dizem que era só uma cantada, que todos são adultos. Entre as histórias espontaneamente coletadas na sondagem, há de uma mulher que já ouviu de um superior inúmeras vezes que "era de uma bunda dessas que precisávamos aqui". "Chorei inúmeras vezes quando isso aconteceu. Contei no RH e disseram que eu devia agradecer que gostavam de mim", relata a entrevistada.

Os homens também são os algozes dos homens. Entre os entrevistados, o índice dos que já sofreram assédio sexual é de 9%, e a maioria deles (72%) afirma que foi assediada por outro homem.

Doenças do assédio

A hostilidade não se esgota em si; ela também resulta em doenças psíquicas. Há relatos de crises de choro, síndrome de ansiedade, sentimento de inutilidade, abuso de bebida alcoólica. E 10% dos que já tiveram algum sintoma relatam que já tiveram pensamentos suicidas.

Renata D'Ávila pontua que nos ambientes onde há canais para denúncia a ocorrência de assédio é menor.

O Grupo de Planejamento em parceria com o Instituto Qualibest recebeu 1.400 respostas de profissionais de agências, produtoras e veículos entre os dias 10 e 30 de outubro. A margem de erro é de 2,68 pontos percentuais, o público ouvido foi formado por 68% de mulheres e 32% de homens, com idade média de 33 anos.

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