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Por que as pessoas raramente falam alguma coisa quando testemunham assédio sexual

Somente 1 em cada 4 vítimas apresentam denúncias.

27/10/2017 22:18 -02 | Atualizado 27/10/2017 22:21 -02
AntonioGuillem via Getty Images
Se você vir algo, diga.

Por George B. Cunningham

O alvoroço causado pelas acusações de abuso e assédio sexual contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein inspirou inúmeras mulheres (e alguns homens) a contar suas próprias histórias de assédio e ataques sexuais.

Com essas histórias ganhando destaque nas redes sociais com a hashtag #MeToo, está cada vez mais difícil ignorar o quão comuns são esses episódios no trabalho e em outros ambientes.

Estudei assédio sexual e sua prevenção em minhas pesquisas sobre diversidade e inclusão. Minha pesquisa mostra como as pessoas muitas vezes não se manifestam quando testemunhas esses incidentes e pode explicar como Weinstein foi capaz de manter durante décadas seu comportamento predatório como um "segredo público".

(Estou chocada, inspirada e de coração partido com o que começamos. Que seja o começo de mudanças.)

Testemunhando assédio sexual

É claro que as acusações contra Weinstein foram além de assédio sexual, o que a professora da Universidade de British Columbia Jennifer Berdahl define como "comportamento que derroga, avilta ou humilha um indivíduo por causa do sexo do indivíduo".

Algumas das mulheres que vêm se manifestando nos Estados Unidos e em outros países acusam Weinstein de estupro – um crime – em encontros que ele diz sempre terem sido consensuais.

Mas o assédio sexual é um problema tão crônico no ambiente de trabalho que responde por um terço das 90 mil denúncias registradas junto à Comissão para Igualdade de Empregos e Oportunidades (EEOC, na sigla em inglês), em 2015. Como somente uma em cada quatro vítimas apresentam denúncias, entretanto, especialistas afirmam que o número de casos é muito mais alto que o número oficial de denúncias.

O silêncio deixa a maior parte dos culpados livres para assediar colegas e subordinadas. Se o assédio sexual permeia o mundo do trabalho, e se a maioria das mulheres não o denuncia, o que pode ser feito?

Alguns estudiosos sugerem que a melhor maneira de prevenir o assédio sexual, o bullying e outros comportamentos tóxicos é treinar as pessoas para defender as vítimas desse tipo de agressão quando testemunharem algo do gênero. Um dos motivos pelos quais incentivar essas intervenções pode ser uma solução é o fato de que cerca de 70% das mulheres observaram assédio sexual no ambiente de trabalho, segundo pesquisa do psicólogo Robert Hitlan.

O problema é que a maioria das pessoas que testemunham ou sabem de casos de assédio sexual não se manifesta. O roteirista, ator e produtor Scott Rosenberg admitiu e denunciou como essa dinâmica permitiu que Weinstein se tornasse um "abusador em série". "Sejamos muito claros", escreveu Rosenberg num post privado do Facebook relatado pela imprensa, "Todo mundo sabia". Ele acrescentou:

"No fim das contas, eu fui cúmplice.

Não disse p...a nenhuma.

Não fiz p...a nenhuma.

Harvey sempre foi maravilhoso comigo.

Então colhi os prêmios e fiquei de boca fechada.

E por isso, mais uma vez, sinto muito."

AP Photo/Matt Sayles
O ator Matt Damon, à direita, negou relatos de que teria ajudado a suprimir reportagens que teriam exposto o comportamento de Harvey Weinstein (à esquerda).

Pesquisando as respostas das pessoas

Para entender por que as testemunhas de abuso não se manifestam, eu e um colega fizemos um estudo em 2010 que pediu que os participantes revisassem cenários hipotéticos de assédio, indicando se falariam algo.

Os resultados pareciam promissores: os participantes em geral diziam que fariam algo para impedir o assédio caso o presenciassem. As pessoas indicaram que teriam mais propensão a responder caso duas condições fossem atendidas: se fosse um toma-lá-dá-cá – ou seja, se o responsável pelo assédio prometesse benefícios em troca de favores sexuais – e se o ambiente de trabalho valorizasse diversidade e inclusão. Nessas culturas, há linhas de comunicação abertas, e os líderes respeitam a diversidade e a inclusão.

