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Por que as redes sociais podem ser prejudiciais para a democracia

'Dois terços dos americanos recebem parte das notícias de algoritmos controlados, personalizados e de funcionamento obscuro.'

15/11/2017 08:45 -02 | Atualizado 16/11/2017 09:30 -02
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Atualmente, o Facebook ainda é de longe a maior fonte de notícias falsas.

Por Gordon Hull

Revelações recentes sobre como agentes russos inseriram anúncios no Facebook em um esforço para influenciar a eleição presidencial americana de 2016 nos colocaram diante de uma dúvida preocupante: será o Facebook nocivo à democracia?

Como estudioso das implicações sociais e políticas da tecnologia, penso que o problema não diz respeito apenas ao Facebook, mas que é algo muito mais amplo: as redes sociais estão ativamente enfraquecendo algumas das condições sociais que historicamente tornaram possíveis as nações-Estados democráticas.

Entendo que essa é uma afirmação muito ampla e controversa, e não espero que ninguém acredite nela de imediato. Mas, considerando que quase metade de todos os eleitores receberam notícias falsas patrocinadas pela Rússia no Facebook, é um argumento que precisa ser apresentado.

Como criamos uma responsabilidade compartilhada

Comecemos com dois conceitos: uma "comunidade imaginada" e uma "bolha de filtro".

O falecido cientista político Benedict Anderson argumentou que a nação-Estado moderna pode ser entendida como uma "comunidade imaginada" que é possibilitada em parte pela ascensão de meios de comunicação de massas como os jornais. O que ele quis dizer é que a coesão que os cidadãos das nações modernas sentem uns com os outros – ou seja, o grau em que podem ser considerados parte de uma comunidade nacional – é ao mesmo tempo artificial e facilitada pelos meios de comunicação de massa.

Dave Crosby, CC BY-SA
Os meios de comunicação de massas são uma maneira de criar uma comunidade compartilhada.

É evidente que existem muitos fatores que permitem a coesão de nações-Estados como os Estados Unidos. Por exemplo, todos aprendemos mais ou menos a mesma história nacional na escola. Um pescador de lagostas no Maine não tem muito em comum com uma professora escolar no Dakota do Sul. Mesmo assim, os meios de comunicação de massas contribuem para levar os dois a se enxergarem como parte de algo maior: ou seja, a nação.

As entidades políticas democráticas dependem desse senso compartilhado de um destino e características comuns. É isso o que possibilita as políticas públicas ditas nacionais: a ideia de que os cidadãos enxergam seus interesses como sendo comuns em algumas questões. A jurista Cass Sunstein explica essa ideia, levando-nos de volta à época em que existiam apenas três redes de televisão abertas e todas diziam mais ou menos a mesma coisa. Como ela diz, historicamente sempre nos baseamos nesses "intermediários do interesse geral" para apresentar e articular nosso senso de realidade compartilhada.

Bolhas de filtro

O termo "bolha de filtro" surgiu em um livro de 2010 do ativista Eli Pariser, que o usou para caracterizar um fenômeno da internet.

Cass Sunstein e o estudioso de direito Lawrence Lessig tinham identificado esse fenômeno de isolamento de grupos na internet já no final da década de 1990. Dentro de uma bolha de filtro, as pessoas basicamente recebem apenas o tipo de informações que elas próprias já pré-selecionaram ou, o que é mais assustador, que terceiros decidiram que elas querem ouvir.

Os anúncios seletivos que estão por trás do feed de notícias do Facebook ajudam a criar essas bolhas de filtro. Os comerciais no Facebook funcionam determinando os interesses de seus usuários, com base nos dados que o Facebook coleta a partir das páginas que eles visitam, suas curtidas e assim por diante. É uma operação altamente sofisticada.

O Facebook não divulga seus algoritmos. Mas pesquisas comandadas pelo psicólogo e cientista de dados na Universidade Stanford Michael Kosinski demonstraram que a análise automatizada das curtidas que as pessoas assinalam no Facebook é capaz de identificar suas informações demográficas e posições políticas fundamentais. Esse tipo de mira seletiva pode, ao que parece, ser extremamente precisa. Há evidências, por exemplo, que anúncios anti-Hillary Clinton saidos da Rússia puderam ser direcionados para eleitores específicos no Michigan.

sitthiphong/Shutterstock.com
O Facebook está criando bolhas de filtro?

O problema é que, estando dentro de uma bolha de filtro, você nunca recebe notícias com as quais não concorda. Isso traz dois problemas: primeiro, essas notícias nunca passam por uma verificação imparcial. Os indivíduos que quiserem uma confirmação independente terão que fazer o esforço ativo de procurá-la.

Em segundo lugar, os psicólogos têm conhecimento há anos do chamado "viés de confirmação" – a tendência das pessoas de apenas procurarem informações com as quais concordam. O viés de confirmação também limita a capacidade das pessoas de questionar informações que confirmem as ideias em que elas já acreditam.

