POLÍTICA

Manuela D'Ávila critica perdas de direitos das mulheres no governo Temer e propõe revisar teto de gastos

Em entrevista ao HuffPost, a deputada estadual (PCdoB-RS) falou sobre pré- candidatura, atual governo e impacto das redes sociais nas campanhas.

16/11/2017 08:49 -02 | Atualizado 16/11/2017 08:49 -02
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Manuela D'Ávila é pré-candidata à Presidência pelo PCdoB.

Aos 15 anos, a deputada estadual gaúcha Manuela D'Ávila iniciou a sua militância política como filiada da União da Juventude Socialista (UJS) e se tornou um dos maiores nomes de liderança do movimento estudantil. Aos 23, ela iniciou o seu primeiro mandato no PCdoB. Hoje, aos 36, ela disputará a eleição presidencial de 2018 sob a sigla do partido que desde 1989 não propõe uma candidatura própria, mas vinha integrando coligações lideradas pelo PT.

Para Manuela, o principal motivo da pré-candidatura independente é a preocupação do PCdoB com o acirramento da crise política no Brasil.

"Achamos que essa eleição, da forma como ela está sendo construída, tem privilegiado aqueles que se organizam sob os argumentos de ódio e do medo da população. A gente não vive necessariamente a polarização de ideias, de alternativas para a saída da crise. Então, nós queremos debater estratégias e não queremos continuar nessa disputa do ódio e no medo que alguns candidatos permanecem", explicou a pré-candidata em entrevista ao HuffPost Brasil.

Defensora dos direitos das mulheres, Manuela se tornou um símbolo da resistência delas na política ao mostrar que é possível conciliar a maternidade com os seus deveres públicos. Mãe da pequena Laura, não raro a deputada foi vista amamentando a menina em meio às reuniões do plenário, compostas em sua grande maioria de homens - dos 55 deputados estaduais, apenas oito eram mulheres.

Para ela, a gestão atual de Michel Temer é uma afronta às mulheres não só em relação aos direitos reprodutivos e sexuais, "mas quando alija as mulheres do desenvolvimento econômico" e na proposição de emendas que congelam o investimento em políticas públicas.

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Em entrevista ao HuffPost Brasil, a deputada comentou sobre a candidatura, sobre o atual governo, sobre o crescimento de Jair Bolsonaro nas pesquisas e sobre a preocupação do uso das redes sociais nas eleições de 2018.

Leia a íntegra:

HuffPost Brasil: O PCdoB não é um partido novo, mas tradicional, disputando em um cenário em que 'gestores' e 'não políticos' ganham cada vez mais representatividade. Qual o significado de sua candidatura em um contexto de polarização política? De que forma a sigla seria uma oportunidade de reciclar a política do País ao ocupar a Presidência?

Manuela D'Ávila: É um momento muito importante de disputa dos rumos do País nessa eleição particularmente. É um momento de discussão intensa sobre as saídas brasileira dessa crise. O mundo vive uma crise imensa, mas o Brasil vive uma crise econômica e política que persiste, e a gente não vê sinais da busca de convergência para a sua saída. E é por isso que nós apresentamos a candidatura.

Achamos que essa eleição, da forma como ela está sendo construída, tem privilegiado aqueles que se organizam sob os argumentos de ódio e do medo da população. A gente não vive necessariamente a polarização de ideias, de alternativas para a saída da crise. Então, nós queremos debater estratégias e não queremos continuar nessa disputa do ódio e no medo que alguns candidatos permanecem. A gente tem que escolher, enquanto povo, se a eleição será um acirramento da crise ou um momento de reflexão para a construção de saídas.

Em relação aos candidatos que se apresentam como políticos não tradicionais, eu acredito que não há nada pior para a eleição do que o abuso do marketing, no sentido do disfarce. A maior parte das candidaturas que se colocam como outsiders são candidaturas de insiders, de pessoas que fazem parte do sistema político e são responsáveis por construir as relações de poder da política brasileira.

Esse debate sobre gestão é importante, mas é insuficiente enquanto saída para crise. Faço mestrado em políticas públicas e um dos centros dos estudos é em formas de gestão. Mas achar que a crise brasileira se resolve com a gestão do Estado, ou seja, com a diminuição de processos e procedimentos, ou até com a desburocratização, é uma ingenuidade. A crise brasileira deve ser enfrentada a partir de medidas estruturantes que possam garantir o crescimento da economia, a retomada da indústria nacional, e isso não se resolve com gestão, isso se resolve com um projeto nacional. Gestão é importante, mas superestimar o que é gestão, diante do papel que o Estado deve ter como indutor de sua economia, é dar um peso equivocado à coisa.