Mas esse tipo de experimento com cenários hipotéticos usado por nós e outros pesquisadores tem um problema potencial. As pessoas nem sempre fazem o que acham que vão fazer em situações reais. Por exemplo: psicólogos sabem que as pessoas tendem a acreditar que ficarão mais angustiadas durante eventos emocionalmente devastadores do que realmente ficam quando esses eventos ocorrem.

Outros pesquisadores encontram padrões similares quando o tema é reação ao racismo . As pessoas acham que vão ficar chocadas e angustiadas quando ouvirem comentários racistas. Mas, quando os ouvem, essa reação simplesmente não acontece.

A mesma dinâmica se aplica ao exame de assédio sexual em entrevistas de trabalho, como ilustra um estudo conduzido pelas psicólogas Julie Woodzicka e Marianne LaFrance.

As participantes, todas mulheres, esperavam sentir raiva, confrontar os responsáveis pelo assédio e se recusar a responder as perguntas do entrevistador hipotético. As perguntas incluíam se as mulheres tinham namorado ou se mulheres deveriam usar sutiã no trabalho.

Mas, quando observavam esse comportamento simulado durante entrevistas de mentira, as pessoas respondiam de maneira diferente. De fato, 68% das participantes que só leram a respeito dos incidentes disseram que se recusariam a responder as perguntas. Mas todas as 50 participantes que testemunharam a encenação de comportamento hostil acabaram respondendo as perguntas.

Com base nesses estudos, minha equipe realizou um experimento em 2012 para determinar como testemunhas de assédio reagiriam ao ouvir comentários impróprios sobre mulheres.

Algumas das participantes do sexo feminino leram sobre um cenário hipotético de assédio, enquanto outro grupo assistiu à encenação de um episódio de assédio. Determinamos que os participantes, estudantes universitários, superestimaram como responderiam ao ver alguém ser assediado.

Isso é importante porque quem não se sente angustiado tende a não fazer nada.

Respondendo a comportamentos sexistas

Pesquisadores descobriram que as mulheres têm maior propensão a dizer que ficaram angustiadas ao testemunhar comportamentos sexistas dirigidos a outros do que foi verificado quando elas presenciaram misoginia em situações simuladas. Os números indicam o nível de angústia relatado numa escala de 1 a 7, sendo que 7 é o nível máximo de angústia.

The Conversation, CC-BY-ND

Fonte: Estudo de pesquisadores da Universidade Texas A&M e da Arkansas State University sobre assédio.

Treinamento de intervenção

O que impede as pessoas de agir como elas acham que agiriam?

Psicólogos afirmam que a disparidade está no "viés de impacto". As pessoas subestimam o impacto que todos os eventos futuros – sejam casamentos, funerais ou até mesmo uma final de campeonato – terão em seu estado emocional. A vida real é mais complicada que o futuro que imaginamos. Pressões sociais e contextos fazem diferença.

Isso sugere uma solução possível. Como o contexto é relevante, organizações podem incentivar testemunhas de assédio a fazer algo.

Elas podem, por exemplo, treinar as equipes a conversar com organizações especializadas. O programa Green Dot Violence Prevention Program, por exemplo, foi originalmente idealizado para reduzir problemas como ataques sexuais e stalking, incentivando testemunhas a fazer alguma coisa. A EEOC diz que "o treinamento para intervir em casos de assédio pode ser eficaz no trabalho".

Especialmente quando o assunto é assédio sexual no trabalho, estabelecer linhas diretas e anônimas para denunciar incidentes sexistas é essencial. Os funcionários também não devem temer repercussões negativas ou fofocas caso apresentem denúncias.

Finalmente, quem testemunha esse comportamento tem maior probabilidade de se manifestar em organizações que deixam claro que não toleram o assédio. Para que isso aconteça, os líderes têm de demostrar seu compromisso com ambientes de trabalho seguros, fazer cumprir as políticas internas da empresa e treinar os novos funcionários.

Enquanto as pessoas não se manifestarem quando testemunharem casos de assédio, eles continuarão atormentando as empresas americanas.

*Este artigo foi originalmente publicado no The Conversation e traduzido do inglês.

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