POLÍTICA

O que pensam os eleitores do inusitado voto BolsoLula

"Minha primeira opção de voto é Lula, segunda Ciro Gomes. Sem nenhum desses como opção, ficaria com Bolsonaro."

03/11/2017 07:00 -02
Montagem/Ricardo Stuckert/Câmara
Pesquisa Datafolha mostra que 6% dos eleitores de Lula (à esquerda) migram para o deputado Jair Bolsonaro quando o petista não está entre os candidatos.

Lula e Jair Bolsonaro. Um é um ícone da esquerda. O outro, da direita conservadora. Mas, embora representem polos opostos, há quem diga que na ausência de um candidato votaria no outro ou está dividido entre os dois.

O empresário Johnny Miranda, 19 anos, morador de Itapecerica da Serra (SP), é um dos que cogitam o voto entre os dois possíveis candidatos para a Presidência da República. O motivo? Questões sociais, ético-morais e econômicas. Para ele, Lula, que teve como marca na gestão programas sociais como Bolsa Família e ProUni, atuaria bem no resgate de políticas sociais.

Bolsonaro, por outro lado, na avaliação do empresário, tem uma visão voltada à preservação da moral e ao avanço da economia. "O presidente precisa ter propostas que abrangem toda a sociedade, mas, precisamos agilizar nas propostas econômicas e educação que ao meu ver são cruciais", resume.

Ele argumenta que, além da crise econômica, é determinante para a sua escolha sobre o futuro presidente a questão da ética e de valores morais.

Johnny integra uma parcela inusitada do eleitorado brasileiro revelada pela pesquisa Datafolha no mês passado. Ficou nítido que, para alguns eleitores, o fato de um ser de direita e o outro de esquerda parece não excluir a possibilidade de fazerem parte do imaginário da mesma pessoa.

Entre os cenários analisados na sondagem, 6% dos eleitores de Lula (PT) migram para o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) quando o petista não está entre os candidatos. Já quando Bolsonaro não aparece na corrida pelo comando do Palácio do Planalto, Lula atrai 13% dos que têm o deputado como primeira opção.

Ao procurar eleitores BolsoLula ou LulaNaro nas redes sociais, a reportagem do HuffPost Brasil identificou que o que mais une os dois perfis é a busca por resposta para as questões sociais e morais.

Assim como Johnny, Alexandre Rodrigues, militar de 36 anos, morador de Manaus (AM), faz parte dessa estatística, com um diferencial. Ele escolhe Lula em primeiro lugar, Ciro Gomes em segundo (pela proximidade com as propostas de Lula) e Bolsonaro em terceiro. O argumento para a escolha de Lula também corrobora o de Johnny sobre as causas sociais. A razão fundamental para a escolha é o legado do petista.

"A mudança que Brasil sofreu em seu governo. No qual só é ruim quando comparado com ele próprio."

Já a escolha por Bolsonaro é tida como uma fuga de um candidato do PSDB, "porque já sei como funciona". Mas também pela aposta "na verdade".

"Ele é patriota e quer, sim, melhoria do País. Apesar de falar em medidas radicais, creio que isso não aconteceria por depender de aprovações.Talvez houvesse muitos erros no governo dele como eu acho q terá caso seja eleito mas é aquele erro tentando acertar", avalia.

O voto de Alexandre é influenciado pela "forma discriminatória como opiniões contrárias vêm sendo tratadas no País". "Queremos democracia!? Então temos que respeitar a opinião de cada um e sua escolha. A injustiça cometida contra a maioria humilde também influenciou na minha escolha."

Menos pior

Hugo Simão, de 37 anos, também é um eleitor de Lula, que tem Ciro Gomes e Bolsonaro como opções e descarta os nomes tradicionais. O contador, morador de Contagem (MG), explica que na política "você escolhe o menos pior porque você não escolhe uma pessoa. Escolhe um grupo para governar o Brasil".

"Em países desiguais ninguém ganha dinheiro ou se tem segurança, então o principal foco do Lula é combater a desigualdade, o Ciro tem essas qualidades por isso estaremos bem servidos caso Lula não consiga se eleger.

Minha primeira opção de voto é Lula, segunda Ciro Gomes. Sem nenhum desses dois como opção em eventual segundo turno, a tragédia seria grande. Jamais votaria em Luciano Huck, Doria, Alckmin, Aécio, Marina.

Mas eventual segundo turno de Bolsonaro e candidatos que não votaria de forma alguma, ficaria com Bolsonaro. Apesar de saber que ele criou um personagem e não tem conhecimento de administração, ele entraria sem estar amarrado a partidos políticos que lesam o Brasil há anos."

Para Hugo, o presidente tem que ser justo, saber investir em áreas corretas e evitar que a população sofra com desigualdades. "A atual crise econômica só esta acontecendo porque sofremos um golpe parlamentar e, mesmo com tamanho dano, ainda temos números bem melhores que há 15 anos."

Antagônicos

A combinação entre Lula e Bolsonaro é difícil de explicar. O cientista político especialista em comportamento eleitoral Leonardo Barreto ressalta que a agenda dos dois não se aproxima em nenhum momento. Para ele, o voto de eleitores de Lula em Bolsonaro é possível em um cenário de protesto ou um jeito de sabotar o sistema - quando os eleitores dizem que não votariam em nada do que está aí.

Ambos representam dois extremos. Bolsonaro se construiu seguindo um discurso anti-petista.

Barreto destaca que Bolsonaro é o primeiro candidato presidencial da História criado em redes sociais. "Nasceu com meme das pessoas que não gostam do PT nem da agenda de direitos humanos e usavam as bravatas dele para fazer brincadeiras nas redes sociais. Ele criou uma onda anti-PT e acaba surfando nessa onda."

Nessa onda, segundo o especialista, Bolsonaro acabou incorporando algumas demandas, como a agenda da segurança pública e anticorrupção. Barreto, no entanto, afirma que o trabalho do presidenciável na Câmara nunca foi pautado por essas causas. "Ele lutava por aumento de salário para militares de patentes mais baixas", observa.

No caso de Lula, segundo ele, existe uma parte do eleitorado que o escolhe pela figura de liderança carismática. "Gente que acredita que ele tem capacidades extraordinárias, simbologia e mística. Outra parte quer uma agenda com Estado no comando da economia, como agente de planejamento dos gastos, com expansionismo dos gastos públicos e foco em investimentos públicos."

No conjunto, são diálogos que, apesar de não se tocarem, têm levantado debates e encantado eleitores, principalmente nas redes sociais. Uma página no Facebook já faz graça com a bandeira e pede Lula candidato e Bolsonaro de vice.

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