ENTRETENIMENTO

‘O Matador’: 1º filme com produção nacional da Netflix transforma cangaço em ‘faroeste brasileiro’

Marcelo Galvão, diretor do filme, defende fortalecimento do mercado do cinema brasileiro e papel das plataformas de streaming nisso em entrevista ao HuffPost.

12/11/2017 16:39 -02 | Atualizado 12/11/2017 16:40 -02
Divulgação/Netfix
Diogo Morgado é Cabeleira, o protagonista de ‘O Matador’.

O carioca Marcelo Galvão, 43, é o primeiro cineasta brasileiro a fazer um longa-metragem exclusivamente para a NetflixO Matador é um faroeste (sim, um faroeste) e já tem bastante expectativa em torno de si. "Tenho muito orgulho de tê-lo feito. Estou honrado", diz o diretor em entrevista ao HuffPost Brasil.

Trata-se de um momento para o cinema brasileiro que é digno de atenção: o mercado sofre bastante com a dificuldade de distribuição. As plataformas de streaming, entretanto, abrem novas possibilidades. Qualquer filme ou série colocado nelas não necessita de bilheteria para ter alguma longevidade e fica disponível para milhões de pessoas em diversos países. "Esses novos players nos deram a chance de criar uma indústria", argumenta.

Galvão é diretor do bem-sucedido Colegas, um road movie protagonizado por atores com síndrome de Down. Foi um dos filmes brasileiros mais comentados e vistos em seu ano de estreia, 2012. Seu lançamento seguinte foi A Despedida (2014), drama com Nelson Xavier e Juliana Paes.

No Festival Gramado deste ano, O Matador venceu os prêmios de melhor fotografia (Fabricio Tadeu) e trilha sonora (Ed Côrtes). A busca pelo melhor elenco possível resultou em uma mistura multicultural de atores: o português Diogo Morgado interpreta o assassino pernambucano Cabeleira; a portuguesa Maria de Medeiros fala com sotaque francês; e também há um francês, Etienne Chicot.

Ambientado na época do Cangaço, entre as décadas de 1910 e 1940, o longa traz a jornada de autodescoberta de Cabeleira, que parte em busca do homem que o criou longe da civilização, o cangaceiro Sete Orelhas (Deto Montenegro).

"O Cangaceiro tem uma crítica social enorme. A questão da valorização do material sobre o humano é abordada", conta o diretor. "Em um momento, por exemplo, um personagem diz 'como a gente pode ser dono da terra se antes de a gente nascer a terra já estava ali?'. Se você for ver bem, a terra devia ser dona da gente, e não a gente dela", explica.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Galvão comenta questões de produção e distribuição e o papel do streaming no mercado nacional.

HuffPost Brasil: Há algo bastante incomum sobre O Matador: é um faroeste brasileiro. Como você chegou a esse gênero?

Marcelo Galvão: Eu queria fazer um filme de ação. Já tinha feito drama, comédia, road movie, terror e queria fazer ação. Mas não que não falasse de favela, porque já fizeram muito disso. E o contexto histórico brasileiro do Cangaço nunca foi explorado [pelo cinema] da forma que poderia ter sido, embora tenha tudo para ser explorado. Adoro westerns, assistia com meu avô aos bang-bangs à italiana, então tenho muita referência desse gênero. A gente explorou esse universo em um sentido inédito [no Brasil], o do pop visceral, forte, pesado.

O faroeste parece ser um gênero que não se espera do cinema brasileiro. O que você pensa a respeito de a produção nacional se aventurar longe de estereótipos e expectativas?

Fico contente por ter feito um faroeste aqui antes de todo mundo. Não estou criando nada novo. Já fizeram filmes sobre o Cangaço, mas nunca valorizando a ação. Foram feitos com forte preocupação com crítica social, mas sem preocupação com a estética e com as atuações. Faroeste é um gênero que atrai. Lá nos Estados Unidos, onde eu moro, você fala "faroeste brasileiro" e os caras respondem "quero ver!". A Lionsgate assistiu ao teaser de O Matador e me pediu um roteiro de faroeste — e só porque é brasileiro, em um universo diferente, com roupas diferentes e locações diferentes. Isso causa interesse nas pessoas.

