POLÍTICA

'Todo mundo faz, mãe': A clássica justificativa de um filho expõe a naturalidade da corrupção na Lei Rouanet

"Mas, filho, se não é 100%...", repreendeu a mãe de Bruno Amorim, do Grupo Bellini Cultural, denunciado nesta segunda-feira (6).

06/11/2017 17:01 -02 | Atualizado 06/11/2017 17:18 -02
Billy Boss - Câmara dos Deputados
Antônio Carlos Bellini Amorim, presidente do grupo Bellini, e pai de Bruno.

Uma conversa entre mãe e filho anexada à denúncia do Ministério Público Federal em São Paulo sobre irregularidades sinaliza o quão naturalizado é o esquema de corrupção com a Lei Rouanet.

Ao explicar o seu trabalho para a mãe, Bruno Amorim, filho do fundador do Grupo Bellini Cultural, diz que o que faz não é "100% correto". Ana Lúcia, então, insiste em saber o que o filho faz. Como muitos filhos, Bruno tenta encerrar a conversa e dispara: "todo mundo faz".

Aqui o diálogo:

Bruno: Porque o que eu faço, na verdade, não é 100%, entendeu? É tipo... eu cumpro a lei, mas não poderia tá fazendo o que eu faço

Ana Lúcia: Por que?

Bruno: : Por que não, mãe. Sei lá, é complicado

Ana Lùcia: Não é Lei Rouanet?

Bruno: Não, é Lei Rouanet, mas não é 100%. Ah, depois eu te explico. Mas não é 100 por cento correto.

Ana Lúcia: Mas, filho, se não é 100 por cento...

Bruno: Todo mundo faz, todo mundo faz

Ana Lúcia: É, filho, mas isso implica em quê?

Bruno: Não, não implica em nada, mãe. Eu tô dando, tipo, as contrapartidas sociais, plano do projeto...

Ana Lúcia: Tá o quê?

Bruno: Tô fazendo tudo certinho

Ana Lúcia: Ham. Mas o que que não é correto, Bruno?

Bruno: É porque eu dô uma contrapartida a mais pro patrocinador que não podia dar, mas tudo bem, isso daí todo mundo dá, entendeu?

Afinal, o que "todo mundo faz"?

De acordo com a denúncia, os envolvidos no esquema captavam verba da Lei Rouanet para organizar eventos culturais, mas embolsavam parte do dinheiro. Em um dos casos, os recursos públicos pagaram a festa de casamento de um dos filhos de Antônio Carlos Bellini Amorim, Felipe - também denunciado. A festa foi em um hotel de luxo em Jurerê Internacional (SC).

Antônio e os dois filhos, Bruno e Felipe, foram indiciados por organização criminosa. Outras 29 pessoas, citadas nos autos do MPF, foram denunciadas por associação criminosa. Segundo o MPF, ele articulou o esquema de desvios de dinheiro entre 1998 e 2016. A fraude só acabou quando foi descoberta.