POLÍTICA

Ministra que queria salário de R$ 60 mil para comprar roupas e maquiagem desiste de pedido

Ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, ainda tinha dito que sua condição é análoga à escravidão: "Quem trabalha sem receber é escravo."

02/11/2017 16:11 -02 | Atualizado 02/11/2017 16:39 -02
ANDRESSA ANHOLETE via Getty Images
A ministra ainda disse que, "sem sombra de dúvidas", sua condição se assemelha ao trabalho escravo.

Após apresentar um pedido para acumular seu salário com o de desembargadora aposentada, a ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, desistiu do requerimento, conforme informou a pasta na tarde desta quinta-feira (2).

Luislinda havia feito um pedido ao Ministério do Planejamento para receber sua aposentadoria e o salário integral de ministra, o que lhe renderia um salário bruto mensal de cerca de R$ 61 mil. Ela alegou que, por causa do teto constitucional (de R$ 33,7 mil), ela "só" recebe um pouco mais da metade do valor que diz merecer por direito.

Após grande repercussão, o Ministério dos Direitos Humanos divulgou uma nota afirmando que a ministra desistiu do requerimento. "Considerando o documento sobre a situação remuneratória da ministra Luislinda Valois, o Ministério informa que já foi formulado um requerimento de desistência e arquivamento da solicitação", diz a nota.

'Esse dinheiro é meu'

Ao jornal O Estado de São Paulo, Valois explicou que decidiu requerer seu salário de ministra porque ela trabalha muito (uma média de 12 a 14 horas por dia), mora longe da família e tem muitas despesas. "Tenho que me vestir com dignidade, tenho que estar maquiada, eu tenho uma representatividade e eu trabalho", justificou, acrescentando que pagou por "mais de meio século" as contribuições previdenciárias e, portanto, quer receber sua aposentadoria. "Esse dinheiro é meu, garantido pela Constituição da República Federativa do Brasil."

Além dos gastos com roupas e maquiagem, ela afirma que tem que pagar condomínio de R$ 1.600 de seu apartamento funcional em Brasília e precisa pagar contas de água e luz de seus imóveis em Salvador.

Filiada ao PSDB, Luislinda assumiu a pasta em fevereiro deste ano. Como ministra, além do apartamento pago pelo Estado, ela tem direito a carro com motorista, jatinhos da FAB e cartão corporativo, além do salário de R$ 30,9 mil. Contudo, ela diz não usufruir destes benefícios.

O governo não tem que dar boa vida a ninguém, de maneira nenhuma. Não tenho nada, acho feio isso. Se o ministério tem cartão corporativo, eu nunca nem peguei. Sou muito radical nisso. A gente não precisa de muito dinheiro para viver. A gente precisa de paz.

A ministra chegou a dizer que, "sem sombra de dúvidas", sua condição se assemelha ao trabalho escravo. "Todo mundo sabe que quem trabalha sem receber é escravo", alegou.

Pelo teto constitucional fixar o salário máximo em R$ 33,7 mil, a ministra ganha menos de R$ 3 mil para assumir a pasta. "Os outros ministros não recebem esse valor. Eu quero somente o tratamento partidário. É só por isso que eu pedi", justificou.

O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Claudio Lamachia, classificou o exemplo da escravidão um "um deboche contra a sociedade". "A lei é clara e deve valer para todos, independentemente da função ou profissão exercida", disse Lamachia ao Estadão.

Questionada sobre a opinião dos milhões de brasileiros que têm uma renda menor de R$ 3 mil por mês, a Luislinda disse que não precisa se explicar, pois é um direito dela e dá um conselho às pessoas que estão em situação parecida: "eu aconselho a quem achar que deve é só requerer e aguardar a decisão da autoridade", disse.