MULHERES

Como uma mulher que gostava de bonecas, filha de um industrial, se tornou a 'mãe da ciência forense'

Frances Glessner Lee tornou-se a primeira capitã de polícia dos Estados Unidos, mas você provavelmente nunca ouviu falar nela.

08/11/2017 15:55 -02 | Atualizado 08/11/2017 16:09 -02
Arquivo Público/Divulgação
“Kitchen” (Cozinha), de Frances Glessner Lee, criado em 1944-46. Mede aproximadamente 43 x 63 x 63 cm.

Uma dona-de-casa chamada Robin Barnes foi encontrada morta na cozinha de sua casa no dia 11 de abril de 1944. Seu corpo estava deitado no chão diante da geladeira, que estava semiaberta. Seu marido, Fred, ao voltar para casa naquele dia, encontrou a casa com as portas e janelas trancadas por dentro. Olhando pela janela, ele viu o que parecia ser o corpo de sua mulher no chão e chamou a polícia. O que havia acontecido com Robin?

Para começar, vale notar que Robin é uma personagem fictícia – uma boneca, na realidade – concebida pela falecida Frances Glessner Lee, a primeira mulher a se tornar capitã de polícia nos Estados Unidos, segundo o Instituto Smithsonian, e uma das maiores criminologistas de seu tempo. E talvez nunca venhamos a descobrir o que aconteceu com Robin. Afinal, ela é apenas uma peça de um diorama hiperdetalhado criado por Lee para ensinar investigadores de homicídios como avaliar cenas de crimes.

Lee é conhecida hoje como "a mãe da ciência forense". Suas contribuições para esse campo são diversas, mas ela é lembrada mais especialmente por seu interesse em criar dioramas tenebrosos como aquele que destacava a infeliz Robin. Ao longo de sua vida Lee construiu 20 cenas de crimes domésticos, altamente detalhados, todos medindo não mais que cerca de 60 cm de comprimento e altura. Os dioramas eram baseados em crimes reais, com os detalhes colhidos de fotos, declarações de testemunhas e outros dados, e são usados até hoje no treinamento de policiais.

Nascida em Chicago em 1878, Lee cresceu como herdeira da empresa de máquinas agrícolas de seu pai. Desde criança ela gostava de mistérios policiais, especialmente das aventuras de Sherlock Holmes. Mas, sem contar os personagens fictícios, ela era uma garota isolada. Sua mãe se recorda de ter lido em seu diário: "Deus e minha boneca são minha única companhia".

Lee e seu irmão foram educados por professores particulares em casa, sem frequentarem a escola. Mas, enquanto seu irmão fez faculdade em Harvard, ela foi pressionada a se casar aos 19 anos. Ao longo de sua vida de esposa e mãe (ela teve três filhos), Lee nunca deixou de ter vontade de seguir uma carreira improvável: a criminalística. Ela falou de seu desejo com algumas amigas, que reagiram com descrença e pouco-caso. Depois de se divorciar e após a morte de seu irmão, Lee, aos 52 anos, finalmente decidiu investir naquilo que a interessava. E ela o fez com tudo.

Em 1931, já no controle da fortuna da família, Lee aproveitou sua herança polpuda para penetrar no mundo da criminalística. Para começar, ela criou o Departamento de Medicina Legal em Harvard, o primeiro de seu tipo no país. Três anos depois, doou ao departamento uma coletânea de livros e manuscritos que se tornaria mais tarde a Biblioteca Magrath de Medicina Legal. Em 1936 ela doou ao programa outros S$250 mil – aproximadamente US$4,4 milhões em valores atualizados.

Sua generosidade financeira a ajudou a penetrar no campo então crescente da criminalística, mas foram seus conhecimentos fenomenais e habilidades nada ortodoxas que, em última análise, a levaram a virar a primeira mulher a ser capitão da Polícia Estadual de New Hampshire, mesmo sem ter qualquer formação oficial nem diploma universitário (seu título às vezes é dado como sendo "honorário"). Lee também foi diretora de educação do departamento de polícia, comandando seminários e programas de treinamento de policiais de New Hampshire. Foi mais ou menos nessa época que ela começou a criar dioramas.

COURTESY OF THE OFFICE OF THE CHIEF MEDICAL EXAMINER, BALTIMORE, MD
"Sala de estar da casa do vigário", de Frances Lee Glessner, criado por volta de 1946-48.

Na década de 1940 Lee começou a usar seus dioramas para ensinar investigadores de homicídios o que fazer e, mais importante, o que procurar quando chegavam à cena de um crime. Ela chamava os dioramas de "Estudos Resumidos de Mortes Não Explicadas", e a finalidade deles era, em suas palavras, "condenar os culpados, exonerar os inocentes e encontrar a verdade".

"Não são casinhas de boneca", disse Bruce Goldfarb, assistente executivo do diretor de medicina legal de Baltimore, falando ao HuffPost. Ele entrou em contato com os trabalhos de Lee pela primeira vez nos anos 1990, quando cobriu o assunto como jornalista. É pura coincidência que ele hoje trabalha no edifício onde os dioramas estão guardados desde 1966, sendo usados para ensinar a policiais sobre a arte da observação. Antes dessa data, estavam guardados em Harvard.

