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Judith Butler: ‘As pessoas encontram conforto e segurança no conservadorismo’

Filósofa norte-americana é referência em estudos de gênero, e está no Brasil para participar de evento sobre democracia e lançar novo livro.

06/11/2017 19:00 -02 | Atualizado 07/11/2017 12:14 -02
Target Presse Agentur Gmbh via Getty Images
Butler, de 61 anos, é autora de 'Problemas de Gênero' (1990) e de 'Caminhos Divergentes' (2017).

Quando as pessoas temem o seu futuro econômico, elas geralmente se voltam para políticas conservadoras.

A frase acima é da escritora, filósofa, lésbica e professora norte-americana Judith Butler, que, aos 61 anos, é referência em estudos sobre a teoria de gênero e também sobre a violência provocada pelo Estado. Para ela, o futuro de uma sociedade plural e tolerante depende do fortalecimento da democracia. "É uma luta constante", disse em entrevista por e-mail ao HuffPost Brasil. "[A democracia] é algo pelo qual as pessoas são obrigadas a lutar o tempo todo".

Em sua segunda visita ao Brasil, Butler -- que tem mais de 15 livros publicados e é doutora em Filosofia pela Universidade de Yale e professora na Universidade da Califórnia em Berkeley -- participa, nesta segunda-feira (6), de uma conferência na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e lança seu novo livro Caminhos Divergentes - Judaicidade e crítica ao sionismo (Boitempo, 2017). Ela também fala amanhã, terça-feira (7), no evento "Os fins da democracia", organizado pelo Convênio Internacional de Programas de Teoria Crítica (UC Berkeley) e Departamento de Filosofia da USP que acontece no Sesc Pompeia.

"Quando as pessoas temem o seu futuro econômico, elas geralmente se voltam para políticas conservadoras", afirmou Butler, sem citar as críticas e a movimentação sobre sua vinda ao País em entrevista. "Agora precisamos de um movimento que tenha mulheres e minorias como membros iguais da liderança e que mova o partido democrático para a esquerda ou inicie um novo movimento", destacou.

A filósofa chega ao Brasil cercada de polêmica e em meio a uma "guerra cultural" orquestrada por movimentos conservadores nas redes sociais, como o MBL (Movimento Brasil Livre). Sua primeira visita ao País, em 2015, também foi alvo de protestos, mas desta vez, as críticas foram amplificadas e um boicote a ela e ao Sesc foi organizado.

A justificativa de uma petição online que pede o cancelamento da palestra é de que a escritora propõe "a desconstrução da identidade humana pela desconstrução da sexualidade" e que Butler participará de um "simpósio comunista" que "mascara um objetivo político marxista".

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Judith é, de fato, um nome de extrema importância nos estudos de gênero. Ela introduziu o conceito de "performatividade", que aponta o gênero como uma construção performativa, ajudando a pensar a identidade para além das diferenças biológicas, mas, sim, como uma construção cultural. Porém, estes estudos não são os únicos campos explorado pela autora. Inclusive, não será sobre esse assunto que ela falará no Brasil.

"É crucial que resistamos às forças da censura que prejudicam a possibilidade de viver em uma democracia igualmente comprometida com a liberdade e a igualdade", completou, pontuando que este é um dos tópicos que será discutido no evento "Os fins da democracia".

Para Butler, o crescimento de distorções provocadas por movimentos conservadores e do chamado "populismo de direita" ao redor do mundo, em especial, na era Trump, leva ao desprezo pela democracia constitucional e pelo direito internacional.

Partindo de uma perspectiva norte-americana, a filósofa afirmou que é necessário traçar um caminho que vá na contramão do conservadorismo e, para isso, é preciso fazer novos aliados e se afastar de "problemas únicos que nos interessam" individualmente. É sobre Estados Unidos, mas poderia ser sobre o atual momento político do Brasil:

"Nos EUA, temos de fazer novos aliados, afastar-nos dos problemas únicos que nos interessam e desenvolver um movimento mais forte para uma sociedade democrática em que a radical disparidade entre ricos e pobres possa ser superada, em que o racismo possa ser derrotado, e onde os direitos das mulheres e os movimentos LGBTQI sejam entendidos como cruciais para a realização de uma sociedade mais igualitária e justa."

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Em Caminhos Divergentes, Butler parte de uma urgência pessoal para retomar a ideia de que é possível lapidar um novo comportamento social rumo a uma solução, relacionada a questões da palestina em relação às tradições diaspóricas judaicas. A filósofa usa s posições filosóficas judaicas para articular uma crítica do sionismo político e suas práticas de violência estatal ilegítima, nacionalismo e racismo patrocinado pelo Estado. A escritora tem outros dois livros publicados e traduzidos para o português: Problemas de Gênero - Feminismo e subversão da identidade e Questõe de Guerra - Quando a vida é passível de luto?.

Saindo da teoria e partindo para a prática, Butler afirma que é preciso "desenvolver uma ideia mais forte de justiça econômica, igualdade e empoderamento racial e de gênero, e uma resistência ao poder autoritário em que algumas pessoas encontram conforto e segurança":

"Para fazer isso, temos que entender as formas de sofrimento econômico e a crescente ansiedade política com que as pessoas vivem, atraí-las para onde sofrem e construir uma visão complexa e esperançosa para atrair as pessoas".

E finaliza: "A democracia é uma luta constante, como disse Chantal Mouffe [cientista política belga], mas também é algo para o qual as pessoas são obrigadas a lutar o tempo todo".

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