MULHERES

Curadora do 'Guerrilla Girls' em SP: 'A arte nos ensina que não há uma só verdade'

Em cartaz no Masp até fevereiro de 2018, coletivo de NY é conhecido por suas obras heterodoxas que questionam o machismo nas instituições.

29/10/2017 10:42 -02 | Atualizado 29/10/2017 10:48 -02

Elas utilizam máscaras de gorilas e pseudônimos para homenagear mulheres artistas que já estão mortas. Suas obras possuem mensagens claras, diretas e universais. Ainda, bradam um grito de guerra: "Reinventando a palavra com 'F' - feminismo!".

O Guerrilla Girls, coletivo de arte e política criado em 1985 em Nova York, coleciona fãs ao redor do mundo por sua atitude propositiva e intervencionista em ambientes consagrados como intocáveis, como os grandes museus.

O grupo se uniu em resposta a uma exposição realizada em 1984 no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York. A mostra tinha o título International Survey of Recent Painting and Sculpture (Panorama internacional de Pinturas e Esculturas recentes). Ao todo eram 165 artistas, porém, apenas 13 eram mulheres. A proporção desigual incomodou as ativistas. Nascia assim uma das vozes mais importantes sobre a discussão de gênero e arte.

Mas, afinal, o que elas querem? Mais mulheres. Mais representatividade. Mais igualdade.

"Nosso anonimato mantém o foco nas questões e longe de quem podemos ser. Nós usamos máscaras de gorila em público e usamos fatos, humor e visões ultrajantes para expor desigualdade de gênero e racismo, bem como a corrupção na política, arte, cinema e cultura pop. Derrubamos a ideia de uma narrativa convencional, revelando o subtexto, o negligenciado e o injusto", explica a descrição do grupo formado por 55 artistas de diversas nacionalidades.

Em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (Masp) até fevereiro de 2018, o Guerrilla traz ao Brasil parte de suas obras heterodoxas em formato de cartazes e, mais recentemente, performances em sua primeira exposição individual no País.

"Trazer elas [Guerrilha Girls] para o contexto de um grande museu é uma forma de ampliar o debate dentro da arte, de fazer essa intersecção entre ativismo e arte, entre política e arte, entre as coisas que se vive no cotidiano e a arte", diz Camila Bechelany, curadora da mostra, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Bechelany explica que a obra faz parte da programação do Masp dedicada à discussão de gênero e sexualidade - tema que, nas últimas semanas, foi alvo de ataques por parte da população que condenou uma performance envolvendo nudez em outro museu de São Paulo, como apologia à pedofilia.

"A ideia sempre é ampliar o debate, porque a arte nos ensina que não existe uma só verdade. As coisas precisam ser colocadas em perspectiva e contexto. E o meu papel é político nesse sentido: criar espaço para que exista liberdade de expressão, que as pessoas se expressem sem ferir o direito dos outros e que, principalmente, a arte seja um veículo para isso", argumenta a curadora.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Camila Bechelany falou sobre os principais pontos das obras do coletivo Guerrilla Girls.

Divulgação/Masp
O coletivo Guerrilla Girls permanece em anonimato há 30 anos.

HuffPost Brasil: Como foram os primeiros contatos com as obras delas?

Camila Bechelany: Eu conheci o coletivo nos anos 2000 em Nova York, e ele já fazia parte da minha pesquisa. Eu me interesso por ativismo na arte, então conhecia elas pelos cartazes. Depois elas começaram a fazer as performances dentro do contexto institucional. Elas se tornaram rapidamente reconhecidas no meio artístico e fizeram parte da Bienal de Veneza em 2005.

Qual a importância de ter uma mostra como a do coletivo Guerrilla Girls no Masp?

É de extrema importância. Toda a programação do Masp de 2017 é voltada para questões de sexualidade e de gênero. O coletivo é uma das vozes mais forte da desigualdade de gênero na arte e da representação de minorias. Eu considero que elas realmente começaram a ter uma voz mais ecoada aqui no Brasil. Durante a performance delas na abertura da mostra, a gente viu que teve bastante gente, não só do público de arte, mas principalmente do público mais jovem, de ativistas. Trazer elas para o contexto de um grande museu é uma forma de ampliar o debate dentro da arte, de fazer essa intersecção entre ativismo e arte, entre política e arte, entre as coisas que se vive no cotidiano e a arte. Acho que é este o primeiro impacto; você ampliar a ação do museu. O museu não é um lugar só para ver arte, é um lugar de convivência e educação. Então, trazer elas, que fazem um tipo de arte que começou como um trabalho político, mas que também é arte, amplia não só o que a gente entende sobre o que é arte, como também o próprio debate dentro do museu.

De que forma você descreveria o trabalho das artistas e sua relação com a cultura pop?

