POLÍTICA

Cristovam Buarque sobre eleições de 2018: 'A raiva sopra para os extremos'

Senador quer disputar Presidência e diz que Ciro pode querer Exército fechando Congresso de manhã e Congresso acabando com Exército à tarde.

12/11/2017 21:03 -02 | Atualizado 13/11/2017 13:18 -02
Geraldo Magela/Agência Senado
Senador Cristovam Buarque (PPS-DF) quer se candidatar à Presidência da República em 2018.

"Hoje a gente está caminhando para uma eleição sob a égide da raiva, e a raiva sopra para os extremos. Para o centro, o que sobra é o vento da razão, da racionalidade, do consenso."

Aos 73 anos, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) afirma que tanto a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto a do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) apontam para o passado. "São dois extremos saudosistas, antiquados, olhando pelo espelho retrovisor. Um vê o regime autoritário e o outro vê o populismo", afirmou em entrevista ao HuffPost Brasil em seu gabinete no Senado, na última quinta-feira (9).

A polarização e a falta de "substância" dos candidatos ao Palácio do Planalto em 2018 levaram o parlamentar a tentar uma chance na disputa presidencial pelo PPS, no qual é filiado desde 2016. Em 2006, disputou o cargo pelo PDT, no qual entrou em 2005, após sair do PT.

Sobre o atual candidato do PDT, Ciro Gomes, Cristovam critica a imprevisibilidade. "O Ciro acho que ele vai ser tentado de manhã para mandar o Exército fechar o Congresso e de tarde ele vai ser tentado a mandar uma lei para o Congresso acabar com o Exército", afirmou.

A expectativa é que o diretório do PPS decida em dezembro se haverá candidatura própria do partido e qual será o nome. O presidente da legenda, Roberto Freire, quer que o apresentador Luciano Huck se filie ao PPS. A segunda opção seria apoiar a candidatura do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).

Se não for candidato ao Planalto, Cristovam estuda disputar uma reeleição no Senado. A partir de dezembro ele começa uma série de viagens. Já tem compromissos marcados em Belém (PA), Porto Alegre (RS) e Rio de Janeiro (RJ).

Quanto aos planos para o governo, o senador tem dois focos: coesão no presente e rumo para o futuro. O parlamentar defende um Estado eficiente, com a possibilidade de privatizações e melhoria da educação.

De acordo com ele, esse é o caminho a longo prazo para crise de segurança no Brasil, além de melhorar a eficiência da Justiça. "Não vejo por que estar prendendo meninos jovens pegos com um pouco de maconha no bolso", afirmou.

Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Por que o senhor quer ser candidato à Presidência em 2018?

Cristovam Buarque: Não vejo nenhum candidato trazendo o discurso que, a meu ver, o Brasil precisa. A Veja publicou 15 nomes [de pré-candidatos]. Me deu a impressão de uma coreografia, uma dança, não de uma luta por um Brasil novo. Nesse vazio, alguém tem que levar uma proposta para o futuro do Brasil e não só para 2018. A impressão que os candidatos me dão é que o Brasil acaba em 2018 e eles ficam ali para apagar a luz. Quero um candidato que acenda a luz. Não para 2019 só. Para as próximas décadas. É quase uma obrigação dizer "estou aqui", e me proponho a ser candidato.

Além disso, as pesquisas mostram a polarização entre dois extremos [Lula e Bolsonaro] e não o campo do meio, que precisa governar o País. E dois extremos saudosistas, antiquados, olhando pelo espelho retrovisor. Um vê o regime autoritário e o outro vê o populismo. Não é possível que a gente continue com candidatos todos na superficialidade, no imediatismo, e dois olhando para o passado. Eu estou aí, com uma proposta para o futuro.

Quando o partido deve decidir se terá candidatura própria?

A expectativa é que o diretório reunido [em dezembro] defina uma proposta para que o congresso [em março] afirme e tome a decisão se tem candidato, quem é o candidato ou qual o critério para escolher e, se não tem candidato, com quem a gente vai.

Há chances de o posto ser ocupado por outros nomes, como o presidente do PPS, Roberto Freire, ou o ministro da Defesa, Raul Jungmann? Freire falou que o partido está aberto a uma candidatura de Luciano Huck...

Tem outros nomes. O presidente Roberto Freire, na última reunião da executiva, disse que, para ele, o melhor candidato seria o Luciano Huck e, se ele não quisesse, ele defende o apoio ao [Geraldo] Alckmin.

