POLÍTICA

Por que Jair Bolsonaro é o Donald Trump brasileiro (e por que ele não é)

O Trump tupiniquim é um pouco menos Trump do que se imagina.

12/11/2017 07:51 -02 | Atualizado 13/11/2017 16:56 -02
Montagem/Câmara/GettyImages
Bolsonaro sobre Trump: "Sei da distância minha para o Trump, mas pretendo me aproximar dele para o bem do Brasil e dos Estados Unidos".

"Tenho vários amigos fabulosos que vieram a ser gays, mas sou um tradicionalista."

Essa declaração vai te deixar confuso sobre quem estamos falando. É de autoria do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas também poderia ter saído da boca do pré-candidato à presidência no Brasil Jair Bolsonaro.

Economia estagnada, crime, desemprego...

O cenário poderia ser dos Estados Unidos pré-eleições de 2016. Mas também está relacionado ao Brasil. De um espectro macro, o Brasil pré-eleições de 2018 é muito próximo ao dos EUA que elegeu Trump.

Nesse contexto, o que se considerava uma ascensão improvável é agora considerado um fenômeno político. Bolsonaro é segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto para as eleições do ano que vem. Perde apenas para o ex-presidente Lula, que tem o recall de dois mandatos presidenciais e hoje enfrenta insegurança jurídica sobre a possibilidade de se candidatar.

Ao ver a vitória de Trump, o deputado do PSC eleito pelo Rio de Janeiro passou a ter o presidente norte-americano como um mentor. E é com orgulho que ele fala que se inspira em Trump e tem afinidade com ele.

Trump possivelmente nem sabe, mas deixou um legado ao admirador. Ao ser questionado pelo HuffPost Brasil se ele se sentia perseguido pela imprensa, a resposta de Bolsonaro foi direta:

Só cego não vê. É igual ao Trump, só cego não vê.

Bolsonaro não cansa de dizer que mesmo com a imprensa contra o presidente norte-americano, ele ganhou. E, para ele, essa história será reeditada no Brasil.

Assim, como Trump fez, ele apostas nas redes sociais para ter contato direto com o eleitorado. É de longe o político com mais seguidores nas redes, são 4,8 milhões de fãs no Facebook.

Além da birra com a imprensa, tanto Trump quanto Bolsonaro são acusados de serem homofóbicos, racistas e machistas. Bolsonaro é crítico ferrenho aos direitos humanos, pois "não temos que ter privilégio no Brasil, nem para índio, nem para brancos, nem para negros, para gays ou ninguém; somos todos brasileiros".

Os direitos humanos também são uma questão delicada na gestão Trump. No início do ano, a Human Rights Watch emitiu um alerta em relação ao crescimento da intolerância nos Estados Unidos.

"Na campanha, Trump estereotipou migrantes, inferiorizou refugiados, atacou um juiz por sua ascendência mexicana, zombou de um jornalista com deficiência, rejeitou múltiplas alegações de abuso sexual e prometeu reverter a capacidade das mulheres de controlarem sua própria fertilidade", afirmou o diretor-executivo da organização, Ken Roth.

Ambos são politicamente incorretos (em muitos casos de propósito), adotam um discurso patriota, querem fortalecer as fronteiras de seus países, representam uma mudança e são motivo de chacota entre os adversários políticos.

O make America great again de Trump é traduzido ao Brasil nos discursos de Bolsonaro, especialmente quando ele fala que o Brasil precisa explorar mais a produção mineral e fortalecer o mercado interno.

O alvo externo de Trump e Bolsonaro é o mesmo: a China. Para o deputado brasileiro, são os chineses que estão explorando os minerais do País. Na mesma sintonia, Trump afirma que o comércio com a China é desleal.

Bolsonaro e Trump: diferenças fundamentais

Há um descompasso entre o presidente norte-americano e o presidenciável brasileiro. Além da realidade distinta entre Estados Unidos e Brasil, Trump nasceu rico e se fez com base nos negócios e no mercado financeiro. Bolsonaro, por outro lado, é um militar da reserva, na Câmara Federal há 26 anos, que se consolidou como político. Tem praticamente zero entrada entre o empresariado.

Em maio, em entrevista ao HuffPost Brasil, ele deixou claro seu conhecimento superficial de economia e ainda minimizou a importância de um presidente dominar a área.

"Alguns idiotas falam que Bolsonaro não entende de economia. Eu falo: 'olha, os cinco presidentes militares, os cinco generais, foram formados em artilharia, infantaria e cavalaria e eles pegaram o Brasil de 49ª economia do mundo e entregaram em 8ª'. O Itamar Franco também não entendia de economia, muito menos o FHC, um sociólogo, que era amigo de Fidel Castro, entre outros, foi feito um plano econômico e o Itamar que não entendia de economia se tornou o pai do plano Real."

Outra grande diferença entre os dois é a estrutura partidária. Trump entrou para a disputa pelo comando dos Estados Unidos com uma máquina sólida, a do Partido Republicano. Sem essa estrutura, Bolsonaro terá dificuldade para construir alianças. Com o PSC, ele terá cerca de 15 segundos de tempo de TV na propaganda eleitoral obrigatória em 2018.

O próprio Bolsonaro reconhece: "Sei da distância minha para o Trump, mas pretendo me aproximar dele para o bem do Brasil e dos Estados Unidos", disse em visita à terra de tio Sam em outubro.

Ele passou por Flórida e Massachusetts, estados que concentram grande parte dos brasileiros residentes nos EUA. Foi calorosamente recebido por brasileiros evangélicos e conservadores para falar sobre seus projetos para o Brasil. Em Nova York, ele se reuniu com investidores, reconheceu a falta de experiência, mas ressaltou que não está envolvido em escândalos de corrupção.

Prometeu cativar os Estados Unidos de Trump como parceiro comercial do Brasil em uma eventual gestão. "Com 13 anos de PT, o comércio do Brasil foi pautado pela questão ideológica, pelo Mercosul e a grande máfia bolivariana", disse Bolsonaro, para o delírio dos fãs em Miami, antes de tirar selfie com todos eles.

Quem são os presidenciáveis de 2018