Goldfarb explicou: "O problema era que, quando um legista finalmente chegava no local onde ocorrera um crime, a polícia já tinha estado ali. Os policiais haviam mudado objetos de lugar, caminhando em cima de sangue e tocado o corpo. Podiam ter comprometido as provas e a própria investigação."

A ideia de Lee era, portanto, instruir os policiais sobre a maneira correta de entrar numa cena de crime – como encarar cada mancha, cada lençol amarrotado, cada fio de cabelo como evidência potencial. "Não é possível levar todos os alunos a cenas de crime reais", disse Goldfarb. "A segunda melhor alternativa é criar miniaturas de cenas de crime. Em uma tour da amostra, no Facebook Live, ele descreveu os dioramas como "realidade virtual estilo anos 1940".

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"Kitchen (detail)" (Cozinha - detalhe), 1944-46, de Frances Glessner Lee. Coleção da Harvard Medical School, Harvard University, Cambridge, Massachusetts.

Até hoje os policiais ainda têm contato com os dioramas de Lee durante um seminário de seis dias promovido todos os anos no instituto de medicina legal de Baltimore; o evento é intitulado Seminário Frances Glessner Lee sobre Investigações de Homicídios. Os detetives participantes são divididos em grupos, e cada um é encarregado de uma parte da cena miniaturizada, sendo equipados com um parágrafo de informações sobre a cena. Os participantes imaginam que estão entrando nesse mundo em miniatura e tentam descobrir o que aconteceu ali.

No diorama de Robin, por exemplo, Lee deixa muitas pistas visuais para os espectadores. Um exame atento revela que as duas portas que dão para a cozinha estão com as fendas obstruídas com jornal. Estranho, não? E alguns objetos na cozinha arrumada (tirando o corpo, é claro) parecem um pouco tortos ou fora de lugar. Uma toalha de mesa perto da janela está torta – será que alguém a puxou e deixou desarrumada enquanto fugia? A tábua de cortar carne está quase caindo da mesa – será que ela pode ser a arma do crime?

Cada seção da cena em miniatura possui uma "chave da resposta", detalhando as pistas relevantes em cada um dos cenários sinistros criados por Lee. As chaves estão literalmente trancadas a chave na sala de trabalho do diretor do instituto médico-legal. Goldfarb nunca as viu, e nem sequer o diretor as viu, mas, de qualquer maneira, elas não apontam para uma conclusão clara, como o que se vê nos romances policiais. Os dioramas não foram feitos para que seus mistérios fossem elucidados.

SMITHSONIAN AMERICAN ART MUSEUM AND RENWICK GALLERY
Frances Glessner Lee.

Todos menos dois dos dioramas em miniatura de Lee estão expostos no momento da galeria Renwick do Smithsonian American Art Institute, numa mostra intitulada "Murder Is Her Hobby: Frances Glessner Lee and The Nutshell Studies of Unexplained Death". Segundo Goldfarb, Lee nunca se considerou artista. Na realidade, ele imagina que ela se divertiria com a ideia de que, entre todas suas contribuições para o campo da criminologia, seriam os dioramas que continuariam a suscitar tanto fascínio. Mas basta olhar para as criações de Lee para entender por que as pessoas ficam hipnotizadas.

Os pequenos dioramas são fascinantes porque lembram cenas domésticas simpáticas miniaturizadas, exceto pela presença esdrúxula de um cadáver realista. Eles ecoam, em escala muito menos traumática, a sensação de se entrar em um espaço doméstico, que se presume que seria um espaço de segurança e calor humano, e topar com assustadores resquícios de violência. O realismo dos dioramas os torna ainda mais perturbadores. Cada uma dessas cenas levou cerca de três meses para ser criada por Lee e lhe custou entre US$ 3.000 e US$ 6.000 – o equivalente a bem mais de US$50 mil hoje. Cada uma tem portas e eletricidade que funcionam. Há manchas nos tapetes, os jornais recriam com precisão as primeiras páginas dos jornais do dia, e os cigarros – contendo tabaco de verdade – estão parcialmente "fumados", de modo realístico.

Para criar os cadáveres, Lee usava cabeças de boneca de louça, além de outras partes, e manipulava os figurinos cuidadosamente para simular vítimas reais ("Não dá para comprar uma boneca em estado de rigor mortis", explicou ao "The Atlantic" um conservador do Smithsonian, Ariel O'Connor.) A posição exata dos corpos visa dar pistas quanto a se a vítima morreu naquela posição ou foi mudada de lugar depois de morta. No caso dos cadáveres enforcados, Lee chegava a colocar chumbo nas bonecas para que os corpos ficassem corretamente caídos.

COURTESY OF THE OFFICE OF THE CHIEF MEDICAL EXAMINER, BALTIMORE, MD / COLLECTION OF HARVARD UNIVERSITY
"Red Bedroom" (Quarto Vermelho), de Frances Lee Glessner, criado entre 1944-48. Mede aproximadamente 32 x 63 x 63 cm.

