MULHERES

A coragem de uma jornalista japonesa que veio a público para denunciar um estupro

“Não importa o que digam as pessoas à sua volta, a sua verdade é a verdade e você deveria acreditar nela.”

08/11/2017 22:20 -02 | Atualizado 09/11/2017 09:45 -02

Nota do editor: Este texto é uma tradução de um artigo publicado no The Huffington Post Japan. Devido às normas éticas do jornalismo japonês, omitimos o nome verdadeiro do suposto estuprador, pois as acusações foram retiradas pela promotoria. Usaremos o nome "Mike" para nos referirmos a ele.

Há cinco meses, em uma entrevista coletiva realizada em Tóquio, a jornalista japonesa Shiori Ito afirmou ter sido estuprada por Mike, o ex-chefe da sucursal de Washington da Tokyo Broadcasting System (TBS), quando os dois se encontraram para jantar, tomar drinks e discutir uma oportunidade de emprego.

A TBS é uma das principais redes de TV do Japão, e Mike era sempre convidado para fazer comentários em programas de notícias. Ele também é conhecido por ter laços com o primeiro-ministro do país, Shinzo Abe, e publicou livro sobre o governo de Abe.

Apesar de Mike ter sido acusado de estuprar uma pessoa incapacitada, a Procuradoria de Tóquio abandonou o caso em julho de 2016, por falta de provas. O Sexto Comitê para Investigações da Procuradoria anunciou que, depois da revisão dos materiais da investigação, foi tomada decisão "equivalente à não-instauração de processo", ou seja, não havia motivos para derrubar a decisão de não acusar Mike formalmente.

"Julgou-se que nenhum ato criminoso foi cometido, e este caso está completamente encerrado", declarou Mike. "Parte da cobertura da mídia causou danos terríveis ao meu nome, e estou considerando recursos legais.

Em 28 de setembro, Ito entrou com uma ação na Corte Distrital de Tóquio, pedindo 10 milhões de ienes (cerca de 88 mil dólares) em danos.

Ito acaba de lançar um livro de não-ficção de 265 páginas intitulado Caixa Preta, no qual discute a experiência. Segundo o livro, os investigadores tinham um mandado de prisão contra Mike, mas não o prenderam. Além disso, ela afirma que havia provas do estupro (apesar das declarações da procuradoria), tais como as câmeras de segurança do hotel, o testemunho de um taxista e DNA coletado no sutiã de Ito.

O livro também detalha as reações da sociedade japonesa a ataques sexuais e o tratamento frio tipicamente dispensado às vítimas. Ito examina como outros países, como a Suécia, tratam as vítimas de crimes sexuais.

Apesar de vítimas de todo o mundo contarem suas histórias sobre agressões sexuais usando a hashtag #MeToo, é extremamente raro que relatos do tipo venham a público no Japão.

"É culpa da vítima", "A vítima ficaria mais feliz se ficasse calada" – esses são preconceitos persistentes no país em relação à violência sexual.

Ito colocou tudo a perder quando decidiu falar diante das câmeras. Ela recebeu ameaças de morte depois de falar. Foi até mesmo chamada de mentirosa e acusada de querer aparecer.

Ito autorizou o The Huffington Post Japan a usar seu nome completo, algo raro entre vítimas de ataques sexuais no Japão.

"Não sou uma vítima sem nome", disse ela. "Sou um ser humano chamado Shiori Ito. Quero usar minha voz para mostrar a realidade da violência sexual e dar uma oportunidade para que a sociedade japonesa como um todo pense nessa questão."

O HuffPost Japan entrevistou Ito sobre sua experiência e sobre seu livro.

KAORI SASAGAWA

HuffPost Japan: O que a fez decidir publicar este livro?

Shiori Ito: Apesar de conversar com várias pessoas da mídia imediatamente depois do incidente, era difícil fazê-las levar minha história a sério, em parte porque o procurador abandonou o caso [por falta de provas].