A arte hoje não se restringe a escultura ou pintura. Está muito além disso. A arte já assumiu várias formas. Se você visitar um museu hoje você verá as diversas formas em que ela se desdobrou. Você poder ver uma folha de papel datilografada, a arte pode ser um som, pode ser uma fotografia, uma revista ou um cartaz. O cartaz é uma forma em que o ativismo político e a arte se encontram. E não deixa de ser arte. Está falando sobre arte, sobre a história da arte. É também uma forma de inserção da cultura. É uma forma mais ampliada de compreender o trabalho artístico e isso está na origem do Masp. A Lina Bo Bardi já estava interessada em questionar os limites do que era arte popular ou não. Tanto que ela não falava em obras, mas trabalhos, e isso já trazia a ideia de que a produção artística não se restringe somente a alguns nomes e à arte europeia, por exemplo, ou a essa divisão entre pintura e escultura.

Como foi trabalhar com um coletivo que permanece em anonimato por mais de 30 anos?

É muito inspirador trabalhar com um coletivo que está em atividade há 30 anos. E no caso delas, o anonimato foi um dos principais elementos que conseguiu manter o grupo atuante. Porque isso permitiu que as ações fossem conduzidas de forma bastante livre e radical, sem ter o constrangimento de elas serem perseguidas pelas críticas que o grupo faz ao mercado e ao status quo. Ao mesmo tempo, o anonimato evita o protagonismo de um ou de outro membro do grupo e mantém sempre a coesão. Muitas vezes as participantes são artistas e mantém carreiras além da Guerrilla, e o anonimato permite que isso continue existindo, evita esse tipo de conflito. Por outro lado, elas são um exemplo de como trabalhar em grupo, de como fazer uma atividade coletiva. Quando elas aparecem em público elas usam a máscara característica, mas é sempre tudo muito tranquilo, elas são muito profissionais e de fato já aprenderam a lidar com as instituições.

Para você, quais são as obras mais simbólicas da mostra?

Tem várias. Para mim a mais simbólica, e que foi a que teve mais circulação, foi o cartaz que elas fizeram para o Metropolitan Museum of Art (NY) em 1989 em que elas contam quantas artistas mulheres estavam em exposição na coleção de arte moderna do Met. Para mim ela é muito representativa porque tem uma mensagem direta, clara e praticamente universal. É muito simples de entender. Elas usam as estatísticas para isso. É uma tática, uma estratégia de guerrilha mesmo. E esse cartaz foi refeito várias vezes, porque elas fazem a revisão dessas estatísticas de tempos em tempos. A gente também convidou elas para fazer a contagem do Masp e agora a gente tem o cartaz da nossa instituição, que foi uma coisa muito importante porque demonstra que a gente está interessada em rever as próprias práticas, as nossas políticas de aquisição e de acervo.

Divulgação/Masp

Também destaco o cartaz das vantagens de ser uma mulher artista, no qual elas fazem uma grande ironia sobre a dificuldade que é ser uma mulher artista dentro do sistema.

Divulgação/Masp
Divulgação/Masp

AS VANTAGENS DE SER UMA ARTISTA MULHER:

Trabalhar sem pressão por sucesso
Não ter que participar de exposições com homens
Poder escapar do mundo artístico em seus 4 trabalhos freelance
Saber que sua carreira pode deslanchar antes que você chegue aos oitenta
Ter assegurado que, qualquer que seja o tipo de arte que você faz, ela será rotulada como feminina
Não ficar empacada em uma posição estável de ensino
Ver suas ideias ganharem vida no trabalho de outros
Ter a oportunidade de escolher entre a carreira e a maternidade
Não ter que se engasgar com aqueles grandes charutos ou pintar em ternos italianos
Ter mais tempo para trabalhar quando seu companheiro trocar você por alguém mais jovem
Ser incluída em versões revistas da história da arte
Não ter que se submeter ao embaraço de ser chamada de gênio
Ter sua imagem nas revistas de arte vestindo uma roupa de gorila

Recentemente, o MAM foi alvo de ataques por conta da performance La Bête. Isso acendeu a discussão sobre o papel do museu e da arte - no fomento da educação da população. A mostra Guerrilla Girls também traz pontos desconfortáveis, porém necessários, como a desigualdade de gênero. Nesse sentido, poderia falar sobre o papel político de um curador?

O papel do curador está muito perto de um papel de um tradutor. De alguém que faz o link entre as coisas e que tem acesso a uma forma de dar espaço ao debate. A ideia sempre é ampliar o debate, porque a arte nos ensina que não existe uma só verdade. As coisas precisam ser colocadas em perspectiva e contexto. E o meu papel é político neste sentido: criar espaço para que exista liberdade de expressão, que as pessoas se expressem sem ferir o direito dos outros e que, principalmente, a arte seja um veículo para isso. E o papel de um curador de museu é fazer isso a partir de uma coleção de um museu, ou acervo ou até mesmo do espaço físico em que está inserido. O Masp já é por si só político. Nós temos o vão, que é um ponto de manifestação e é um espaço simbólico do debate. Ninguém está aqui para dar uma resposta definitiva, mas o Masp e a curadoria estão interessados em ampliar os espaços de debate dentro da sociedade. Hoje o debate é pautado principalmente por questões ligadas a sexualidade, mas podem existir outros temas.