POLÍTICA

O que pensa Gustavo Franco, formulador do Real e responsável pelo programa do Novo de 2018

Ex-presidente do Banco Central na era FHC defende privatizações e reformas trabalhista e previdenciária.

27/10/2017 18:53 -02 | Atualizado 27/10/2017 18:53 -02
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À frente do Novo, o ex-presidente do BC será responsável por elaborar o programa de governo para a campanha de 2018.

Depois de 28 longos anos filiado ao PSDB, o ex-presidente do Banco Central da era FHC Gustavo Franco se filiou ao partido Novo em setembro deste ano, após críticas contundentes ao antigo partido pelos "erros de seus líderes" e "hesitação" diante das ideias pró-mercado.

À frente da Fundação Novo, um dos formuladores do Plano Real será responsável por elaborar o programa de governo do presidenciável João Amoêdo, fundador do partido, mirando a campanha de 2018. "O Novo se constrói mais como uma organização da sociedade civil do que um partido político. E acho que por isso mesmo tende a se comportar diferente de outros partidos", disse Gustavo Franco, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Alinhado ao liberalismo, o partido defende privatizações, reformas trabalhista e previdenciária e intervenção mínima do Estado na economia. Para Franco, o partido tem ideias "revolucionárias" e uma prova disso é ser contra o financiamento público de campanhas.

"Recorrentemente, o partido fez analogia entre o Fundo Partidário e o imposto sindical, que acabou de ser abolido. Havia um acordo de contribuição obrigatória para sustentar sindicatos e acreditamos que não deve haver a mesma coisa para sustentar partidos", compara.

Nesta entrevista, Franco destaca ideias vigentes que considera "obsoletas", como a fragilidade do trabalhador em negociações com empresas, e analisa possíveis candidaturas que também dialogam com o mercado, como as do prefeito de São Paulo, João Doria, do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e do apresentador de TV Luciano Huck.

Leia a íntegra:

HuffPost Brasil: Primeiramente, gostaria de falar sobre a crise ética que colocou em xeque a credibilidade dos maiores partidos do País - PT, PMDB e o PSDB. O senhor acha que o partido ao qual foi filiado por décadas tem alguma perspectiva de recuperação?

Gustavo Franco: Eu suponho que sim, torço que sim. Acho que tem gente da melhor qualidade do partido que está em busca de resolver os dilemas que apareceram nesse período recente, mas eu não faço parte do problema.

Por que o senhor escolheu o Novo, um ainda partido pequeno?

Não importa o tamanho, na verdade é a grandeza da sua ideia, da sua proposta. Nesse aspecto, o Novo se constrói mais como uma organização da sociedade civil do que um partido político. E acho que por isso mesmo tende a ter comportamento diferente de outros partidos políticos, mesmo porque vai revolucionar em vários aspectos. Até aspectos muito enraizados da cultura política brasileira, como o uso do financiamento público, o Fundo Partidário... Gostaríamos que isso não existisse.

Na verdade, o partido recorrentemente faz analogia da obrigatoriedade entre o Fundo Partidário e o imposto sindical, que acabou de ser de ser abolido. Havia um acordo de contribuição obrigatória para sustentar sindicatos, e acreditamos que não deve haver a mesma coisa para sustentar partidos.

Então, como o partido vai financiar as campanhas para a eleição do ano que vem?

A primeira é fazendo economia, né? Porque as campanhas estão muito caras e nada justifica que elas custem o que tem custado, a julgar pelos valores reportados ao Tribunal Superior Eleitoral. Segundo, as fontes devem ser sim as contribuições voluntárias de seus filiados. Se a ideia é reduzir a importância do poder econômico, que assim seja. Que seja feito entre os seus filiados a ponto de eles contribuírem financeiramente com isso, é assim que deve ser.

A candidatura de João Amoêdo à Presidência da República pelo Novo é certa?

Até segunda ordem, sim. Ele é fundador do partido e uma liderança incontestável dentro do partido, mas estamos em um processo de definição de vários cargos em várias cidades, em vários estados. Então, alguma coisa pode mudar, mas vamos aguardar.

Na sua opinião, a candidatura de Amoêdo seria mais simbólica, para marcar a candidatura do Novo, ou o senhor acredita que ele possa ser mais competitivo, mesmo sem tempo na TV?

Eu não sei o que seria simbólico; a candidatura de João vai buscar servir o tamanho das ideias sobre liberdade na forma como o Novo as coloca, vamos ver que tamanho é esse.

