NOTÍCIAS

Fernanda Torres critica visão de cidade de João Doria e Silvio Santos e defende Teatro Oficina

Atriz lançou o livro 'A Glória e Seu Cortejo de Horrores' no teatro de Zé Celso Martinez, em São Paulo, nesta terça-feira (14).

15/11/2017 14:45 -02 | Atualizado 15/11/2017 14:45 -02
Montagem/Divulgação/Getty Images
Fernanda Torres faz críticas à visão de João Doria sobre a cidade de São Paulo.

Se depender da atriz Fernanda Torres, a disputa entre o dramaturgo José Celso Martinez e o apresentador Silvio Santos pelo terreno no entorno do Teatro Oficina, no centro de São Paulo, vai terminar com vitória da arte. Em entrevista à revista Veja, ela defendeu a visão de cidade de Zé Celso em oposição à forma como o dono do SBT e o prefeito João Doria veem São Paulo.

"O Oficina é um teatro vivo, é um templo que soube se reinventar no tempo e no espaço", elogia Torres, que lançou no local seu segundo livro, A Glória e Seu Cortejo de Horrores, na noite desta terça-feira (14). A leitura dramática de sua nova obra, publicada pela Companhia das Letras, contou com a participação da mãe, Fernanda Montenegro, e do ator Antonio Fagundes. O clima do evento foi de defesa do Oficina.

Em agosto, o encontro entre Zé Celso, fundador do teatro tombado pelo patrimônio histórico, e Silvio Santos foi mediado por Doria e pelo vereador Eduardo Suplicy. A gravação, que viralizou após ser revelada pela colunista da Folha de S.Paulo Monica Bergamo, mostra Zé Celso reivindicando a construção de um parque público para atividades culturais no terreno onde Silvio quer levantar torres residenciais.

Na conversa, Silvio ironiza os dependentes de crack que vivem no centro da cidade. Fernanda Torres se refere a essa cena para enfatizar o "embate entre visões antagônicas de cultura e de cidade":

"Querem construir mais um paliteiro, numa cidade que não precisa de mais paliteiros... E aí vem a parte mais cruel da conversa: o Silvio diz que vai fazer um concurso de drogaditos na área e dar um prêmio ao mais drogado. Ou seja, as praças viraram sinônimo de cracolândia e é preciso, portanto, cimentar a cidade de malls, de arranha-céus, porque o espaço público, democrático, a rua, é sinônimo de perigo, de ameaça."

No vídeo, Doria tenta conciliar os interesses de Silvio e Zé Celso e utiliza várias palavras em inglês, que o diretor de teatro não compreende. Fernanda Torres alfineta:

"Na reunião, Doria, o prefeito que pensa em inglês, fala de assets, fundings e malls, e elogia os teatros de shopping, que o Zé sabe, qualquer ator sabe, são o túmulo do samba. É uma visão Miami de progresso, difícil de rebater."

Para a atriz, a "visão potente de cultura" de artistas como Zé Celso e Perfeito Fortuna, o fundador do Circo Voador, na Lapa, no Rio de Janeiro, não é compartilhada por Doria e Silvio.

O prefeito que gosta de apagar grafites, por considerá-los feios, acredita em mall, em Miami, em Ralph Lauren. É impossível dotar, tanto o Silvio, quanto o Doria, da sensibilidade do Zé ou do Perfeito Fortuna.

No fim de outubro, o Condephaat autorizou a construção do empreendimento imobiliário de Silvio Santos ao lado do Teatro Oficina.

Segundo o Blog do Arcanjo, do UOL, nesta terça, Zé Celso convidou Fernanda Montenegro a integrar o conselho do Bixiga contra o "genocídio do bairro", em referência ao "encaixotamento" da área pelos futuros imóveis do apresentador.

No próximo dia 26, artistas paulistanos, atuais integrantes do Oficina e atores e atrizes formados no teatro de Zé Celso deverão fazer um "abraçaço" no quarteirão do Oficina e do terreno de Silvio.

Festival do Teatro Brasileiro