Um jornalista que admiro e considero um dos meus mentores me disse: "No fim das contas, você mesma tem de contar a história. Não há nada a fazer além de escrever um livro". Na época, não achei que escreveria no futuro próximo.

Em junho de 2017, depois da minha entrevista coletiva, foi aprovada uma emenda ao código criminal, com o objetivo de criar sanções mais estritas para crimes sexuais. A lei antiga tinha sido escrita há 110 anos. A nova lei aumenta de três para cinco anos de prisão a pena mínima para estupro e expande o escopo das vítimas, também incluindo homens. Achei que a aprovação dessa emenda não teria sentido sem reformas correspondentes do sistema de investigações criminais e admissões hospitalares.

Meu editor, que me aconselhou a escrever o livro, disse: "Sua entrevista coletiva abriu um pouquinho a porta. As pessoas estão prontas para ouvir sua história." Foi por isso que decidi escrever o livro.

Por que o título Caixa Preta?

Durante a investigação, a procuradoria e a polícia afirmaram repetidamente: "Como [o ato sexual] ocorreu a portas fechadas, só as duas pessoas envolvidas podem saber a verdade", e descreveram o caso como uma "caixa preta". É por isso que crimes sexuais tendem a não ser muito visíveis, e por que os relatos das vítimas raramente recebem crédito.

Até mesmo quando foi anunciada a decisão "equivalente à não-instauração de processo", não tinha ideia do que a sustentava.

Como você joga luz sobre as várias caixas pretas que existem em todo o Japão? Queria abrir essas caixas, que sempre são descritas como imperscrutáveis por aqueles que estão do lado de fora. Queria começar uma conversa e um processo de pensar nelas.

KAORI SASAGAWA

No Japão, existe a tendência de "não criar confusão até que [um crime sexual] seja esquecido". Você acha importante que a sociedade continue essa conversa?

No Japão, a sensação é que conversar sobre violência sexual é tabu. Queria pelo menos mudar essa percepção. Se não pudermos falar do assunto, jamais seremos capazes de mudar.

Em seu livro, você escreve: "Não sou uma vítima sem rosto e sem nome. Matsuri Takahashi, funcionária da [agência de publicidade] Dentsu que foi levada à "karoshi" (morte de tanto trabalhar), conseguiu mudar a sociedade, graças à publicação de seu nome".

Durante a investigação da polícia, senti pressão para me conformar com o estereótipo da "vítima". [As pessoas no Japão] acham que, se você não chorar, ninguém vai sentir sua dor. Se você não ficar nervoso, ninguém vai entender. Isso quem me disse foi o investigador. Parece que há uma percepção segundo a qual, se você é vítima de um crime sexual e se mantém forte, se não se encaixa nesse estereótipo de "vítima", as pessoas não acreditam em você. Queria fugir, eliminar esse estereótipo do que deveria ser uma "vítima", de como ela deveria se comportar, sendo eu mesma, tornando meu nome público.

Quando dei a entrevista coletiva em Tóquio, fui criticada por usar uma roupa que mostrava minha clavícula. "Se você tivesse chorado e usado uma camisa branca abotoada até em cima, todo mundo teria acreditado em você", disseram essas pessoas.

Achei isso extremamente perturbador. Pensei: "Você está me dizendo que nem sequer vai ouvir minha história se eu não me vestir de uma certa maneira, parecendo uma vítima típica?"

Você acha que a sociedade japonesa é hesitante em discutir crimes sexuais e finge que eles nunca acontecem?

Em anos recentes, familiares de vítimas de vários tipos de incidentes – não só crimes sexuais – têm tido a chance de conceder entrevistas. São as primeiras oportunidades para o público conhecer a família das vítimas. Eles veem que a vítima tem nome e rosto. Provas da vida da vítima, como fotos, contam uma história, conversam com você. Isso transmite a sensação de que a vítima não é somente uma pessoa que "merece pena", mas alguém que tem uma vida.