Eu pessoalmente tenho defendido que o Jungmann pode ser um bom candidato, sobretudo no presente. Ele carrega a ideia da segurança, uma bandeira que a população inteira quer. Para mim fica faltando a ideia do futuro.

O próprio Roberto Freire pode ser um bom nome. [Deputado] Rubens Bueno pode ser um bom nome. Só acho que nenhum nome não é um nome bom.

O senhor falou sobre marcar uma posição do partido. O PPS foi da base do governo do presidente Michel Temer, saiu com a delação da JBS, mas continua com um ministério. Uma candidatura seria uma forma de definir melhor a posição da legenda?

Tem dois ministros que não pertencem a seus partidos porque o Brasil tem necessidade deles para garantir a estabilidade: o da Fazenda, [Henrique] Meirelles, e o da Defesa, que é o Jungmann. Eu sou favorável que o Jungmann continue. Não representando o PPS, mas a necessidade da estabilidade militar e da Defesa. A mudança do ministro da Defesa traz muitas complicações e da Fazenda também. Por isso até o fim do governo espero que continue o Jungmann e o Meirelles.

O senhor disse que o Jungmann poderia ser um bom candidato. No governo Temer há uma presença forte dos militares. A reforma da Previdência para eles deixou de ser discutida, o Exército está atuando junto com Justiça Eleitoral para a eleição de 2018, tem participado da discussão da segurança pública. Essa presença não pode ser prejudicial?

No caso da segurança pública, a gente tem de tirar o Exército, Marinha e Aeronáutica das ruas. Creio até que eles podem servir na parte de informações. Mas não é lugar de soldado na rua, combatendo bandidos. O Exército combate inimigos do País, não bandidos nacionais. Acho que é um equívoco e tenho dito isso desde o governo Dilma [Rousseff].

Se for candidato do PPS, o senhor já discute uma aliança para vice?

Não. Seria muita pretensão falar em vice. O que eu penso é: qual o discurso de um candidato a presidente? Para mim é recuperar as duas coisas que o Brasil precisa: coesão no presente e rumo para o futuro.

O Brasil, se é que já não entrou, está caminhando para uma desagregação. As pessoas já não respeitam as leis. O crime organizado é muito influente. A corrupção é generalizada. Apesar da Lava Jato, ela continua. As escolas não funcionam. Os institutos de pesquisa estão desativados. O que tem de bom, que é a economia voltar, mas ela volta a uma economia do passado. Não está sendo uma economia contemporânea, do futuro.

Economia do passado devido a alguns retrocessos sociais de direitos?

Não. Aí é outra coisa. Eu quero insistir nessa falta de coesão. Cada um para um lado. Parece uma república dividida em republiquetas. Uma pessoa consegue parar um projeto. Ou porque faz uma greve. Ou porque faz uma decisão jurídica. Qualquer grupo de bandidos toma a rua, fecha o comércio. O País está se desagregando e alguém precisa retomar a coesão.

Para isso é preciso os políticos darem exemplo, acabando com mordomia, privilégios, corrupção. Fazer grandes pactos neste País para que o Ministério Público seja elemento de Justiça e não de paralisia como às vezes acontece em muitos projetos. Tem que haver um pacto com as universidades para que elas entendam que não vai haver mais muito dinheiro, mas é preciso funcionar bem.

Isso é coesão, mas além disso é preciso de um rumo. O Brasil tem que pensar como vai ser em 2050. Mas a gente só está pensando em 2019 e olhe lá.

Aí que volto para a economia. O rumo exige uma economia eficiente. As esquerdas cometeram um pecado gravíssimo de desprezarem a necessidade de eficiência econômica. As estatais quebraram. Os fundos de pensão quebraram. A palavra eficiência passou a ser vista como um palavrão nas esquerdas.

Seria o caso de privatizações?

Privatizações podem ser necessárias para retomar a eficiência. Eu nem chamo de privatização. Eu chamo de publicização, que é pegar as estatais e colocarem a serviço do País. Se for preciso privatizar para servir melhor o País, eu defendo. Não pode é servir só aos seus funcionários ou ao partido que estiver no governo, como a gente viu ultimamente. Uma economia ineficiente não serve ao povo.

Quais seriam outros mecanismos para uma economia eficiente?

Tem que respeitar o mercado. Não adianta querer interferir, fazer de conta que o mercado não existe. Tem que dividir o produto entre lucro, impostos e salário de uma maneira que dê eficiência ao capital para investir. Se aumenta muito imposto, o capital vai embora. Se aumenta muito o salário, é bom socialmente, mas inviabiliza a economia.

