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Uber ou não Uber, eis a questão – por que ser dono de um carro pode não mais ser bom negócio

O custo de usar carro próprio da maneira tradicional ultrapassa de longe o preço do automóvel.

31/10/2017 20:56 -02 | Atualizado 31/10/2017 20:56 -02
Getty Images
Os americanos mais jovens tendem a se sentir bem usando serviços de carona e abrindo mão de um carro próprio.

Por F. Todd Davidson e Michael E. Webber

Cada dia que passa vemos mais notícias sobre a chegada inevitável dos veículos autônomos. Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas usam aplicativos de ride-hailing (como o Uber) e de caronas compartilhadas, e a porcentagem de adolescentes que obtêm carteira de motorista continua a cair.

Em vista dessas tecnologias e dessas mudanças sociais, é válido perguntar: será que os americanos deveriam parar de ter seus próprios carros?

Fizemos uma análise do custo total de ser dono de um carro e concluímos que serviços de mobilidade, como os aplicativos de ride-hailing e de carona compartilhada – que poucas pessoas hoje enxergariam como seu modo principal de transporte – provavelmente vão representar uma opção econômica convincente para uma parcela considerável dos americanos. Na realidade, levando em conta o custo total de se possuir um automóvel, vemos que até um quarto de toda a população de motoristas nos EUA pode se beneficiar se utilizar serviços de carona ou ride-hailing, ao invés de possuir seu carro próprio.

Do sonho à realidade brutal

A paixão americana pelos carros e por possuir seu próprio carro decolou após a Segunda Guerra Mundial, beneficiada pelo combustível barato, uma classe consumidora crescente e uma malha rodoviária nacional extensa. Uma nova geração de jovens profissionais se mudou dos centros das cidades para os subúrbios e abandonou o transporte coletivo em favor do transporte em seus carros particulares.

Essa mudança de hábitos transformou a paisagem americana moderna, deslanchou uma nova visão de planejamento urbano e possibilitou o alastramento urbano, ou seja, a expansão das cidades e seus subúrbios. Cidades que haviam crescido antes da Segunda Guerra Mundial – Nova York e Boston, por exemplo – já contavam com sistemas de transporte de massas e continuaram a usá-los. Mas as cidades cujo crescimento se deu principalmente no boom do pós-guerra, como Los Angeles, Atlanta, Houston e Denver, foram construídas e projetadas, na prática, com vistas aos cidadãos que possuíam automóveis. Ainda é normal que famílias americanas comprem casas com garagens grandes para guardar carros.

Para muitas pessoas, porém, o conceito anos 1950 que enxergava o ato de conduzir seu próprio automóvel como uma expressão de liberdade pessoal deu lugar à realidade brutal de que dirigir frequentemente é uma tarefa cansativa. Os automóveis nos EUA custam em média US$ 35 mil cada e são usados 4% do tempo. Enquanto são usados, seus condutores frequentemente são sujeitos a trânsito congestionado.

À primeira vista, gastar tanto dinheiro com um artigo que começa a perder valor imediatamente, ocupa uma parte tão grande de nosso tempo livre e é usado raramente, parece uma insensatez. Será que é hora de encararmos o transporte pessoal sob uma ótica totalmente nova?

Pesando os custos

Para responder à pergunta, criamos uma calculadora abrangente que inclui os custos de ser dono de um automóvel e os compara à opção alternativa do uso em tempo integral de serviços de mobilidade, como aplicativos de ride-hailing e carona compartilhada, para substituir o carro próprio. Os resultados talvez surpreendam.

O custo de usar carro próprio da maneira tradicional ultrapassa de longe o preço do automóvel: há também os juros pagos sobre financiamentos, o seguro, os impostos, combustível e manutenção do veículo. Alguns custos são não evidentes, tais como estacionamento, impostos imobiliários e custos de construção de garagens residenciais, além do valor do nosso tempo.