"Ela fazia questão que as bonecas mostrassem o status social das vítimas e o modo como morreram", disse ao "Washington Post" a curadora da exposição, Nora Atkinson. "Se uma boneca apresentação uma descoloração específica, ela é cientificamente precisa: Lee estava reproduzindo os efeitos de envenenamento por monóxido de carbono e posicionou a vítima com base em quando o rigor mortis começou."

Em seu esforço para criar mundos tridimensionais precisos, instrutivos e às vezes um pouco divertidos, Frances Lee era altamente criativa. Por exemplo, o papel de parede com peixinhos no diorama intitulado "banheiro" corresponde exatamente ao papel de parede da casa de Lee. E ela encomendou uma pintura minúscula para colocar sobre a lareira na miniatura intitulada "Sala de Estar". Outro diorama trazia um exemplar em miniatura de um livro de Sherlock Holmes – o favorito de Lee.

Ela costurou à mão muitos dos têxteis dos sofás e das roupas. Outras cenas foram feitas com objetos vintage reais da era que Lee estava recriando. Às vezes ela usava as roupas antes, ela própria, para garantir que o tecido apresentasse aparência suficientemente gasta. O sangue era feito de esmalte de unha vermelho, aplicado em poças e manchas que ofereciam informações importantes.

Os espectadores da mostra do Smithsonian vão receber lentes de aumento e faroletes, para que possam examinar atentamente todos os detalhes tenebrosos e então chegar às suas próprias conclusões.

SMITHSONIAN AMERICAN ART MUSEUM AND RENWICK GALLERY

Frances Glessner Lee morreu em 1962, aos 83 anos. O financiamento do programa de criminalística de Harvard secou, e o curso foi fechado pouco depois. O futuro dos dioramas ficou incerto, até o professor Russell Fisher, de Harvard, assumir a direção do instituto médico-legal do Maryland. Ele levou os dioramas com ele e começou a usá-los em aulas.

Apesar de ser criminologista e capitã de polícia (Goldfarb rejeita a ideia de que seu título fosse "honorário"), Lee frequentemente era descrita pela imprensa como uma vovó excêntrica dotada de um interesse esdrúxulo por homicídios. Em seu obituário publicado no "New York Times", ela foi caracterizada como "uma bisavó que se tornou autoridade sobre crimes" e "viúva rica dotada de interesse enorme por mistérios da vida real".

Mesmo hoje, a exposição – intitulada "O Assassinato é Seu Hobby" – dá um indício de como Lee ainda é vista como uma figura caricata. "Ela é vista como uma senhora de idade excêntrica", disse Goldfarb. "Mas foi uma das criminologistas mais eminentes de seu tempo. Se ela não tivesse 50 ou 60 anos de idade, poderia ter sido ótima detetive. Ela não foi apenas uma velhinha excêntrica, foi criminologista de primeira linha."

Goldfarb também discorda do modo como a história de Lee frequentemente é contada como se fosse uma contingência de seu relacionamento com um homem. Alguns dizem que seu irmão foi quem despertou seu interesse pela criminologia; para outros, foi seu amigo George Burgess Magrath, o diretor de medicina legal de Suffolk County, Massachusetts. "Sempre dão alguma explicação maior do que o que aconteceu na realidade: que essa mulher se interessou por uma coisa e foi lá e fez", disse Goldfarb. "Sempre acham que é preciso haver um homem na história. É irritante."

Ao mesmo tempo, Goldfarb hesita em descrever Lee, por mais revolucionária ela possa ter sido, como feminista. "Acho que ela nunca se interessou pela política de gênero", ele disse. "Ela estava seguindo seus próprios interesses. Identificando necessidades e buscando soluções. Acho que ela não estava querendo marcar uma posição."

É tentador tirar conclusões singulares sobre quem foi Frances Glessner Lee e por que ela fez o que fez. A herdeira bizarra, a vovó macabra, a artista na surdina, a feminista astuta. A verdade, porém, é muito mais difusa. Além de fomentar as habilidades de observação dos estagiários em criminalística, os dioramas de Lee avisam às pessoas sobre o perigo das ideias preconcebidas. Um de seus dioramas traz o corpo enforcado de uma mulher mais velha, ao lado de um brinquedo usando vestido de noiva e de uma pilha de cartas. Seria tentador interpretar isso como o suicídio de uma solteirona infeliz, mas outras pistas menos evidentes sugerem outra conclusão. Os dioramas em miniatura de Lee ensinam policiais a entender suas próprias ideias preconcebidas e mostram a eles como essas ideias podem obstruir sua visão do quadro completo.

Essa lição deveria ser aplicada também à vida de Lee.

COURTESY OF THE OFFICE OF THE CHIEF MEDICAL EXAMINER, BALTIMORE, MD / COLLECTION OF HARVARD UNIVERSITY
"Three-Room Dwelling" (Habitação de três cômodos), de Frances Glessner Lee, criado entre 1944-46. Mede 30 x 81 x 81 cm.

"Murder is her Hobby: Frances Glessner Lee and the Nutshell Studies of Unexplained Death" ficará até 28 de janeiro de 2018 no Smithsonian American Art Museum and Renwick Gallery.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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