"Vítima não-identificada" não transmite essa mensagem. Eu não precisava me esconder assim. Tinha medo, mas não hesitei em tornar meu nome e meu rosto públicos. Mas, na coletiva, em parte respeitando o desejo da minha família, não mencionei meu sobrenome. Como sempre fui conhecida como Shiori quando estudei em Nova York, foi natural.

Como sua família e seus amigos reagiram à entrevista coletiva?

Meus amigos disseram que me saí bem, mas essas opiniões sempre vinham acompanhadas de uma ressalva: "Mas muita gente pensa diferente". Isso deixou claro que houve reações negativas.

Deve ter sido difícil para sua família.

Acho que meus parentes... viveram um grande conflito. Escrevi sobre isso no livro, mas ainda não consegui conversar com minha irmã a respeito. Ela é muito importante para mim, e pedi que uma amiga a ajudasse. A geração da minha irmã, uma geração mais nova, está mais em contato com a internet e a mídia online, então acho que ela foi mais exposta às reações e comentários negativos.

Minha família estava mais preocupada com meu futuro, e com o deles. Mas eu não entendia por que nós é que deveríamos nos preocupar com nosso futuro.

Por que contar minha história? Por mim, pela minha família, pelos meus amigos. Desde o começo, sabia que isso poderia acontecer com qualquer um, e, portanto, era essencial conversar a respeito como sociedade, o mais rápido possível.

KAORI SASAGAWA

Que dúvidas a experiência trouxe em relação aos procedimentos de investigações criminais japoneses?

Desde o começo, a polícia disse: "Esses crimes são comuns. Não podemos pegar o caso [porque é difícil investigar e processar]". Quando ouvi isso, pensei: "O que?" Continuei pressionando a pessoa responsável pelo meu caso: "Por quê? Por quê?", e ele só me respondia: "Por que foi o que o procurador me disse. Não sei o que fazer".

O sistema judicial japonês tem índices altíssimos de condenação. Se as pessoas em campo acham que um certo tipo de caso não será levado adiante pela promotoria, ou não resultará em indiciamento, eles param de investigar. É claro que o trabalho dos investigadores é investigar, pegar os criminosos. Desde o começo, achei que meu caso refletia problemas mais amplos no sistema judicial.

Quando conversava com os investigadores, houve ocasiões em que achei que eles estavam errados. Talvez por zelo excessivo para determinar se a vítima estava mentindo, eles insistiam em ouvir várias vezes a mesma história.

É claro que eles têm de investigar da perspectiva da vítima e do acusado. Mas, para decidir que a vítima está mentindo, antes eles deveriam encontrar alguma prova. Foi doloroso repetir diversas vezes a mesma história.

KAORI SASAGAWA

No livro, baseado em apuração de Shukan Shincho, você afirma que "a execução do mandado de prisão foi abruptamente interrompida com base em decisão do detetive-chefe do Departamento de Polícia Metropolitana".

Houve algumas circunstâncias peculiares, e não sei por que a investigação foi interrompida. Escrevendo o livro, tentei entrevistar [o detetive-chefe] várias vezes, até agora sem sucesso.

Como não sei por que a prisão não foi efetuada, meu instinto é perguntar: "A decisão foi arbitrária?" Se, de fato, há casos que servem de precedentes, não vou parar de perguntar até que me digam que casos são esses.

Alguns jornalistas estão tentando questionar a polícia, mas acho que eles não estão obtendo respostas decentes. Espero que aqueles que têm a oportunidade continuem fazendo perguntas. Eu continuarei investigando. Ainda aguardo uma resposta.

Em crimes sexuais, uma "desculpa" frequente usada pelos agressores é: "Achei que o sexo foi consensual". Muitas vezes, são afirmações que só servem ao propósito do agressor em casos em que não houve um "sim" indicando claramente o consentimento.

Se não é "sim", não é sim. Não é: "A ausência do 'não' significa 'sim'".