F. Todd Davidson and Gordon Tsai, CC BY-ND

Os serviços de ride-hailing se tornam mais econômicos quando o automóvel particular de uma pessoa é mais caro e quanto mais a pessoa valoriza seu tempo (o lado azul das tabelas). O custo dos serviços de transporte hoje varia entre US$ 1 por milha (à esquerda) e US$1,50 por milha (à direita), mas a introdução dos veículos autônomos pode reduzir os preços para menos de US$1 por hora. As linhas que se cruzam representam os resultados do preço médio de um carro novo e a média salarial informada à Previdência Social americana. A sigla TNC indica a Transportation Network Company. F. Todd Davidson e Gordon Tsai, CC BY-ND.

O valor do tempo do indivíduo – ou seja, o valor em dólares por hora que você atribuiria ao tempo que gasta dirigindo – é um dos fatores mais importantes de nossos cálculos.

O americano médio passa 335 horas por ano na direção do carro, dirigindo 13 mil milhas (20.900 km). Somem-se as horas que passamos fazendo a manutenção, limpeza e outros cuidados dos nossos carros e fica claro que a ênfase americana sobre a posse do automóvel próprio nos custa tempo significativo, sendo que o tempo é possivelmente nosso bem mais precioso.

Quanto você pagaria para evitar o estresse de dirigir pela cidade? Quanto pagaria para fazer um uso mais eficiente desse tempo, por exemplo colocando seus e-mails em dia, lendo um livro ou cochilando? E se você pudesse realizar tarefas ligadas ao trabalho enquanto estivesse sendo transportado? Algumas profissões se prestam melhor a usar o tempo andando de carro de modo produtivo. Por exemplo, é mais fácil um advogado que um encanador ganhar dinheiro enquanto está sendo levado a seu trabalho de carro.

Quando se incluem esses custos no cálculo, os serviços de mobilidade aparecem como possivelmente a opção economicamente preferível. Que fique claro: essa análise visa a substituição completa do carro próprio. O indivíduo passaria a usar serviços de carona para todos seus deslocamentos, em vez de adquirir um veículo novo.

A decisão de possuir carro próprio ou usar serviços de mobilidade cabe a cada indivíduo. Se você comprar um automóvel altamente eficiente por menos de US$25 mil, andar com ele mais de 24 mil quilômetros por ano e ficar com ele até o carro cair aos pedaços, então, se sua meta for poupar dinheiro, ficar com o carro será a opção mais indicada para você.

Mas se você anda menos de 16 mil quilômetros por ano, perde muito tempo em engarrafamentos ou valoriza muito o tempo que gasta ao volante, nossos cálculos indicam que os serviços de mobilidade podem ser a opção que lhe custará menos. Fatores geográficos também entram no cálculo – não é por acaso que sempre houve tantos táxis em Nova York, onde o trânsito lento e o custo alto de se estacionar consomem tempo e dinheiro.

Opção mais econômica que os motoristas humanos

A ascensão dos veículos autônomos (sem motorista) nos serviços de carona compartilhada pode tornar os serviços de mobilidade ainda mais atraentes, especialmente quando se considera o lado econômico desde o ponto de vista do provedor desses serviços.

AP Photo/Jared Wickerham
Carro autônomo da Uber sendo testado em Pittsburgh.

Suponhamos por um momento que você administra uma frota de veículos de serviços de mobilidade. Vamos supor que você pode comprar os carros ao atacado por US$20 mil cada e que eles vão operar em tempo integral por cinco anos (em 2015 a idade média dos táxis de Nova York era 3,6 anos). A média do que um taxista ganha por ano é cerca de US$25 mil. Ou seja, você gastará US$145 mil para adquirir o carro e pagar o motorista para operar por cinco anos (sem levar em conta combustível, manutenção do carro, licenciamento e outros custos operacionais).

Usando práticas de contabilidade comuns, calculamos que, se o provedor do serviço de mobilidade pudesse comprar um automóvel autônomo por menos de US$114 mil, ele ganharia mais se nunca chegasse a contratar um motorista.

Para um consumidor médio, o valor de US$114 mil é altíssimo para um carro. Mas, para uma empresa como a Uber, que pode um dia operar uma frota de veículos autônomos, pagar mais que US$100 por carro pode parecer ótimo negócio, comparado a pagar pelo trabalho dos motoristas, um dos grandes fatores que compõem seus custos operacionais.

