ENTRETENIMENTO

Como o político e pessoal se cruzam em 'No Intenso Agora’, novo documentário de João Moreira Salles

Ressaca pós-protestos de 1968 e 2013 vêm com legados, defende o diretor.

10/11/2017 11:24 -02 | Atualizado 10/11/2017 11:29 -02
Domínio Público
Manifestante em Paris, 1968.

O documentarista João Moreira Salles, sentado em um café na Rua Augusta, em São Paulo, gesticula com os braços ao contar como se surpreendeu com o conteúdo dos rolos de filme 16 mm encontrados em duas latas. O aperto de mão do carioca de 55 anos é firme, o que talvez faça algumas pessoas se surpreenderem ao ouvir sua voz mansa. A fala dele é desapressada, e é assim que ele explica como os registros foram parar em suas mãos, aproximadamente dez anos atrás.

Os rolos traziam imagens registradas em super 8 de uma viagem da mãe, Elisa Margarida Gonçalves (1929–1988), à China em 1966, quando o país mudava a olho nu durante a revolução cultural comunista. O surpreendente, conta Salles, é que sua mãe não tinha o hábito de fazer registros.

Além das imagens, ele encontrou um relato que Elisa escreveu para a revista O Cruzeiro sobre os dias que passou no país comandado por Mao Tsé-Tung. O material não nega: ela estava feliz da vida ao testemunhar o que acontecia — e por sentir na pele a história acontecendo logo ali, diante dela. Surgiu no diretor, então, a vontade de usar essas gravações.

"Eu queria pensar um pouco sobre como ela pôde ter sido tão feliz e como ela pôde perder essa capacidade de ser feliz com o andar da vida", diz.

Na época, ele trabalhava em Santiago (2007), um documentário sobre o argentino que foi mordomo dos Moreira Salles por três décadas. Vasculhar registros de família para incluir no longa-metragem culminou em se deparar com uma caixa que encontraram para ele — nela estavam as tais latas com os 16 mm. Eram os filmes da viagem sobre a qual sua mãe falava com tanto entusiasmo. Elas foram incluídas em No Intenso Agora, o novo documentário do diretor.

O filme não surgiu de uma ideia, mas de seu próprio processo de montagem. O 11º título na filmografia de Salles usa a experiência de Elisa como uma janela para o mundo. A revolução cultural que ela testemunhou logo se espalhou pelo mundo. Ele conta:

Ela chegou muito rapidamente às universidades francesas e influenciou vários líderes da esquerda estudantil e também os intelectuais da França em maio de 1968.

As sobrancelhas espessas e os óculos de grau com armação dourada e redonda na área dos olhos e hastes longas e finas parecem reforçar uma característica de Salles — ele também, não diferente de Elisa ou da China, é um personagem daquela história, mesmo que não apareça em todos os 127 minutos do filme.

Aí está o fio condutor de No Intenso Agora: o curioso processo de início, intensificação e dissipação que foram as três semanas daquele mês, nas quais estudantes e trabalhadores parisienses deixaram claro que o poder pode ser estremecido pela revolta popular a qualquer instante. Não está claro se o mesmo processo foi vivido por Elisa — o suicídio da mãe de Salles não é mencionado diretamente. O que está claro, entretanto, é que político e pessoal inevitavelmente sempre se cruzam.

Em uma de suas várias cenas arrebatadoras, um simples garçom parisiense se comove ao confrontar intelectuais em um debate. "Quem só tem a escolaridade obrigatória fica sempre por baixo. Eu, que só tenho a escolaridade mínima, nunca vou chegar ao topo", esbraveja. "Depois de ralar 12 horas por dia, ninguém vai assistir aula na Sorbonne!".

Enquanto o filme vai e vem dos trechos em que Elisa, alegre, caminha por paisagens chinesas, ou em outros momentos presumivelmente as filma, manifestações nas ruas de Paris e seus bastidores são exibidas em toda a sua crueza. A animação dos manifestantes muda para o desconsolo, quando a agenda libertária dos protestos perde força e esvazia. Praga, por sua vez, é ocupada por vários países, de modo que seu projeto de socialismo é interrompido à força.