A senhora também chegou a falar em relação fraternal do seu partido com o PT. As propostas do PT não convergem mais com as do PCdoB? Em que ponto se distanciam?

Nós somos um partido de 95 anos, temos as nossas propostas desde sempre. Uma parte das nossas propostas é historicamente próxima do PT, mas outras não. Senão seria só um partido.

Um dos principais eixos da minha candidatura é o tema do projeto nacional, ou seja, é a gente pensar em como a gente vai melhorar a vida das pessoas a partir da retomada da indústria nacional e de um projeto sólido. Mas precisamos pensar em como fazer isso.

A ideia do PCdoB é criar uma frente ampla e popular. Ou seja, nós não somos os donos desse projeto nacional ou os únicos que possuem as respostas para a saída da crise. Nós achamos que é preciso construir convergências, consensos entre os partidos, claro, mas também entre as pessoas, movimentos sociais, aquilo que os espanhóis chamaram na última eleição de os 'comuns'. As pessoas normais, que vivem a crise no seu dia a dia e que podem pensar junto conosco os próximos rumos do Brasil.

Os setores da indústria nacional, por exemplo. Como a gente vai retomar o crescimento da economia se a gente não discutir a indústria com quem investe no Brasil?

Como a senhora avalia as críticas de que sua candidatura divide os votos da esquerda?

O PT pode fazer parte dessa discussão. Mas nós vamos apresentar as nossas propostas para o 1º turno e defendemos que o nosso campo político esteja junto no 2º com qualquer candidato que estiver lá.

Acha que o espaço para as mulheres na política foi reduzido após o impeachment de Dilma Rousseff?

A gente vive um momento de diminuição do papel do Estado, as políticas públicas vivem um momento de diminuição de direitos sociais e de direitos individuais. As mulheres são as mais prejudicadas com isso. Então, sim. No governo Temer, as mulheres perderam muito.

São elas que mais sofrem com todo o conjunto da reforma trabalhista. Basta dizer que hoje as grávidas podem trabalhar em ambientes insalubres. Talvez essa seja a cara da preocupação do governo Temer com os direitos das mulheres. Num momento de crise econômica, você permitir que grávidas trabalhem em ambientes insalubres é a prova de uma redução dos direitos das mulheres.

As mulheres são as maiores utilizadoras dos serviços de saúde. Então, quando você diminui o Estado, por exemplo com o congelamento dos gastos que foi aprovado por 20 anos, você está dizendo que o Estado deixará de aportar recursos em políticas públicas que são estruturantes paras as mulheres. Quem é que deixa de ir para o trabalho quando uma vaga em creche não é ofertada? É a mulher.

Então, a gente precisa compreender que muito além dos direitos reprodutivos e sexuais, o debate de desenvolvimento do Brasil é um debate vinculado ao tema de gênero e das mulheres. Não existe como o Brasil se desenvolver, retomar a indústria, pensar em empregos de qualidade ou na indústria 4.0 se as mulheres permanecerem alijadas desses segmentos.

De cada mil jovens, apenas 22 optam por carreiras vinculadas às áreas da tecnologia. Desses 22, apenas um é mulher. Então a gente está dizendo que esse crescimento econômico, que para mim passa pela indústria 4.0, precisa das mulheres ou ele não acontecerá em nosso País.

Caso eleita, qual seria a sua estratégia para viabilizar pautas de direitos das mulheres em nosso Congresso?

Todas as pautas precisam ser postas pela sociedade. As mulheres brasileiras já mostraram historicamente, mas principalmente neste último período, de forma muito intensa, que serão ouvidas, que se farão ser ouvidas. As mulheres vão mais às ruas. Eu acredito que o Congresso vai ouvir elas, e nós precisamos estabelecer pontes de diálogos. O governo precisa ter espaço para essas pautas. Algumas que passam pelo Congresso e outras que não passam.

A minha ideia, por exemplo, de discutir um referendo revogatório da emenda 95 de congelamento de gastos é conversar com as mulheres sobre isso. Porque um governo de homens que corta as políticas públicas será que levou em consideração o que pode acontecer com as mulheres mais pobres? A gente precisa fazer esse recorte de gênero para todas as pautas vinculadas ao desenvolvimento do País.

A senhora iniciou sua vida política bastante cedo e, em um cenário possível para 2018, deve ser uma das candidatas mais jovens da próxima eleição. Acredita que este seu amadurecimento político seria um possível ponto de identificação com a parcela mais jovem dos eleitores?

