MULHERES

O caso de Terry Richardson e dos homens predatórios que se escondem atrás da “arte”

Por que a liberdade de expressão não deve existir às custas da dignidade e segurança das mulheres.

01/11/2017 21:26 -02 | Atualizado 01/11/2017 21:42 -02
David Wolff - Patrick via Getty Images

Acusado de ter agredido sexualmente muitas mulheres nos últimos dez anos, o fotógrafo de moda Terry Richardson foi finalmente posto numa lista negra pela editora Condé Nast International. A informação foi divulgada na segunda-feira pelo jornal britânico The Telegraph.

Muitos títulos da Condé como a "Vogue" já teriam parado de trabalhar com ele em 2010, depois de circularem rumores sobre seu comportamento explícito com modelos. Em um e-mail enviado ao HuffPost na terça-feira, um representante da empresa nos EUA confirmou que "a Condé Nast não tem nada planejado com Terry daqui em diante. O assédio sexual de qualquer tipo é inaceitável e não deve ser tolerado." Vários outros títulos já seguiram o exemplo da Condé Nast.

Conhecido pelo apelido "Tio Terry", o artista notório já clicou desde Kim Kardashian até Miley Cyrus e Barack Obama. Ele também fotografou a modelo Charlotte Walters e teria ejaculado em seu rosto depois de lamber seu corpo nu. Clicou também Jamie Peck, que contou que Richardson acariciou seus seios durante uma sessão de fotos e "sugeriu insistentemente" que ela o masturbasse.

A estética de Richardson já foi descrita como "moda pornô". Suas fotos destacam a nudez, referências sexuais e um uso não muito criativo de picolés. O fotógrafo, que é magro, tem 52 anos e é visto frequentemente usando óculos de aro grosso e camisas de flanela, investe fundo em sua reputação de "pervertido", projetando uma certa fantasia masculina do nerd tarado. Em suas próprias palavras: "Eu era um jovem tímido, mas agora sou um sujeito poderoso que vive com uma ereção e domina todas essas meninas". Algumas das frases que ele repete constantemente são muito mais perturbadoras, como um comentário espirituoso infame que fez em 2007: "O importante não é quem você conhece, é quem você chupa. Não é por nada que meu jeans tem um buraco." Richardson já descreveu seu processo artístico como sendo "pessoas colaborando, explorando a sexualidade e fazendo fotos". Charlotte Waters descreveu sua experiência de trabalho com Richardson como "nojenta", dizendo que a fez se sentir "totalmente paralisada e chocada".

Há anos Richardson minimiza acusações de agressão sexual que lhe foram feitas, dizendo que não passam de uma visão equivocada e excessivamente puritana de seus métodos artísticos, caracterizando "tais boatos" como "um desserviço [...] ao espírito do esforço artístico" em um blog que apareceu na plataforma de colaboradores do HuffPost em 2014. Seus representantes propuseram uma defesa semelhante outra vez na terça-feira, transmitindo um comunicado ao BuzzFeed em resposta a um e-mail vazado que anunciava a decisão da Condé Nast de desvincular-se do fotógrafo:

Terry está decepcionado ao ouvir sobre este e-mail, especialmente porque ele já tratou desses temas ultrapassados antes. Ele é um artista que é conhecido por seu trabalho sexualmente explícito, de modo que muitas de suas interações profissionais com as pessoas que fotografou foram de natureza sexual e explícita, mas todas as pessoas que ele fotografou participaram consensualmente.

Reprodução

Nos mundos da moda e da arte, áreas que historicamente sempre festejaram as ideias boêmias, subversivas e amorais, comportamentos alegadamente predatórios como o de Terry Richardson às vezes são encobertos por um verniz de transgressão glamurosa. Artistas como Richardson são retratados como heróis renegados, pessoas que são capazes de passar ao largo dos bons costumes sociais e da correção política para captar algo verdadeiro e sem vernizes. Como disse em entrevista ao blog The Cut o editor da revista "Purple" (e defensor de Terry Richardson) Oliver Zahm, "você não é explorado diante de um artista, você é explorado quando tem que trabalhar em um emprego que é um tédio".

Modelos (em sua maioria mulheres) vêm posando para artistas (principalmente homens) há anos, deixando seu corpo à disposição de pintores, escultores e fotógrafos. Isso equivale a um histórico longo e ainda pouco estudado de desequilíbrio. "Uma das primeiras coisas que você faz na escola de arte é desenhar uma mulher jovem nua", disse ao HuffPost a artista e escritora Christen Clifford. "O corpo feminino jovem sempre é o objeto. Isso é algo que a gente é literalmente ensinada na escola de arte."