Até mesmo a emenda recente à lei não relaxou a exigência para que "crime de sexo sob coação" inclua "ataque ou intimidação". Mas é realmente difícil provar até que ponto a vítima foi atacada ou intimidada.

Mesmo que você sinta que a pessoa quer sexo, não é possível ter certeza. Acredito que esses mal-entendidos não aconteceriam se você estivesse pensando no outro da maneira correta. Pode parecer um problema difícil, mas na realidade ele é simples.

Ainda há pessoas no Japão que acreditam que coisas como "sair para beber com somente uma pessoa", "entrar num carro com somente uma pessoa", ou "usar certos tipos de roupas" são entendidos como consentimento. Fiquei confusa ao descobrir quanta gente acha que esses simples atos são suficientes para cometer um crime.

Segundo uma pesquisa de 2015 realizada pelo governo, 6,5% das mulheres disseram ter sido forçadas a transar com uma pessoa do sexo oposto, e quase 75% dessas mulheres afirmaram conhecer o agressor. No seu caso, Mike era um conhecido.

É importante que as pessoas entendam como isso é frequente.

Não importa a proximidade que você tenha com alguém, não importa a confiança que exista entre vocês, ainda assim pode acontecer. Se um ocorre um ato violento, deveríamos ouvir a vítima com respeito, não culpá-la.

Não acho que seu caso seja incomum. Mesmo quando pergunto para minhas amigas, elas contam histórias de convites dos chefes para tomar drinks, ou então mensagens privadas no LINE [uma rede social/sistema de chat muito popular no Japão]. Precisamos também mudar a cultura das empresas japonesas?

Apesar de haver pressão social para que os funcionários saiam para jantar com os colegas depois do trabalho, também me pergunto que tipo de risco você deveria ser forçada a correr para participar desses encontros. Essa cultura do trabalho também tem de mudar.

Vir a público e usar seu nome verdadeiro deve ter exigido muita coragem, dada a sociedade japonesa atual. Olhando em retrospecto, o que você pensa da decisão?

Não me arrependo. Mas sinto falta das coisas que podia fazer na cidade em que cresci. Outro dia, fui a um café com uma amiga, e alguém tirou uma foto minha sem pedir permissão. Fiquei mal, por mim e pela minha amiga.

Por sorte, tenho feito muitos trabalhos no exterior. Mesmo que não consiga trabalhar no Japão tanto quanto costumava, estou confiante que conseguirei trabalhar em outro lugar. Do contrário, estaria sofrendo muito mais.

Mas, se alguém que passou por algo parecido e veio a público e, como resultado, teve de sair do trabalho ou de sua comunidade, seria realmente cruel. Acredito que seja nossa responsabilidade criar uma sociedade em que as vítimas possam falar, receber cuidados e ter paz de espírito.

Você recebeu comentários sobre a entrevista coletiva?

Recebi muitos emails. São pessoas exploradas por seus chefes, mas que decidiram, depois de considerar a situação, que não poderiam contar para ninguém o que aconteceu. Recebo emails de pessoas dizendo que tiveram de manter segredo por 10 ou 15 anos.

Mesmo depois de 10 ou 20 anos, algumas feridas não cicatrizam. Ainda assim, acho que o fardo seria aliviado se a sociedade e as pessoas do entorno fossem mais acolhedoras. Acredito que essa é uma das coisas que podemos fazer, uma das coisas que podemos mudar.

O que aconteceu com você poderia ter acontecido comigo ou com pessoas queridas. O que você diria para alguém que pode ter passado pelo que você passou e agora não sabe se deve se manifestar?

Em primeiro lugar, você não está sozinha. É isso o que quero dizer para essas pessoas.

Em segundo lugar, não importa o que digam as pessoas à sua volta, a sua verdade é a verdade, e você deveria acreditar nela. É tudo o que eu diria.

*Este artigo foi originalmente publicado originalmente no HuffPost Japan e traduzido do inglês.

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