MULHERES

Raphaella, Maria Aparecida, Marli e Kelly. Em 3 dias, a crueldade de 4 feminicídios

A violência machista colocou fim na vida de mulheres entre 16 e 45 anos.

07/11/2017 20:05 -02 | Atualizado 08/11/2017 12:11 -02
Corbis via Getty Images
Segundo dados recentes do Fórum de Segurança Pública, uma mulher morre a cada duas horas no Brasil.

Raphaella, Maria Aparecida, Marli e Kelly. Uma estudante, uma comerciante, uma costureira, e uma radiologista. Nos últimos três dias deste mês, a crueldade da violência machista colocou fim na vida dessas mulheres entre 16 e 45 anos, que se tornaram vítimas de um crime que mata uma mulher a cada duas horas no Brasil e tem nome: feminicídio.

Raphaella Noviski, de 16 anos, foi morta com 11 tiros no rosto, na manhã da última segunda-feira (6), dentro da própria escola, na cidade de Alexânia, em Goiás. Segundo testemunhas, o agressor, de 19 anos, queria namorar a menina, que disse "não". Segundo informações do jornal Correio Braziliense, Raphaella foi atingida pelos disparos e morreu na hora. O suspeito foi preso em flagrante, acusado de feminicídio.

Após o crime, as aulas foram suspensas e o Grêmio estudantil da escola usou as redes sociais para prestar solidariedade à família e cobrar mais segurança. "Que esta invasão seguida de assassinato dentro do colégio seja investigada e o culpado, punido", diz o comunicado:

Na manhã desta terça-feira (7), o corpo da estudante foi enterrado no Cemitério Campo da Saudade, em Alexânia (GO). "É uma mistura de sentimentos. Raiva e tristeza caminham juntos. Eu espero que ele (assassino) fique bastante tempo preso. Trinta anos, para ele, na cadeia é pouco", disse o pai da vítima ao Correio Braziliense.

Reprodução/Facebook

Nesta mesma semana, outro crime motivado por gênero: a comerciante Maria Aparecida da Silva Santos, de 50 anos, foi morta pelo ex-companheiro em um motel em Cotia, na Grande São Paulo, no início da manhã desta segunda-feira (6). Ela foi encontrada com o corpo perfurado no quarto utilizado pelo casal.

Maria era mais conhecida na região como "Telma da Casa do Norte". Ela era dona do restaurante "Ponto Certo", em Itapevi, tinha três filhos e sete netos e já tinha se candidatado a vereadora em 2012, mas não chegou a ser eleita.

Segundo informações divulgadas pela assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública (SSP), a polícia foi acionada pelos donos do estabelecimento informando que o cliente saiu do local sem pagar a conta e ainda teria danificado o portão ao avançar o carro em uma fuga.

Segundo um jornal local de Cotia, um boletim de ocorrência havia sido registrado pela filha da vítima por volta das 10h30, na Delegacia da Mulher de Itapevi. Nele, ela relata que sua mãe teve um envolvimento amoroso com o agressor, de 42 anos, por 1 ano e 6 meses e que ele não aceitou a separação, que aconteceu há dois meses.

Segundo o G1, o carro utilizado pelo agressor foi encontrado horas depois, abandonado em uma estrada na Reserva do Morro Grande, a mais de 20 km. Ele continua foragido.

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A tragédia de Maria Aparecida se repete com Marli. Na última sexta-feira (3), a costureira Marli de Araújo, de 43 anos, morreu após ser agredida pelo ex-companheiro na região do Brás, em São Paulo. Segundo o G1, o boletim de ocorrência informa que o filho da vítima contou que a mãe foi agredida durante o trabalho.

Ele presenciou a agressão e levou a mãe para a AMA (Assistência Médica Ambulatorial) mais próxima. Ela foi transferida para o pronto-socorro da Santa Casa, mas não resistiu aos ferimentos. O agressor segue foragido.

Pouco diferente é o caso da radiologista Kelly Cristina Cadamuro, de 22 anos. Ela foi encontrada morta na quinta-feira (2), após dar carona para um desconhecido que conheceu em um grupo de Whatsapp. Segundo o Estadão, a jovem entrou em um grupo de caronas para reduzir gastos com viagens e economizar dinheiro para o casamento.

Marcos Antonio da Silva, noivo de Kelly, disse em entrevista para o Fantástico, da TV Globo, que "nunca poderia imaginar uma atrocidade dessas"

Reprodução/Facebook

O corpo de Kelly foi encontrado em uma área rural, entre as cidades de Frutal e Itapagipe, em Minas Gerais. Ela estava saindo de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, com destino a Itapagipe, no Triângulo Mineiro. Segundo a polícia, a jovem foi encontrada nua e com sinais de estrangulamento. De acordo com o G1, Jonathan Pereira do Prado, de 33 anos, confessou que planejou o crime para roubar a vítima. Ele e outras duas pessoas foram presas.

Um crime que tem nome

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Nos primeiros 11 dias de 2017 foram noticiados pelo menos cinco casos de mulheres que morreram justamente por serem mulheres. O ano virou com o chocante caso de Campinas, no qual Sidnei Ramis de Araújo matou a ex-mulher, o filho de 8 anos e outras 11 pessoas, incluindo ele próprio. No total, nove vítimas eram mulheres. Em julho, o caso da violinista Mayara Amaral, de 27 anos, ganhou repercussão nacional. Após ser estuprada, ela foi morta a marteladas e teve o corpo carbonizado pelo ex-namorado.

Segundo dados divulgados recentemente pelo Fórum de Segurança Pública, uma mulher foi assassinada a cada duas horas no Brasil. Apesar de haver 4.657 feminicídios no ano passado, apenas 533 casos foram classificados como tal. Para o estudo do Fórum de Segurança Pública, os dados mostram dificuldades do primeiro ano da implementação da lei.

"Enquanto não for prioridade de investimento público, destinação de verba, aprimoramento dos atendimentos, credibilidade da palavra da vítima, deixar pessoas especializadas em estratégias de políticas públicas e criminal, não vamos conseguir diminuir os índices de violência contra a mulher", afirmou a promotora Gabriela Prado Manssur, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Sancionada em março de 2015 pela então presidente Dilma Rousseff, a Lei do Feminicídio foi implementada para classificar o crime de assassinato de uma mulher cuja motivação envolva o fato de a vítima ser mulher. A lei torna o feminicídio um crime qualificado, ou seja, hediondo.

Segundo a pesquisa, o Mato Grosso do Sul é o estado com maior taxa de mortes de mulheres do País concentrando 7,6 mortes por 100 mil habitantes. Os dados mostram que 102 mulheres foram assassinadas no estado no ano passado, concentrando um aumento de 22,9% se comparado ao ano anterior. Ainda segundo o anuário, o Pará é o segundo estado com maior morte de mulheres proporcionalmente, com taxa de 6,8 por 100 mil habitantes, seguido pelo Amapá.

Além disso, o número de denúncia de estupros cresceu 3,5% em relação a 2015. Segundo o Fórum de Segurança Pública, que concentra estatísticas oficiais das autoridades de segurança dos estados, foram registradas 49.497 ocorrências de estupro no ano passado. Ou seja, a cada dia do ano, foram registrados 135 casos de estupros no Brasil.

Feminicídio em 2017