À medida que o preço dos veículos autônomos for caindo, o custo de se fornecer serviços de mobilidade vai diminuir. Portanto, é provável que mais consumidores passem a usá-los, ampliando o mercado.

Uber, Alphabet e muitas outras empresas de transporte automotivo entendem isso. Essa é uma das muitas razões por que há uma corrida épica em curso para capturar uma parcela do mercado e, futuramente, ser a primeira empresa a oferecer veículos completamente autônomos.

Por outro lado, se o preço dos veículos autônomos cair o suficiente, é possível que os consumidores comprem seus próprios carros autônomos e recuperem o tempo que hoje gastam dirigindo seus automóveis. Isso tiraria um pouco do valor dos serviços de mobilidade.

Fatores culturais

Mas ainda resta outra pergunta: será que os americanos querem realmente abrir mão de seus carros? Mesmo que serviços de mobilidade, com carona compartilhada e automação, oferecerem uma escolha menos cara, ainda é possível que os serviços de mobilidade não sejam adotados em pouco tempo, porque as pessoas compram carros por muitas razões que vão além do simples preço (conveniência, status, curtição, símbolo de identidade, etc.)

O automóvel é há muitas décadas um elemento crucial da cultura americana, frequentemente usado para ostentar riqueza e destacar a personalidade singular de seu dono. Será que os americanos vão gostar de se deslocar em carros padronizados, que fazem parte de uma frota automatizada maior? Eles vão abrir mão da ideia do carro próprio como extensão de sua identidade, para reconquistar um pouco de seu tempo livre?

Richard, CC BY
O sonho americano do pós-guerra: uma casa nos subúrbios e um carro próprio.

Algumas tendências parecem realmente estar favorecendo o uso maior dos serviços de mobilidade. Com o uso crescente das comunicações digitais nos EUA e no mundo, mais pessoas vão poder realizar tarefas de trabalho enquanto estão se deslocando. E o movimento de volta às cidades nas últimas décadas está adensando os centros das cidades, aumentando o congestionamento e favorecendo as alternativas ao carro próprio.

Mesmo as diferenças entre gerações em matéria de consumo de bens e serviços podem estar exercendo um papel. Os membros da geração do milênio parecem pouco interessados em seguir o caminho das gerações anteriores, em matéria de carros. Será interessante ver se a geração Y demonstra mais desejo por carros próprios, à medida que seus integrantes têm filhos e começam a ir para os subúrbios em busca de residências mais acessíveis.

Não está claro como será a transição. Parece que o mais provável é que o sistema de transportes do futuro misture carros pessoais e serviços de mobilidade, com os dois sendo usados de modo complementar. Se mais pessoas começarem a usar serviços de carona compartilhada, estes, juntamente com carros particulares, serviços de mobilidade e transportes públicos, podem tornar nossas ruas e cidades mais limpas, menos congestionadas e mais acessíveis.

Além dos serviços mais comuns de mobilidade já existentes, operadoras de minivans de traslado, como o serviço Chariot da Ford, podem se juntar em breve ao Uber e Lyft.

Com o desenvolvimento dos serviços de mobilidade é provável que surjam novas soluções para se adequar a necessidades específicas, como transporte de jovens, de idosos ou deficientes físicos e até para esforços de recuperação após catástrofes. O nível elevado de serviços pode criar um círculo virtuoso que reforce o valor dos serviços de mobilidade, aumentando a adesão das pessoas a eles, o que reduzirá mais seus custos e por sua vez aumentará sua utilização. Levando em conta a facilidade de uso e os benefícios econômicos, é possível que a transição para os serviços de mobilidade ocorra em menos tempo do que imaginamos.

O pesquisador Zhenhong Lin, Ph.D., do Laboratório Nacional de Oak Ridge, contribuiu para as pesquisas para este artigo, assim como Gordon Tsai, da Universidade do Texas.

*Este texto foi originalmente publicado no The Conversation US e traduzido do inglês.

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