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A campanha de financiamento coletivo que quer entregar uma casa para Rafael Braga

Meta do crowdfunding é de R$ 60 mil.

04/11/2017 07:00 -02
Divulgação
Aos 29 anos, ex-catador cumpre regime domiciliar para tratar tuberculose contraída na prisão.

Uma campanha de financiamento coletivo arrecada fundos para a compra de uma casa destinada à família de Rafael Braga, preso desde as manifestações de junho de 2013. Com meta estipulada em R$ 60 mil, a iniciativa é capitaneada pelo grupo Campanha pela Liberdade de Rafael Braga, sediada no Rio e que reúne integrantes de movimentos sociais, coletivos, organizações políticas e independentes, além de estudantes e pessoas sensíveis à situação do ex-catador.

O caso de Rafael Braga é considerado emblemático na discussão sobre abuso policial e falha processual na Justiça brasileira. Em 20 de junho de 2013, ele coletava materiais recicláveis na região central do Rio quando encontrou duas garrafas, uma de água sanitária e outra de desinfetante. Foi abordado e preso no mesmo instante por policiais que acompanhavam o protesto na avenida Presidente Vargas, considerado um dos mais violentos do período.

Os policiais concluíram que o morador de rua, negro e pobre participava das manifestações e que as garrafas em sua mão seriam ferramentas para a fabricação do "coquetel molotov", uma bomba incendiária de fabricação caseira. Após a condenação do ex-catador em dezembro daquele ano, um chamado da hoje extinta Assembleia Popular da Grande Tijuca impulsionou movimentos sociais, coletivos e indivíduos rumo a uma mobilização pela liberdade Rafael Braga. "Assim nasceu a mobilização, que sempre foi pública, com reuniões semanais abertas a quem quiser participar e que se consolidou enquanto Campanha em meados de 2014", conta Deisi Souza, porta-voz do coletivo.

Reprodução/Facebook
Imagem da marcha organizada pelo grupo em em 7 de agosto no centro do Rio de Janeiro.

Semanalmente, os integrantes do grupo se reúnem na região da Cinelândia, no centro do Rio, para discutir eventos e estratégias que visam a liberdade do ex-catador, compartilhar as novidades jurídicas do caso recebidas pela defesa e planejar ações de ajuda à família de Braga. "A Dona Adriana, mãe do Rafael Braga, participa das reuniões desde o início da Campanha. Nós sempre focamos, além da luta pela liberdade irrestrita do Rafael, no apoio à sua família, pois ele ajudava na manutenção da casa com o pouco que conseguia vendendo material reciclável".

O coletivo também organiza coletas de doações e promove ações como saraus, atos, marchas, debates e rodas de conversa visando em torno do caso do ex-catador. "A pauta das nossas reuniões varia conforme o contexto da luta pela liberdade do Rafael muda", conta Deisi. E desde a criação da Campanha em 2013 até hoje, muito coisa no caso do ex-catador mudou.

Em 2015, ele conseguiu a progressão para o semi-aberto e foi para a prisão domiciliar com emprego fixo e comprovado. Em janeiro de 2016, porém, Rafael foi detido por policiais na comunidade em que morava. Questionado sobre informações de tráfico de drogas na região, Braga disse não tê-las e foi levado para a delegacia. De acordo com a defesa, tratou-se de um novo flagrante forjado.

Em abril de 2017, o ex-catador foi condenado a 11 anos de prisão por tráfico de drogas e associação ao tráfico. Na prisão, ele contraiu tuberculose e, na sequência, teve um pedido de habeas corpus negado. No último mês de setembro, o ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Rogerio Schietti, concedeu liminar para que o ex-catador tivesse direito a prisão domiciliar.

Veja no vídeo da Ponte Jornalismo o momento em que o ex-catador deixa a prisão:

Além de promover ações que visam a liberdade de Rafael, Deisi explica que o grupo sempre fez questão levantar discussões em torno de temas como "seletividade penal, racismo, encarceramento em massa e genocídio do povo negro". "Essas pautas têm total ligação aos porquês do Rafael ter sido forjado duas vezes pela polícia, uma no contexto de uma grande manifestação da qual ele nem participou e outra no seu local de moradia, uma favela na Zona Norte do Rio", analisa.

Hoje Rafael Braga cumpre prisão domiciliar e trata a tuberculose em uma moradia precária que acomoda seus pais e mais sete irmãos na região da Penha. A campanha de financiamento coletivo para uma nova casa foi iniciada em setembro e termina no próximo dia 21 de novembro dentro do modelo Tudo ou Nada. Ou seja, caso o valor da meta não seja atingido, tudo que foi arrecadado retornará para os respectivos doares. Até a publicação desta matéria, a proposta de financiamento coletivo já havia recadado pouco mais de R$ 26 mil – o que equivale a menos de 50% da meta.

Apesar da repercussão de Rafael Braga em todo o Brasil e também no exterior (o grupo articula ações de apoio em países como Alemanha e Japão), Deisi demonstra certa apreensão com os números atingidos até agora. "Acreditamos que o fato do Rafael ter ido pra prisão domiciliar possa ter passado a impressão de que estava tudo resolvido e diminuído um pouco a repercussão que houve quando da condenação dele a 11 anos por tráfico e associação. Mas o fato é que não tem nada resolvido, pelo contrário. Caso não consigamos novas vitórias de mobilização, ele terá que voltar pra prisão em fevereiro, ou seja, a mobilização em torno do caso tem que continuar", explica.

Ela afirma que o grupo tem consciência de que já arrecadou um valor alto para uma mobilização independente. No entanto, há uma meta a ser atingida e todos os envolvidos estão se articulando para isso. para e estão fazendo todo tipo de articulação para bater a meta. "Quem não doou, pedimos que doe agora, nem que seja 5 reais, e quem puder doar novamente com a virada do mês que doe de novo, pois precisamos de toda ajuda necessária", apela.

Há diferentes contrapartidas para os apoiadores, que vão de agradecimento em vídeo até artesanato feito e assinado pelo próprio Rafael Braga. Todos os detalhes da campanha estão disponíveis aqui.

E se os R$ 60 mil não forem arrecadados? "Conseguindo ou não bater a meta do financiamento, continuaremos a ajudar no que pudermos o Rafael e a família", garante a porta-voz.

O caso de Rafael Braga se tornou um sinônimo de luta em todo o Brasil. Luta essa que, segundo Deisi, está longe de ser vencida ganhe ele liberdade ou não. "Como o Rafael, existem milhares de jovens negros e pobres que têm sua pouca liberdade cerceada pelo Estado. Quando conseguirmos a liberdade irrestrita do Rafael, tenho certeza que todos nós continuaremos a lutar por uma sociedade livre, seja na Campanha ou não".

Violência no Rio de Janeiro 2017