Todos nós temos curiosidade de ver, nossa impressão é que isso é grande, mas não sei de que tamanho. O Brasil mudou, mudaram as formas de contato entre o mundo político, o mundo do debate político e o eleitor nas redes sociais. A gente tem a esperança de que isso tenha renovado e revigorado como a cidadania participa da política.

Vamos nos esforçar para que a preferência revelada pelo eleitorado pelas ideias do Novo seja positiva e significativa.

Sobre o João Doria, ele tem uma agenda mais liberal, mais voltada para o mercado. A pré-candidatura dele te empolga? O senhor acha que ele pode concorrer pelo PSDB à Presidência?

Bom, isso é um assunto do PSDB, eu não tenho nada a dizer a esse respeito.

Se ele saísse a candidato pelo PSDB, ele seria um forte concorrente do Novo?

Não sei, depende. Acho que ele próprio, no contexto do PSDB, se apresenta como uma tentativa de trazer novas ideias ao partido. Agora, como candidato, vai mexer com um Novo? Vai ter que ver como ele se apresenta, é difícil dizer nessa altura.

Apesar de ser amplamente defendida pelo Novo e pelo senhor, as privatizações de estatais brasileiras ainda são tabu no debate público. Quais seriam os benefícios da privatização de empresas como a Petrobras?

Eu acho que os benefícios da privatização são óbvios, basta ver que hoje temos mais celular do que gente, e isso é um produto da privatização. Se tivéssemos um santinho da privatização, basta procurar no bolso, que é o celular, que certamente não é o primeiro, nem o segundo que [você] tem. Isso é uma espécie de moeda da privatização, o resultado da privatização.

Então, a demonstração de que a coisa funciona é muito clara. Ao mesmo tempo, a prova de que o contrário não funciona é que as empresas públicas tendem a não funcionar e apresentar resultados patéticos, isso é evidente em empresas como a Petrobras. Outrora uma empresa pujante, foi colonizada por uma quadrilha, o que acontece com outras empresas que foram entregue a partidos.

Então por que tanta resistência a ceder uma empresa estatal para uma empresa privada quando todo ano, de graça, os governos empregam essas empresas a partidos políticos?

Eu não entendo qual é a lógica de achar que empregar uma estatal a um partido político é melhor do que vendê-la para alguém que vai operar a empresa direito. Acho que os termos do problema se modificaram com o tempo, com o sucesso da privatização, com o sucesso das empresas privatizadas, com esses acontecimentos lúgubres que aconteceram na Petrobras, com o escândalo do Petrolão.

Quem defende as estatais diz que privatizar acaba "entregando a riqueza nacional". Como contestaria essa defesa de estatais?

Bom, isso não é uma defesa, é uma frase de efeito e boba.

O que acha das reformas trabalhistas e previdenciárias de Temer? Na sua opinião e na do partido, elas são suficientes?

Não são suficientes. Na opinião do partido, também não. Essas reformas são um começo, são bem-vindas. A reforma previdenciária não começou ainda, mas o que observamos na reforma trabalhista é promissor, há muito mais o que fazer. E o Brasil tem muito a ganhar em aprofundar essas reformas. E, como em qualquer reforma, tem sempre um tanto de polêmica e vamos enfrentá-la.

Em uma entrevista, o senhor defende a negociação do 13º salário e férias. Acha que o Novo conseguiria mudar isso, diante da impopularidade da proposta e da comoção que essa mudança geraria?

Eu não vejo nenhuma impopularidade e nenhuma comoção em as pessoas passarem a ter o direito de dispor do seu 13º e das suas férias. Isso não significa que as pessoas vão perder [direitos]. É ter e poder vender, hoje você não pode dispor do 13º e das férias [como quiser], o que limita o direito do trabalhador. O que queremos é remover esse limite.

A ideia de que o trabalhador brasileiro é um incapaz, que não tem capacidade de negociar os próprios termos do seu trabalho, me parece uma ideia obsoleta. Acho que pode valer num caso muito limitado de trabalhadores de baixa qualificação que pode perfeitamente ser objeto de atenção específica, mas como regra geral, não faz o menor sentido.

O senhor acha que o Henrique Meirelles está fazendo um bom trabalho como ministro da Fazenda?

Acho que consideradas as limitações dentro das quais ele trabalha, sim, está fazendo um bom trabalho.

Essa gestão daria fôlego para uma possível candidatura em 2018?