Os museus estão repletos de imagens de mulheres nuas, muitas vezes em poses passivas, retratadas por artistas homens (geralmente brancos). E a intimidade frequentemente é aceita como parte do processo artístico deles. Pablo Picasso disse, em declaração que ficou famosa, que, para ele, arte e sexualidade eram a mesma coisa. No caso de Paul Gauguin, essa intimidade virou abuso quando as musas polinésias adolescentes do artista teriam se tornado suas "escravas sexuais". Hoje os críticos veem a obra de Gauguin com um olhar intranquilo, compreendendo o comportamento predatório que acompanhou seu trabalho. Mesmo assim, sua obra é exposta em museus, ensinada em escolas e admirada.

Em resposta às alegações de comportamento abusivo, homens como Terry Richardson frequentemente evocam os nomes desses ícones eróticos passados, passando por cima de questões de relações não consensuais entre modelos e artistas e apontando para a história da arte para se defenderem. "Como Robert Mapplethorpe, Helmut Newton e tantos outros anteriores, as imagens sexuais sempre fizeram parte de meu trabalho", falou Richardson. Ele não menciona se Mapplethorpe ou Newton aproveitaram sua posição de artistas para explorar seus modelos enquanto faziam as imagens sexualizadas deles. É claro que a defesa baseada em "mas eu sou artista!" deixa de reconhecer a ligação entre as ideias transgressoras que os artistas prezam e o comportamento potencialmente nocivo envolvido quando essas ideias são postas em prática.

Andrew Burton via Getty Images
Emma Sulkowicz carries a mattress, with the help of three strangers who met her moments before, in protest of the university's lack of action after she reported being raped during her sophomore year at Columbia.

Hoje essa ligação ainda é pouco clara. A livre expressão, o maior pré-requisito da criação artística, não apenas permite que artistas contemporâneos ajam sem inibições como premia os riscos e as transgressões. Quando essa permissão e essas recompensas são dadas principalmente a homens em posições de poder, a liberdade irrestrita pode se dar às custas das pessoas menos poderosas, incluindo mulheres. "É um pouco como o termo 'livre expressão' foi apropriado pela direita alternativa para legitimar a violência", disse a artista performática Emma Sulkowicz ao HuffPost. "Sim, é liberdade de expressão, claro. Mas liberdade para quem?"

Sulkowicz é conhecida principalmente por sua performance "Mattress Performance (Carry That Weight)", em que carregou um colchão de 22 quilos do seu dormitório universitário para toda parte no campus da Universidade Columbia, para protestar contra a inação da instituição depois de ela ter sido estuprada. Em Columbia, ela também foi curadora de uma mostra fictícia composta inteiramente de artistas homens acusados de agressão sexual. "Eu quis exibir filmes de Woody Allen e Roman Polanski e trabalhos de Terry Richardson", ela recordou.

Existe uma diferença nítida entre agredir o corpo de uma mulher e explorar a imagem dela. Mas, para Christen Clifford, que em outubro, na noite antes de conversarmos, foi moderadora de um debate intitulado "Arte e Sexo" numa galeria apenas de mulheres em Nova York, os dois atos não deixam de estar relacionados. "A ideia de que um homem possa pegar fotos sensuais de uma mulher do Instagram e postá-las como sendo seu próprio trabalho está muito ligada à cultura do estupro", ela explicou. "É a ideia de que o homem é dono do corpo das mulheres."

Clifford fez uma referência ao artista contemporâneo Richard Prince, que, em 2014, fez captura de tela de fotos no Instagram mostrando cerca de 20 modelos, artistas e estrelas das redes sociais em poses sexualmente sugestivas e as imprimiu sobre telas, que ele então vendeu por até US$100 mil cada. As mulheres, que não apenas estão nas imagens mas, em muitos casos, fizeram as fotos originais, elas mesmas, não receberam nenhum dinheiro – nem autorizaram Prince a apropriar-se do trabalho delas.

O crítico Jerry Saltz descreveu a iniciativa de Prince como "trollagem genial" e elogiou o artista, dizendo que é "um verdadeiro mago de seus gostos, tão sintonizado com suas necessidades quanto Humbert Humbert ficava atento para onde estava Lolita na casa". A artista Audrey Wollen, cuja foto fez parte da série, não ficou igualmente comovida. "O fato de um artista homem velho, branco, bem-sucedido, heterossexual sentir-se no direito de fazer uso da imagem de um corpo feminino jovem não surpreende", ela disse à i-D. "Talvez eu seja idealista, mas não acho que a arte deva simplesmente reiterar o status quo."