Com a economia eficiente e um governo progressista, como acho que o Brasil precisa, tem que aplicar o dinheiro que a economia eficiente gera para construir uma sociedade onde ninguém fique abaixo de um piso mínimo, mesmo que use o Bolsa Família.

Qual seria uma forma de equilibrar um Estado mais eficiente com programas sociais? Ter uma gestão melhor desses programas?

A primeira condição é a economia funcionar bem. Gerar recursos. Com esse dinheiro de impostos a gente aplica no social para que ninguém fique abaixo do mínimo. Se for preciso, com transferência de renda. Se for preciso, compensando o desemprego. Acho também que deve definir um teto do ponto de vista ecológico. Não destruir a natureza. E entre esse teto e esse piso, vamos ter uma escada social. Alguns ficam em cima, outros embaixo, conforme o talento.

Agora, para isso, o maior compromisso do governo que olhe o futuro é construir um sistema educacional em que o filho do pobre tenha uma escola tão boa quanto o filho do rico. Sem demagogia. Deixando claro que isso leva muitos anos para conseguir. Mas em dois anos a gente consegue em uma cidade. E as 5.564 a gente levaria 20 anos para fazer. Este deve ser o propósito: educação de qualidade e igual para todos e saúde igual para todos.

O teto de gastos não pode impactar justamente nessas duas áreas?

Impedir isso? Não. A única coisa que o teto diz é que para gastar mais dinheiro em educação tem que tirar de algum lugar. Isso é bom. Tem que reduzir gastos em algum lugar e dar mais eficiência à educação. Hoje a educação precisa de mais dinheiro, mas o pouco que tem gasta mal.

A reforma do Ensino Médio vai tornar a educação mais eficiente?

Vai melhorar um pouquinho. Mas não é um projeto para um governo que queira transformar o Brasil. É muito pouco. É positiva, mas é medíocre. Temos que ter a meta do Brasil ser igual à Coreia do Sul, à Finlândia. Sem demagogia, dizendo que vai levar 20 anos. Lá demorou 40. E na minha proposta a gente faz por cidades. Para isso o governo federal tem que adotar as escolas das cidades que não têm condições de oferecer uma boa educação.

Para que a economia seja eficiente e o Brasil encontrar um rumo, é preciso investir mais em ciência e tecnologia. O futuro do Brasil está na produtividade. É preciso desamarrar a burocracia que impede a economia de funcionar bem.

O senhor citou alguns pontos que quando o Temer assumiu a Presidência, também defendeu, como acabar com os privilégios, equilíbrio fiscal, pacificação nacional. Ele fracassou nesses pontos?

Fracassou completamente. Continuam os privilégios. Até hoje o Temer não fez um gesto para aprovar a lei do teto salarial. O que vai trazer coesão é o exemplo dos governantes. Temer não dá exemplos. Ele é especialista em dar tiro no próprio pé, do ponto de vista da credibilidade dele próprio.

Quais seriam as propostas do senhor para segurança?

Eu falei de coesão e rumo. A longo prazo, o que vai enfrentar a insegurança no Brasil é a educação. As pessoas não gostam de ouvir isso. Mas no longo prazo, é a escola do rico igual à escola do pobre. Todo mundo deve ter a mesma chance na vida. O País ter maior produtividade para poder distribuir. Do ponto de vista imediato, é acabar com a impunidade. Primeira coisa, e aí o Temer não tem feito nenhum gesto.

Melhorar o funcionamento da Justiça, as investigações?

Uma Justiça mais rápida e manter as pessoas presas. Tem que haver um pacto com o sistema judiciário. Não pode continuar lerdo. Tem que entender essa coesão nacional que exige uma Justiça rápida, eficiente. Cega, mas não paralítica.

Mas como resolveria a questão do encarceramento?

Creio que boa parte do nosso encarceramento não deveria existir. Não vejo por que estar prendendo meninos jovens pegos com um pouco de maconha no bolso. Ou que foram pegos fumando maconha. Termina colocando na cadeia uma criança que termina sendo contaminada pelo crime. É muito melhor pegar essa criança e fazer uma propaganda contra o fumo.

Caberia aos juízes uma maior ponderação então, ao aplicar a Lei de Drogas?

Claro. Nossa população carcerária é maior do que deveria ser primeiro porque tem crime demais, mas segundo porque tem gente que está presa, mas não deveria estar.

A posição favorável ao impeachment de Dilma provocou muita decepção de eleitores seus, historicamente alinhados ao PT. Como encara lidar com isso em uma candidatura em que precisa conquistar votos?