E não é só isso. Pesquisas do Projeto de Cognição Cultural da Universidade Yale sugerem fortamente que as pessoas tendem a interpretar novas evidências à luz de crenças e posições ligadas à seus grupos sociais. Isso pode tender a polarizar esses grupos.

Tudo isso significa que, se você tende a não gostar do presidente Trump, qualquer informação negativa que ouvir ou ver a respeito dele provavelmente vai reforçar essa posição sua. Por outro lado, você tende a ignorar ou rejeitar notícias que sejam favoráveis a Trump.

São esses dois aspectos das bolhas de filtro – a pré-seleção e o viés de confirmação – que as notícias falsas, ou fake news, exploram com precisão.

Criando grupos polarizados?

Esses elementos também estão embutidos no modelo comercial de mídias sociais como o Facebook, que é predicado precisamente sobre a ideia de que podemos criar um grupo de "amigos" com quem compartilhamos informações. Esse grupo é em grande medida isolado, separado de outros grupos.

O software controla com muito cuidado a transferência de informações nessas redes sociais e se esforça para ser o portal principal através do qual seus usuários (que somam cerca de 2 bilhões de pessoas) acessam a internet.

A receita do Facebook vem de anúncios, e esses anúncios podem ser explorados facilmente: uma investigação recente da ProPublica (organização americana sem fins lucrativos de jornalismo investigativo) mostrou como foi fácil direcionar anúncios no Facebook a "usuários que odeiam judeus". O site também quer conservar as pessoas online, de maneira geral, e sabe que é capaz de manipular as emoções de seus usuários, que ficam mais felizes quando veem coisas com as quais concordam.

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As redes sociais estão gerando mais polarização?

Como documentou o Washington Post, são precisamente esses elementos que foram explorados pelos comerciais russos. Um redator da Wired observou, em comentário sinistramente presciente feito imediatamente após a eleição de 2016, que nunca viu um post pró-Trump que tivesse sido compartilhado mais de 1,5 milhão de vezes, e nenhum de seus amigos liberais, tampouco. Em seus feeds de mídia social, eles só viram notícias de viés esquerdista.

Nesse ambiente, os resultados de uma pesquisa recente do Centro Pew não devem surpreender a ninguém. A pesquisa revela que o eleitorado americano está profundamente dividido segundo linhas partidárias, mesmo em relação a questões políticas fundamentais, e que essa divisão está se aprofundando.

Tudo isso se soma para significar que um mundo de redes sociais tende a criar grupinhos profundamente polarizados de indivíduos que tendem a acreditar em que tudo o que ouvem, por mais distante possa estar da realidade. A bolha de filtros nos torna vulneráveis a notícias falsas polarizadoras e nos impele a nos isolarmos ainda mais em nossos grupinhos.

O fim da comunidade imaginada?

Hoje dois terços dos americanos recebem pelo menos parte das notícias através de órgãos de mídia social. Isso significa que dois terços dos americanos recebem pelo menos parte das notícias de algoritmos altamente controlados e personalizados, cujo funcionamento é obscuro.

O Facebook ainda é de longe a maior fonte de notícias falsas. De modo não muito diferente das confissões forçadas e falsas de bruxaria na Idade Média, essas histórias são repetidas tantas vezes que acabam sendo vistas como legítimas.

Em outras palavras, estamos assistindo ao potencial colapso de uma parte importante da comunidade imaginada que forma a entidade política americana. Embora os EUA também sejam demograficamente divididos e existam diferenças demográficas regionais marcantes no país, as diferenças partidárias estão superando de longe as outras divisões da sociedade.

Esta é uma tendência recente: em meados da década de 1990, as divisões partidárias tinham dimensões semelhantes às divisões demográficas. Por exemplo, naquela época e hoje, vemos as mesmas diferenças modestas entre homens e mulheres em questões políticas, como, por exemplo, se o governo deveria ou não fazer mais para ajudar os setores pobres da população. Na década de 1990, havia essas mesmas diferenças modestas entre democratas e republicanos. Em outras palavras, as diferenças partidárias não eram mais capazes que os fatores demográficos de definir as opiniões políticas das pessoas. Hoje, se você quiser conhecer as posições políticas de alguém, a primeira coisa a fazer é descobrir sua filiação partidária.

A realidade das redes sociais

Jason Howie, CC BY

É evidente que atribuir tudo isso às redes sociais seria uma simplificação excessiva. Uma das causas importantes é certamente a estrutura do sistema político americano, que tende a polarizar os partidos políticos nas eleições primárias. E é verdade que muitos de nós ainda recebemos notícias de outras fontes, fora de nossas bolhas de filtro do Facebook.

Mas eu argumentaria que o Facebook e as redes sociais oferecem uma camada adicional: não apenas tendem a criar bolhas de filtro próprias como criam um ambiente fértil para os interessados em aumentar a polarização.

As comunidades compartilham e criam realidades sociais. Em seu papel atual, as redes sociais correm o risco de instigar uma realidade social em que grupos diferentes podem discordar não apenas em relação ao que fazer, mas sobre qual é a realidade.

Você sabe que é viciado em redes sociais quando...