Eu não consigo vislumbrar muito os efeitos, as ambições políticas do ministro, interferindo no seu trabalho. É legítimo que ele tenha essas ambições, mas isso não o faz menos capaz, nem mais populista. Evidentemente essa vontade que ele tem não está afetando seu trabalho.

Como o senhor avalia o governo Temer?

São vários tipos de avaliação, vou me restringir ao econômico. Se isolar da tempestade política que o governo enfrenta, e é claro tem aí o interesse que isso se tornasse um ativo político para o governo, se conseguir de fato trazer a economia em território positivo, em matéria de crescimento, como parece ser o caso, sim. É uma tarefa relativamente fácil se considerar a herança de erros que a administração herdou (da gestão Dilma Rousseff).

É muito difícil fazer mais erros do que vinha sendo feito, então é só parar com os delírios anteriores e criar impulso positivo na economia. Poderia ser mais ambicioso, mas acho que foi o que deu pra fazer nesse governo, sendo de transição, e cercado de polêmicas como a gente sabe.

Uma candidatura como a de Luciano Huck, com o apoio de Armínio Fraga na Fazenda, não competiria com a do Novo, já que ambos têm uma agenda liberal e conectada ao mercado?

É difícil de opinar porque [Huck] não é bem uma candidatura. Nessa altura da vida, o que se tem eu acho são concursos de popularidade onde nomes como o dele aparecem como modelos que possuem alguma virtude que o nosso presidente deveria também possuir. Então, é um nome que aparece, um popular -- e isso, no Brasil, não significa que seria um bom presidente da República ou mesmo um bom candidato.

Para ser um bom presidente e ganhar eleição não basta ser popular, né? É preciso ter sustância, preciso estar ligado a um projeto político, a uma ideia de país.

O Luciano Huck pode se encaixar em alguns dos projetos que estão aí se desenhando em um âmbito diferente de partidos, mas isso ainda não dá pra ver, difícil comentar sobre a candidatura dele.

Huck chegou a sondar o Novo?

Eu não sei, eu não tenho conhecimento.

Como um dos criadores do Plano Real, como o senhor avalia a inflação hoje? Está sob controle ou há riscos?

O Real conseguiu de fato eliminar a hiperinflação, uma criatura que não tem a menor chance de se vislumbrar que volte. Mais do que isso, os mecanismos instituídos na nova matriz inventada pela presidente Dilma Rousseff... Nem ela foi capaz de fazer a inflação alta voltar, a despeito de ter, enfim, feito políticas que poderiam, sim, em outra circunstância, trazer de volta a inflação. Felizmente isso não aconteceu.

O risco inflacionário é de uma dimensão completamente diferente daquele que havia antes de 94. Vai ser sempre uma doença que precisa monitorar. O Brasil, de muitas maneiras, é como se fosse um ex-alcoólatra. Muitos dizem que não existe ex-alcoólatra, existe apenas um alcoólatra em abstinência. Então, a gente não pode brincar muito com essa droga. Acho que a gente, pelo longo tempo de estabilidade, solidificou o regime (de controle da inflação), mas o risco está sempre presente.

Com seu histórico na política econômica brasileira, o senhor poderia ter cargos altos em qualquer banco do Brasil, mas escolheu o Nubank. Por quê?

Na verdade, o Nubank me procurou oferecendo uma posição, numa espécie de conselheiro/consultor, e fiquei muito feliz. Gosto muito do modelo, da proposta de negócio, acho que a empresa tem um futuro brilhante e a posição encaixa bem nas outras ocupações que eu tenho. Eu estou muito satisfeito.

Acha que os bancos tradicionais estão ultrapassados?

Ultrapassados é uma palavra muito forte. Mas eles enfrentam desafio em pelo menos dois lados: um é uma concentração muito grande, que talvez tenha enfraquecido o sentido de contenção e o desejo de agradar ao cliente. E a outra coisa é a tecnologia, que reduziu as barreiras na entrada da indústria bancária e está trazendo competição, muito desafio. E isso é muito bom e vai fazer muito bem ao Brasil.

O que achou da personagem de Emílio Orciollo Netto no filme Real - O plano por trás da história? Foi fiel ao Gustavo Franco dos anos 90?

Eu acho que o filme é uma fábula e é uma pena que tenha se afastado do livro, onde é tudo verdade. O livro é uma reportagem, diferente do filme. Portanto são duas versões da mesma história, mas são diferentes na sua proposta de trabalho.

Quem são os presidenciáveis de 2018