Eu votei pelo impeachment porque um ou dois anos antes do impeachment eu fiz aqui [no Senado] uma audiência sobre o que então a gente chamava de contabilidade criativa, que depois chamaram de pedalada [fiscal]. Denunciei que aquilo era crime, irresponsabilidade e que uma das maiores problemáticas no Brasil é a recorrente história de irresponsabilidade fiscal. O processo de impeachment mostrou que aconteceu isso. Se eu votasse contra o impeachment, eu estaria votando contra as denúncias que eu fazia da presidente Dilma [Rousseff].

Eu vou dizer isso, e alguns vão dizer que não votam em mim. Tudo bem. Não posso fazer nada. Vou continuar dizendo o que acho certo, independente se vai dar voto ou não.

Não tenho arrependimento de ter votado pelo impeachment. Tenho vergonha que o Temer tenha sido escolhido pela Dilma para ser o vice. A Dilma devia ter tido mais cuidado na hora de escolher seu vice.

Alguns senadores, inclusive de partidos da base, admitiram ter se arrependido do voto a favor do impeachment...

Estão usando a palavra errada. Aí não é ter arrependimento. É ter vergonha de que o presidente se comporte dessa maneira. Mas não fui eu que escolhi ele. Nem votei nele. Embora não possa ter orgulho do meu voto no segundo turno, que foi no Aécio [Neves] e o vice era o Aloysio [Nunes]. No primeiro turno eu votei na Marina [Silva].

Na última eleição o PPS apoiou as mesmas escolhas do senhor: Marina Silva e, em segundo turno, Aécio Neves. Por que lançar uma candidatura própria agora?

Primeiro eu não era do PPS naquela época. Era do PDT, que apoiou outro. Eu votei contra meu partido (que votou na Dilma). Achava que Marina era melhor. Fiz campanha para o Eduardo Campos. Mas eu já defendi que o PDT tivesse candidato próprio. Acho que cometeu um grande erro de não ter lançado candidato próprio em 2010 e 2014.

Como o senhor vê a candidatura atual do PDT, do Ciro Gomes?

É imprevisível o que seria um governo do Ciro. O governo do [Jair] Bolsonaro a gente pode prever, embora eu possa errar, que ele seria tentado a mandar o Exército fechar o Congresso. O Ciro acho que ele vai ser tentado de manhã a mandar o Exército fechar o Congresso e de tarde ele vai ser tentado a mandar uma lei para o Congresso acabar com o Exército. Ele é imprevisível.

Pela primeira vez o PCdoB não irá apoiar o PT. O PDT colocou Ciro Gomes na disputa e o PSol deve ter candidato próprio. Sem Lula na disputa, essa pulverização de candidatos dificulta um resultado significativo da esquerda?

É absolutamente imprevisível o que vai acontecer em 2018. Tanto esses pequenininhos crescerem quanto a pulverização fortalecer Bolsonaro e Lula, ou quem for apoiado pelo Lula. Tem esse risco. Por isso eu creio que devemos lançar candidatos e mais adiante a gente descobre quais desses podem aglutinar os outros. Creio que ninguém pode ser candidato dizendo "eu vou até o fim".

Alguns analistas acreditam em uma vantagem de um candidato de centro, já as pesquisas eleitorais indicam um desempenho melhor de discursos polarizados, como Lula e Bolsonaro. Para o senhor, que perfil de candidato é mais forte nesse cenário?

Não tenho dúvidas de que para governar o País é melhor quem estiver refletindo melhor o conjunto do País, o que por aí chamam de centro. O povo é centrista. Agora, para ganhar a eleição, eu não sei, se no final, vai se preferir alguém desse centro ou algum dos extremos. Vai depender do humor da população e hoje a gente está caminhando para uma eleição sob a égide da raiva, e a raiva sopra para os extremos. Para o centro, o que sobra é o vento da razão, da racionalidade, do consenso. Na raiva não prevalece o bom senso.

Há um entendimento de que as pessoas estão cansadas da política tradicional, mas por outro lado, muitos dos pré-candidatos estão na vida pública há anos. Há chance de renovação de fato em 2019?

Não sei. A renovação não surge num laboratório de química. Na política não sei se vai dar tempo de surgir algo novo que empolgue. Acho interessante que na lista da Veja sou o mais velho e sou um dos que tem menos tempo na política. Eu só tenho 24 anos da primeira eleição e nesses 24 fiquei oito anos fora da política, sem mandato. Mas apesar de ser o mais velho na idade, não vou usar isso para acusar ninguém de jovem.

Impeachment de Dilma Rousseff