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Ex-chefe do Facebook alerta que a rede social foi desenhada para explorar as fraquezas dos usuários

“Só Deus sabe o que ele está fazendo com os cérebros de nossas crianças.”

15/11/2017 07:30 -02 | Atualizado 15/11/2017 07:36 -02
Robert Galbraith / Reuters
Fundador e ex-presidente do Facebook, Sean Parker.

Na esteira das eleições presidenciais americanas de novembro do ano passado, nas quais a interferência da Rússia e as "fake news" se tornaram assuntos de destaque, muita gente está repensando o papel das redes sociais em nossa sociedade.

Um dos que também vêm fazendo críticas é Sean Parker, que em 2004 se tornou a primeira pessoa a ocupar o cargo de presidente do Facebook. Em uma palestra na Filadélfia na semana passada, Parker alertou que a rede social, como várias outras, foi desenhada para explorar as vulnerabilidades psicológicas das pessoas.

"Só Deus sabe o que ele está fazendo com os cérebros de nossas crianças", disse Parker, segundo o site Axios.

Ele brincou que seus comentários poderiam levar a seu banimento do Facebook.

"O processo para desenhar essas aplicações, o Facebook sendo a primeira delas... era: 'Como consumimos o máximo possível de seu tempo e atenção consciente?'", afirmou Parker.

"E isso significa que precisamos meio que te dar uma dose de dopamina de vez em quando, porque alguém comentou ou curtiu uma foto ou um post. E isso vai te fazer compartilhar mais coisas, e isso vai te gerar ... mais curtidas e comentários."

Ele descreveu o Facebook como "um loop de validação social", que é "exatamente o tipo de coisa que um hacker como eu inventaria", porque explora uma vulnerabilidade psicológica.

Stephen Lam / Reuters
O fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, acena ao sair do palco durante a conferência anual de desenvolvedores F8, em San Jose, Califórnia, 18 de abril de 2017.

Parker começou a carreira como cofundador do serviço de compartilhamento de músicas Napster, antes de se envolver com o Facebook. Sua presença na rede social não durou muito; ele foi forçado a se demitir em 2006, quando a polícia encontrou cocaína numa casa de férias que ele estava alugando.

Muitos críticos vêm argumentando que o modelo de negócios do Facebook e de várias outras redes sociais incentiva o extremismo, criando câmaras de eco nas quais ideias se espalham sem contestação e recompensando ideias controversas com enorme exposição.

Questionando o papel das redes sociais


Parker faz parte de um grupo crescente de insiders do mundo da tecnologia passando por uma crise de consciência por causa da explosão das redes sociais.

Em um post amplamente compartilhado no ano passado, o ex-funcionário do Google Tristan Harris descreveu como as empresas de tecnologia capturam as mentes dos usuários.

Designers de produtos "jogam suas vulnerabilidades psicológicas (consciente e inconscientemente) contra você, numa corrida para conquistar sua atenção", escreveu Harris.

Como mágicos, os apps de redes sociais "criam a ilusão de livre escolha, quando na realidade eles desenham o menu de forma que eles saiam ganhando, qualquer que seja a sua escolha", escreveu ele.

Em um artigo publicado na revista The Atlantic em 2014, o programador Ethan Zuckerman, pesquisador do Media Lab, do MIT, pediu desculpas por criar os anúncios pop-up nos anos 1990.

"Escrevi o código para abrir a janela e mostrar um anúncio nela. Peço desculpas. Tínhamos boas intenções", escreveu ele.

Mas, em seus comentários da semana passada, Parker argumentou que os cérebros por trás das grandes redes sociais sabiam exatamente o que estavam fazendo quando criaram os modelos de negócios baseados em publicidade.

"Os inventores, criadores – eu, Mark [Zuckerberg], Kevin Systrom do Instagram, todas essas pessoas – entendíamos isso conscientemente. E o fizemos mesmo assim", afirmou Parker.

Ele se descreveu como um "opositor de consciência" em relação às redes sociais, apesar de manter presença tanto no Facebook como no Twitter.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost CA e traduzido do inglês.

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