No Intenso Agora tem uma narração em voice-over feita e escrita pelo próprio diretor, o que carrega o documentário com ainda mais sentimento. É um filme denso e incisivo, dedicado ao documentarista Eduardo Coutinho (1933–2014), também amigo do diretor. E é impossível vê-lo sem se lembrar da onda de protestos que tomou o Brasil de assalto em 2013.

O documentário tem sido exibido em festivais pelo mundo e, segundo Salles, após cada sessão, segue-se um debate político que traz as questões locais.

"Aqui no Brasil, temos ..." — ele para de falar e levanta o dedo indicador: uma ambulância passa na Augusta com uma sirene estridente. Quando o ruído se distancia, ele retoma — "... como legado a afirmação do pessoal. Cada um levava o seu 'cartazinho', com as suas demandas pessoais. Havia uma individuação do protesto." E, portanto, falta de clareza nas demandas também.

Ele menciona o político francês Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes dos protestos de 1968 em Paris, para explicar seu ponto de vista. Em entrevista ao filósofo e escritor Jean-Paul Sartre, o então jovem manifestante defende a ausência de um programa nos protestos, senão os estudantes e trabalhadores seriam paralisados. A única chance, argumenta, estaria na desordem que deixa todos falarem, mesmo que depois o todo esfrie.

"O sistema está sempre em xeque, porque a qualquer momento ele pode explodir", diz Salles. "O problema é que, quando isso passa, quem queria e imaginava que aquela energia construiria uma nova sociedade do dia para a noite, se estrepa."

No processo de início, intensificação e dissipação, Salles acredita que o Brasil está na terceira fase. No entanto, a individuação do protesto, como ele reforça, é o legado.

Marianna Muller/Divulgação
João Moreira Salles: 'O problema dessas questões de lugar de fala é quando elas apontam para o silêncio e não para o barulho. Eu sou a favor do barulho'.

"A França não é a mesma depois de 1968. A França rígida, hierárquica, foi amolecida. Muita coisa veio a acontecer depois, como os movimentos feminista e dos imigrantes, o direito à sexualidade."

Não diferente de 1968, no Brasil pós-2013 há o fortalecimento desses segmentos da sociedade. Ao ser perguntado se ele acredita que político e o pessoal compõem um só tecido, ele diz que sim, o segundo pode formar o primeiro — mas há um aspecto a ser ponderado.

"Se só negros podem falar de negros, se só gente da comunidade LGBT tem autoridade para falar sobre a condição LGBT, fica perigosíssimo. Engels não era um proletário, mas escreveu A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Não tinha direito de fazer isso? Tinha, claro."

Para Salles, o mesmo se aplica à questão de apropriações culturais: "Se isso virar uma regra binária, jazz, que é pura apropriação, não existiria. Os negros pegaram outras músicas, as cançonetas, as operetas francesas que chegavam em Nova Orleans, nos cabarés, e tiraram a rigidez da partitura. E aí? O mundo seria melhor sem jazz? Tenho a impressão que não".

Como mostra a cena em que o garçom confronta intelectuais de igual para a igual, os "intensos agoras" que vivemos abrem os canais de diálogo entre quem dificilmente se comunicaria antes da explosão.

"Quanto mais burburinho, quanto mais algaravia, melhor. Quanto mais silêncio, pior", defende. "O problema dessas questões de lugar de fala é quando elas apontam o silêncio e não para o barulho. Eu sou a favor do barulho."

Salles esclarece que não quer fazer filmes de militância e busca ser fiel à complexidade dos fenômenos que aborda, o que implica em mostrar os momentos de glória e de esvaziamento.

Seja nos protestos de 1968 ou no Brasil de 2013, o fim imediato é de derrota das agendas progressistas, mas o depois também conta — com todas suas pequenas vitórias.

"Para negros e feministas, por exemplo, embora o contexto político seja para eles muito angustiante, tenho a impressão de que eles se sentem mais poderosos do que eram antes. Há mais agentes da história do que antes. Isso é uma vitória. Comparar a vida cotidiana com a explosão de complexidade é uma comparação que você sempre vai perder, porque ela será mais viva do que o hoje. Mas hoje é o trabalho. É onde a vida acontece."

Divulgação
Crianças chinesas em momento da revolução cultural comunista.

No Intenso Agora entrou em cartaz na última quinta-feira (9). Tem duração de 127 minutos, classificação indicativa 12 anos e distribuição da VideoFilmes.

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