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Quem Louis C.K. empurrou para dentro de um banheiro?

Enquanto fazia um suposto pedido de desculpas a uma vítima, Louis C.K. aparentemente confessou mais um erro de conduta.

15/11/2017 08:01 -02 | Atualizado 15/11/2017 08:11 -02

Existem muitos tipos de pedidos de desculpa que são péssimos, mas Louis C.K. talvez tenha feito o pior de todos: uma declaração em que ele próprio se perdoa e na realidade não pede desculpas nenhumas e, ao mesmo tempo, casualmente revela outras barbaridades que andou cometendo.

Na quinta-feira (9 de novembro), o New York Times publicou reportagem confirmando rumores que circulavam havia muito tempo dizendo que o humorista Louis C.K. foi acusado por várias colegas mulheres de se masturbar diante delas sem consentimento.

Um representante do humorista disse que ele se negou a dar declarações para a reportagem, mas o texto continha um pedido de desculpas. Em 2009, vários anos depois de Louis C.K. ter chocado a humorista Rebecca Corry ao pedir que ela o deixasse se masturbar na frente dela dela enquanto trabalhavam juntos em um show, Louis C.K. telefonou para ela para pedir desculpas – por outra coisa.

"Quando ele telefonou a Corry", diz o NYT, "disse que sentia muito por tê-la empurrado para o banheiro. Corry respondeu que ele nunca tinha feito isso, mas que tinha pedido para se masturbar diante dela."

Como é mesmo? Voltando a fita um pouquinho: "Ele disse que sentia muito por tê-la empurrado para o banheiro".

A conclusão a tirar é evidente: Louis C.K. empurrou alguém para o banheiro, apesar de não se lembrar exatamente de quem foi que empurrou. Corry disse ao New York Times que o pedido de desculpas, estranhamente incorreto, a "levou a imaginar que devem ter havido outros momentos de comportamento impróprio" (parece provável). Mas a questão sobre quem Louis C.K. de fato empurrou para o banheiro não foi levada adiante.

Mesmo assim, se a recordação de Corry é exata, quer dizer que em algum lugar aí fora existe pelo menos uma mulher que Louis C.K. empurrou para o banheiro.

São raros os casos de homens que denunciam seus próprios erros de conduta sexual de maneira tão desajeitada quanto Louis C.K. Para começar, o comediante costuma fazer humor falando muito de seus próprios "pensamentos sexuais pervertidos" e sua mania de se masturbar.

"É um problema dos homens – não ser capazes de controlar seus impulsos sexuais constantes", ele disse, brincando, durante uma apresentação.

Seu projeto mais recente, um filme intitulado I Love You, Daddy e que tinha sido previsto para ser lançado em novembro, já foi criticado por dar destaque a comportamentos sexuais predatórios. No filme, Louis C.K. é um roteirista de televisão que fica preocupado quando sua filha de 17 anos (Chloe Grace Moretz) é alvo de investidas de um cineasta muito mais velho, de reputação dúbia (John Malkovich) e que o personagem de Louis C.K. adora. O filme também tem um personagem que supostamente simula masturbação diante de outras pessoas.

Essa compulsão de Louis C.K. por converter seus próprios comportamentos inapropriados em material para sua carreira de humorista, tremendamente bem-sucedida, é uma coisa, muito perturbadora. Mas, mesmo quando pede desculpas reservadamente, ele não consegue deixar de admitir coisas que ninguém pediu que ele admitisse. É o comportamento de um homem que está praticamente implorando para ser criticado por seus erros. No entanto, como o New York Times deixa claro, Louis C.K. vem sendo protegido há anos. Seu empresário, Dave Becky, teria aconselhado mulheres a não falar abertamente sobre as experiências desagradáveis que tiveram com seu cliente. Rebecca Corry, que estava trabalhando em um piloto com Louis C.K. quando ocorreu o incidente descrito acima, ouviu que teria que fazer uma escolha difícil: passar uma pá de cal sobre o incidente ou correr o risco de levar a culpa pelo fechamento do programa. Quando, em 2015, o Defamer publicou um relato dos rumores envolvendo Louis C.K., a notícia praticamente não repercutiu no cenário humorístico. A carreira do comediante continuou de vento em popa.

Como muitos outros casos de pedidos de desculpas que na realidade não o são, o modo como Louis C.K. expôs publicamente seus impulsos sexuais, fazendo humor com o assunto, e seus pseudo-pedidos de desculpas às suas vítimas, tudo isso serviu mais para aliviar sua própria consciência do que para aliviar a aflição das mulheres que ele feriu. De acordo com o New York Times, depois do incidente no set ele disse a Rebecca Corry que "interpretou equivocadamente os sinais dela". (Corry disse que, depois que ela lhe lembrou o que acontecera, Louis C.K. confirmou o incidente.) Ele disse a outra mulher, em mensagem no Facebook, que quando se masturbou enquanto falava ao telefone com ela, sem seu consentimento, estava "passando por um momento difícil de minha vida". E todo o humor dele parece reiterar sempre: "Desculpe, mas sou homem, não tem jeito. Não tenho como deixar de querer fazer coisas que vão te magoar."

A impressão que se tem é que Louis C.K. quer se proteger contra repercussões futuras, pedindo desculpas reservadamente e, em público, reconhecendo seus próprios impulsos "pervertidos", além de apoiar humoristas mulheres como Tig Notaro e Pamela Adlon. Em vez disso, porém, ele não para de revelar mais provas de suas alegadas transgressões.

Como empurrar alguém para dentro de um banheiro. As alegações que constam da reportagem do NYT – que ele teria se masturbado diante de colegas de profissão mais jovens e menos poderosas – são profundamente perturbadoras, mas apenas a ação que o próprio Louis C.K. admitiu sem querer contém indícios de agressão física. A julgar por suas próprias palavras, a reportagem do New York Times pode ser apenas o começo.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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