MULHERES

'Não seremos silenciadas': A carta assinada por mais de 7 mil mulheres que escancara o assédio sexual nas artes

A carta é assinada por artistas de todo o mundo, como Cindy Sherman, e por mais de 30 brasileiras.

31/10/2017 15:59 -02 | Atualizado 01/11/2017 17:26 -02
Miro Kuzmanovic / Reuters
A artista americana Cindy Sherman é uma das mulheres por trás do documento.

"Nós não estamos surpresas. Nós somos artistas, administradoras, assistentes, curadoras, diretoras, editoras, educadoras, estudantes, escritoras e mais -- que trabalham no mundo das artes -- e nós somos assediadas, infantilizadas, depreciadas, ameaçadas e intimidadas por aqueles em posição de poder."

Assim começa uma carta aberta assinada por cerca de 7 mil mulheres de todo o lugar do mundo. O documento é um manifesto que escancara o assédio sexual e abuso de poder que recorrentemente acontecem no meio artístico, na esteira de uma série de acusações de abusos sexuais contra diretores, produtores e atores.

O produtor Harvey Weinstein recebeu mais de 50 denúncias de mulheres, que relatam assédios e abusos cometidos em décadas. Terry Richardson, o fotógrafo de renomadas revistas americanas, também sofreu boicotes após ser acusado por uma série de assédios sexuais.

"Nós não estamos surpresas quando curadores oferecem exibições ou aporte financeiro em troca de favores sexuais. Nós não estamos surpresas quando galeristas romantizam, minimizam ou escondem comportamentos abusivos dos artistas que os representam. Nós não estamos surpresas quando uma reunião com um colecionador ou um potencial patrão se torna uma proposta sexual. Abuso de poder não é uma surpresa", continuou a carta, que conta com nomes renomadas de todo o mundo, como a fotógrafa e diretora Cindy Sherman, a artista contemporânea e ganhadora do Prêmio Turner, Helen Marten, a compositora e cantora Laurie Anderson e a artista contemporânea Jenny Holzer.

A carta também é assinada por mais de 30 brasileiras, como a produtora cultural, Marina Marchesan, a professora e curadora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Ana Magalhães, e a curadora da Pinacoteca de São Paulo, Fernanda Pitta.

Nós somos silenciadas, hostilizadas, demitidas por "exagerar" reações e ameaçadas quando tentamos expor um comportamento sexual e emocionalmente abusivo. Não seremos mais silenciadas.

A iniciativa começou com uma discussão entre mulheres em um grupo de WhatsApp. Ao The Guardian, Sarah McCrory, diretora do Centro de Arte Contemporânea em Goldsmiths, na Universidade de Londres, disse que a carta nasceu depois que mulheres do setor começaram a conversar sobre assédio sexual em no WhatsApp.

"Foram três dias muito intensos, mas também um exercício muito encorajador. Começou de discussões em uma rede social entre colegas de profissão sobre como reagir ao caso de Artforum", disse Sarah, se referindo a Knight Landesman, diretor da revista de arte ArtForum, uma das mais influentes no mundo da arte.

O diretor é acusado de assédio sexual em uma ação apresentada em Nova York por uma ex-funcionária da revista, Amanda Schmitt. Segundo ela, o diretor teria abusado de mais oito pessoas.

Além de jogar luz sobre o tema, o movimento contra o abuso sexual no meio artístico quer expor casos e incentivar outras mulheres a denunciar esses abusos.

Essa carta é o primeiro passo. Nós vamos continuar expondo e agindo contra esses problemas como parte de um grande processo, construindo os próximos passos conforme o recebimento de feedbacks.

O caso de assédio de Zé Mayer