A produção nacional parece estar se diversificando mesmo. Neste ano, por exemplo, o terror Boas Maneiras, novo filme da Juliana Rojas e do Marco Dutra, e o thriller O Animal Cordial, da Gabriela Amaral, foram premiados no Festival do Rio.

Demais! Acho legal diversificar os gêneros, senão tem muita comédia, drama, filme de favela. Estou escrevendo um filme de terror que estou louco para fazer. Terror é uma coisa gostosa de se fazer.

O mercado brasileiro de cinema hoje depende dos fundos setoriais para ter produção. Em um caso hipotético de eles simplesmente deixarem de existir, o mercado sofrerá drasticamente. Como você vê isso?

Quando eu comecei [minha carreira] e fiz meu primeiro filme, o fiz com meu dinheiro. Depois fiz meu segundo filme com meu dinheiro também. Eu não sou um cara rico. Juntei um pouco de dinheiro e os fiz. Sempre nesse pensamento de que não acho justo se fazer filme com dinheiro de imposto e, ao andar com essas "rodinhas", não criarmos uma indústria. Meus filmes não eram lançados, tentei distribuí-los da minha forma, mas aí foi gasto mais dinheiro para eles estarem nos cinemas do que a arrecadação com bilheteria trouxe. Era difícil você ter uma volta. Então eu mudei um pouco meu discurso. Comecei a entender melhor as leis e a usá-las. Acho que elas ajudam, funcionam e têm que existir, mas a gente tem que trabalhar para virar uma indústria.

Tem muito filme feito com dinheiro de lei que é para o próprio diretor, feito sem pensar nos espectadores. No entanto, a gente tem que fazer filmes para público, porque a gente está usando o dinheiro do público, que teoricamente iria para saúde e educação. Isso não quer dizer que o filme será ruim e sem profundidade. É uma coisa que precisamos mudar. Deve haver a conscientização de diretores e produtores a respeito dos projetos que eles estão fazendo. Tem que se pensar também em projetos atinjam um grande público, porque só assim a gente vai virar indústria.

Se acabam com o fundo setorial, com a Lei Rouanet, acabam com o cinema, como na Era Collor. Acabaram com a Embrafilme, acabaram com os filmes. Não podemos deixar que isso aconteça — mas isso está longe de acontecer, por causa do crescimento de plataformas [de streaming], como Netflix, Amazon e HBO. A própria Globo agora tem o Globo Play. Esses novos players nos deram a chance de criar uma indústria — e sem depender da bilheteria. É muito difícil fazer bilheteria no Brasil. Não só aqui, mas nos Estados Unidos também. Muitas vezes eu vou ao cinema lá e tem só duas pessoas na sala, mesmo quando é um filme super bom. Temos que aprender novas formas de fazer cinema sem depender disso [fundo setorial]. Óbvio que a gente tem que usar por enquanto, mas devemos trabalhar para não precisar mais no futuro.

Divulgação/Netflix
Marcelo Galvão no tapete vermelho de 'O Matador', em São Paulo, na última quarta-feira (8.

A distribuição é um dos problemas do cinema brasileiro, mas plataformas como Netflix e Amazon estão aí a todo vapor. São novas possibilidades de exibição para muitas obras. O que você pensa a respeito dessas plataformas?

Eu não conheço nenhuma distribuição melhor que a da Netflix. Ela está em 190 países, atinge quase 110 milhões de pessoas e está disponível em 20 línguas. Quando você faz um filme, você rala pra caramba. Foram sete anos para eu fazer Colegas, que teve uma distribuição grande, em 140 salas, fez 170 mil espectadores nacionais. Foi um bom público, pensando no gênero, por ser um filme com pessoas com síndrome de Down. Quebrou o break-even dele. Colegas se pagou, mas em plataformas como essas, o público atingido é muito maior que 170 mil pessoas. Eu já distribuí filme com distribuidora grande, já distribuí eu mesmo, já distribuí de diversas formas — e não vejo uma forma melhor do que essa.

Divulgação/Netflix
'O Matador' foi rodado em Pernambuco.

O Matador estreou na Netflix no dia 9 de novembro e tem duração de 99 minutos e classificação indicativa 16 anos.