Eu já não sou tão mais jovem. Mas a gente tem uma renovação geracional da política no mundo. A França tem um presidente de 39 anos [Emanuel Macron], o Canadá tem um primeiro-ministro de 45 anos [Justin Trudeau], a prefeita de Roma [Virginia Raggi] tem 39 anos. Existe uma alteração geracional, e é preciso entender que nós estamos longe de ser adolescentes, somos adultos. Uma parte grande da população brasileira sequer chega aos meus 36 anos, sobretudo quando a gente pensa nos jovens pobres do País. Então, eu acho que cada vez mais não só a minha geração mas as que estão por vir precisam e querem debater o futuro do País.

Recentemente, assistimos às manifestações contrárias à pesquisadora Judith Butler em São Paulo. Não raro discursos extremistas são veiculados nas redes sociais sobre o debate da questão de gênero. Como a senhora enxerga este momento? Qual o papel do Estado nessa discussão?

A eleição não é o momento de nós aprofundarmos a crise. De darmos espaço para aqueles que apostam no ódio e no medo como instrumentos políticos. Eu acho que a eleição é o momento de construirmos saídas. Eu acho que o povo brasileiro é muito maior que esse ódio e esse medo que tentam fazer a gente sentir em nosso cotidiano. Eu também acho que o próximo governo, dentro do que a gente chama de frente ampla, pode construir um ambiente de respeito às diferenças. Hoje a gente vive um contexto em que temos que eliminar as diferenças, que para mim é uma ideia antidemocrática. E esse Congresso tem sido um instrumento de aumento do ódio e do medo. De eliminação daqueles que pensam diferente. E já passou da hora de nós virarmos essa página.

Na sua primeira entrevista coletiva como pré-candidata, a senhora disse que contraponto ao Bolsonaro é o bom senso. No entanto, ele só cresce nas pesquisas. Falta bom senso?

Esse medo que as pessoas sentem é um medo legítimo porque tem relação com o que elas pensam para o seu futuro. A crise econômica faz que as pessoas tenham essa preocupação legítima. Como eu vou sustentar o meu filho? Como eu vou lidar com o grau de violência urbana de nossas cidades? Então esse medo faz parte do cotidiano da gente, e o Bolsonaro tem feito questão de aglutinar e intensificar esse medo.

Eu acho que o bom senso é o melhor opositor ao Bolsonaro porque na eleição as pessoas vão ter acesso às propostas dos candidatos. E na realidade eu não vejo nenhuma proposta que o Bolsonaro apresenta para enfrentar a crise do Brasil. Pelo contrário, as propostas dele agravam essa crise e aumentam o medo e o ódio.

Qual a proposta dele para a indústria nacional? Amar o Brasil como eu amo e como sou uma patriota? Mas isso tem que ser traduzido em políticas públicas. A gente não está concorrendo para ver quem gosta mais de um símbolo pátrio. Ser presidente da República não é causar na internet. Ser presidente da República é ter propostas para enfrentar a crise do Brasil. Como é que a gente vai unir o Brasil para enfrentar a crise e retomar o crescimento econômico? E a quem vai servir esse crescimento? Mas eu realmente acho que quando a campanha começar a rodar, as pessoas vão enxergar que nele não há propostas para a saída da crise.

Como a sua campanha pretende lidar com a exposição nas redes e os ataques online?

Eu uso as redes sociais desde sempre. Em 2005 eu já usava o Orkut para prestar conta do meu mandato. Sempre tentei ampliar as minhas ferramentas de conexão com as pessoas. Acho que o próximo governo também tem que ter a radicalidade democrática de incluir o ambiente digital, não só em período eleitoral, mas de entender o papel democrático que podem ter as ferramentas digitais como instrumentos de participação e transparência.

Agora, a gente não pode ter a ilusão de uma falsa democracia nas redes sociais. As redes são espaços de amplo poder econômico, a gente viu o que aconteceu nas eleições dos Estado Unidos com as ferramentas de big data, da robotização de perfis falsos, da disseminação de fake news.

É claro que eu uso a internet ao meu favor, por conta de seu baixo custo e da velocidade com que eu interajo com as outras pessoas. Mas eu não tenho ilusões. Eu me preocupo em como ela será utilizada nessas eleições.

Em relação ao discurso de ódio, eu defendo a criação de delegacias específicas para crimes online e de violação de direitos. As pessoas precisam ter acesso à Justiça, à denúncia e à reparação desses crimes. O anonimato da rede não é uma máscara.

Como vocês estão lidando com as estratégias de financiamento de campanha?

Estamos estudando a nova legislação de financiamento do fundo partidário e vamos tentar agregar sempre as pessoas para que elas contribuam com o que puderem se acreditarem em nossos projetos, respeitando o teto.