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Para a artista Leah Schrager, a história da arte é em grande medida a história de artistas homens como Richard Prince e Terry Richardson lucrando com a sexualidade feminina. "As mulheres sexuais são destituídas de seu poder, a não ser que sua sexualidade lhes seja dada pelas mãos de um homem", ela disse ao HuffPost. "Essas mãos podem ser as de Richard Prince ou de Harvey Weinstein. As mulheres têm que ser entregues de bandeja às massas pelas mãos de homens."

Schrager trabalhou no passado como modelo, mas agora prefere fazer autorretratos, criando imagens sensuais sobre as quais ela exerce autonomia econômica e criativa plena. Mas ela diz que ainda tem dificuldade em ser levada a sério como alguém que se descreve como "mulher sexy no mundo da arte". Além de ser passada por cima e menosprezada por homens desse mundo, ela se recordou de muitas instâncias em que foi bolinada ou verbalmente assediada. Em uma ocasião, que ela descreveu como "a pior de todas", um diretor de galeria que ela não identificou por nome a teria agredido sexualmente.

"Um marchand muito conhecido me ligou no telefone", contou Schrager. "Ele me disse que minhas selfies são embaraçosas e que, com minha arte, estou me fazendo de idiota. Ao mesmo tempo, ficou muito claro que ele estava se masturbando enquanto conversávamos e acabou gozando enquanto olhava minhas fotos." Schrager também compartilhou uma história sobre ter sido apalpada por uma mulher do campo das artes.

Desde que um número alarmante de mulheres veio a público em outubro para acusar o produtor de cinema Harvey Weinstein de assédio e agressão sexual, mulheres de outras áreas fora de Hollywood começaram a seguir seu exemplo, trazendo à tona como o comportamento sexual predatório está presente em quase todos os setores. Acusações foram feitas ao diretor de programação da Amazon Studios, Roy Price, e ao diretor de cinema James Toback, além do mágico David Blaine, do diretor de mídia da Vox, Lockhart Steele, e do publisher do ArtForum, Knight Landesman.

Emma Sulkowicz compartilhou sua esperança de que, após as denúncias contra Weinstein e a reação subsequente, homens predatórios em todos os campos acabem finalmente sendo reconhecidos como tais. "Com Harvey Weinstein, estamos literalmente assistindo a uma mudança em como usamos a língua inglesa", falou Sulkowicz, citando as ideias do teórico Stuart Hall. "Temos um novo termo, e esse termo é 'Harvey Weinstein'. Hoje podemos dizer 'ele é um Harvey Weinstein' – ou seja, um homem que ocupa papel de poder em um setor e aproveita essa posição para fazer o que quer com mulheres. A partir do momento em que algo entra na consciência pública, isso assinala uma mudança tremenda."

Para Schrager, porém, há um problema relacionado que ainda afeta o mundo das artes. Esse problema é o medo amplo da sexualidade feminina declarada em seus próprios termos.

"O mundo da arte ou endossa imagens femininas assexuais ou imagens femininas sexuais cujos autores são homens", ela explicou. "Para mim, a coisa mais triste que poderia resultar de tudo isso seria as mulheres serem pressionadas a serem mais assexuais, mais escondidas, como freiras. Isso seria um retrocesso. A outra opção, na realidade a única opção, é que as mulheres sejam donas de sua própria sexualidade e se empoderem graças a ela. Se as mulheres pudessem ser respeitadas por apresentar suas próprias imagens, isso seria revolucionário."

As alegações feitas sobre Terry Richardson já eram do conhecimento público havia anos, muito tempo antes de histórias sobre o comportamento de Weinstein terem levado instituições poderosas em toda parte a reavaliar os homens poderosos que as comandam. Hoje as mulheres no mundo das artes não apenas estão denunciando a desculpa de "mas eu sou artista!", como o desequilíbrio de poder que faz com que seja difícil definir onde acaba a direção criativa e começa a coerção. Mais além do comportamento de Richardson, as críticas estão voltadas contra o mundo artístico que exige que a sexualidade feminina seja manufaturada e sancionada por homens – um mundo que evita entregar às mulheres o poder de controlar sua própria imagem.

Representantes de Terry Richardson não responderam aos pedidos de comentário do HuffPost.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e foi traduzido do inglês.

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