POLÍTICA

Quais as chances de Henrique Meirelles, ministro da Fazenda de Temer, para 2018?

Três especialistas avaliam as vantagens e dificuldades do ministro em caso de candidatura do PSD na corrida presidencial.

27/10/2017 17:09 -02 | Atualizado 27/10/2017 17:12 -02
Pilar Olivares / Reuters
"Ele não falou que quer ser [candidato], mas o olhar e o sorriso valem mais que palavras."

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, apareceu em sexto lugar na última pesquisa para as eleições de 2018, realizada pelo Instituto Datafolha. A um ano do pleito, ele tem 2% das intenções de voto. Carregando a experiência de presidente do Banco Central (BC) nos dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o engenheiro com larga atuação no BankBoston conta com prestígio do mercado financeiro e respeito de empresários. Seu partido, o PSD, aposta na atuação de Meirelles como comandante do programa econômico de Michel Temer para assumir uma candidatura no ano que vem.

O ministro passou a ser considerado pré-candidato em setembro, quando a bancada do PSD lançou seu nome para representar a sigla no próximo pleito. Meirelles prontamente negou a pré-candidatura.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o deputado Marcos Montes (MG), líder do PSD na Câmara, aposta no ministro e admite que o apelo surgiu da bancada parlamentar e não da direção da executiva nacional do partido.

"É um nome que estamos colocando para apreciação, mas não sabemos se vai dar certo. Ele não vai falar que é [pré-candidato], mas estamos falando por ele. Ele falou comigo e disse que vai negar. E eu disse 'pode negar; você me autorizando a falar, pode negar'. Ele não falou que quer ser [candidato], mas o olhar e o sorriso valeram mais que palavras", afirmou o líder do PSD.

Tendo em vista as articulações em prol do nome de Meirelles, quais são as reais chances do atual ministro da Fazenda, suas vantagens e as dificuldades que precisará vencer para ser um nome forte em 2018?

As reformas

Henrique Meirelles é o nome por trás das reformas do governo Temer. Do ponto vista do mercado, tanto a reforma trabalhista, sancionada pelo presidente, quanto da Previdência, ainda em debate no Congresso, são vistas positivamente. A economista e professora do Insper Juliana Inhasz avalia que "o ministro conseguiu o êxito que seus antecessores não obtiveram, com a implementação, ainda que parcial, de reformas entendidas como difíceis, porém necessárias".

"A gestão de Meirelles solidificou o que muitos acreditavam ser pouco possível: uma visão mais pragmática dos problemas econômicos, quase que blindada, na medida do possível, do turbulento ambiente político", afirmou ao HuffPost Brasil.

Em dezembro de 2016, o ministro alcançou a primeira grande vitória do governo Temer: a promulgação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do teto de gastos. Mesmo enfrentando resistência de movimentos sociais e diversos protestos, o Congresso validou a PEC que obriga o governo gastar em um ano apenas o montante que foi gasto no anterior corrigido pela inflação.

O texto aprovado prevê que o orçamento federal siga essa regra por 20 anos, com possibilidade de revisão em dez. Esse maior controle do gasto público foi a arma do governo para equilibrar as contas, no vermelho, e assim restaurar a confiança de investidores no País.

O ex-economista do BC Newton Marques, professor da UnB (Universidade de Brasília), avalia que as reformas são necessárias, mas questiona a forma como estão sendo implementadas. "A reforma da Previdência foi muito mal discutida e conduzida porque ainda mantém certos privilégios. Os economistas concordam que o regime previdenciário não tem sustentabilidade a médio e longo prazo. Mas qual é a qualidade dessa reforma?", questiona.

O aumento da idade mínima para se aposentar e a redução de "privilégios" de categorias estarão no centro do debate nas próximas semanas na Câmara dos Deputados.

Segundo o cientista político e professor da PUC-SP Rafael Araújo, as mudanças propostas pela reforma da Previdência atrapalham muito uma pretensão eleitoral de Meirelles.

"Com a reforma trabalhista, há a argumentação de que ela pode gerar outros tipos de emprego, que no médio prazo as pessoas vão se adaptar. Eu acho que ela foi uma tragédia, mas é possível trabalhar no ponto de vista do marketing. Mas a da Previdência não é. Ela mexe com a expectativa do trabalhador que sonhou a vida inteira com a aposentadoria e agora terá que trabalhar até muito tarde para consegui-la."

Um novo FHC?

O êxito do Plano Real, em 1994, deu ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, a vitória nas eleições presidenciais. Para a economista Juliana Inhasz, "a estabilidade econômica e as estratégias para tal serão o foco das candidaturas em 2018".

Nesse sentido, ela aposta em uma vantagem de Meirelles frente aos outros candidatos:

Meirelles é a peça principal no processo de ajuste econômico. A queda dos índices de inflação, em conjunto com a redução das taxas de juros e as melhorias, ainda discretas, em indicadores como inadimplência e desemprego trouxeram maior confiança para a economia.

Inhasz reconhece que o êxito do ministro se dará se de fato houver uma retomada do crescimento econômico. "O seu principal inimigo é o tempo de reação do mercado às medidas econômicas, cada vez mais comprometidas pelo cenário institucional e político conturbados."

De acordo com a mais recente projeção do nstituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro vai crescer 0,7% neste ano — um crescimento bastante tímido — e 2,6% em 2018.

Para o economista Newton Marques, ter a confiança do setor financeiro não é suficiente para garantir o apoio em uma eleição. "O ministro tem que convencer o setor produtivo de que ele não é um homem que privilegia o setor financeiro. Quem dá votos não é o setor financeiro. Este dá dinheiro. Quem dá votos é o setor produtivo", afirma.

Política

A gestão de Michel Temer amarga 3% de aprovação. Henrique Meirelles faz parte do governo mais impopular da História recente.

Para Rafael Araújo, da PUC-SP, "ser parte de um governo impopular não é um problema, porque a impopularidade é muito mais da figura do Temer do que do governo propriamente".

Assim, a pior pedra no sapato do ministro seria a falta do "verniz político", mesmo na avaliação de fiadores de sua pré-candidatura, como o deputado federal Marcos Montes (PSD-MG).

"Não é porque ele tem um nome respeitado no mercado que seria um bom candidato. Há Joaquim Barbosa, Cármen Lúcia, há muitos nomes aí, mas apenas o nome não basta. É imprescindível que haja uma base político-partidária para dar sustentação. É preciso ter capilaridade. Quem é Henrique Meirelles nos municípios? Quem é ele no Nordeste?", questiona Newton Marques.

Além disso, o ministro deverá enfrentar nomes já consolidados no cenário político brasileiro, como os de Lula, caso este não seja condenado pela Justiça em 2ª instância, Marina Silva, que já concorreu a presidente em 2010 e 2014, e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que disputou em 2006. Para o cientista político Rafael Araújo, "a realidade é que ele vai concorrer com outros grandes candidatos que têm muito mais chances".

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