ENTRETENIMENTO

O drama sobre serial killers 'Mindhunter', do Netflix, é baseado na vida real

O HuffPost US conversou com a “Dra. Wendy Carr” da vida real para saber o que aconteceu na realidade no FBI.

27/10/2017 22:26 -02 | Atualizado 27/10/2017 22:26 -02
Netflix
Jonathan Groff, Anna Torv e Holt McCallany, de “Mindhunter”, no Netflix.

Aviso: seguem spoilers sobre "Mindhunter".

Quatro décadas atrás, os agentes especiais do FBI John Douglas e Robert Ressler lançaram um novo e ousado projeto de pesquisa em parceria com a Dra. Ann Burgess, de Boston, especialista em vítimas de crimes.

Burgess, que hoje é professora na Escola Connell de Enfermagem do Boston College, achou que o acesso que os agentes tinham a cenas de crimes e a assassinos encarcerados representavam uma oportunidade de pesquisas "fenomenal", segundo ela disse ao HuffPost. Essa pesquisa acabaria por ajudar a definir as maneiras como policiais e civis entendem o conceito de um serial killer – e, de quebra, serviria de base para um drama de TV imperdível.

No FBI no final dos anos 1970, Douglas, Ressler e Burgess criaram um modelo para traçar o perfil psicológico de criminosos. O processo acabou sendo documentado no livro "Mindhunters", de Douglas, lançado em 1995 e que deu origem ao seriado recente da Netflix com o mesmo título. Boa parte do seriado se baseia em trechos do livro, um volume de 375 páginas cheio de detalhes fascinantes e macabros de casos da vida real: Charles Manson, o Filho de Sam, Richard Beck e Ted Bundy, entre outros.

Em Mindhunter, a figura de John Douglas é o personagem Holden Ford, representado pelo ator Jonathan Groff. Holt McCallany faz Bill Tench, o personagem que na vida real era Robert Ressler (que morreu em 2013). Espelhando as realizações do jovem agente entusiasmado e sempre pronto para agir mostrado no livro de Douglas, Holden deslancha um projeto de entrevistas a serial killers, em um esforço de entender como eles pensam. Tendo inicialmente topado com a resistência de figuras superiores da Academia do FBI, na base de Quantico, a pequena equipe acaba conseguindo verbas polpudas para seu projeto. Holden e Bill começam a colecionar entrevistas sobre os "comportamentos transviados" de assassinos condenados de todo o país, para serem analisados pela Dra. Wendy Carr – representada pela atriz Anna Tory, esta é a personagem que na vida real foi a Dra. Ann Burgess.

Na vida real, a equipe trabalhou junta por mais de uma década, segundo Burgess disse ao HuffPost, e acabou publicando em 1991 o Crime Classification Manual: A Standard System for Investigating and Classifying Violent Crimes (Manual de classificação criminal: um sistema padronizado de investigação e classificação de crimes violentos), utilizando suas descobertas sobre crimes violentos. Embora já existissem antes de sua pesquisa formas diferentes de traçar os perfis de criminosos, Douglas, Ressler e Burgess frequentemente são vistos como responsáveis por terem ajudado a definir o método distinto usado pelo FBI, baseado na ciência comportamental, para traçar esses perfis.

"Pegávamos os arquivos e começávamos a procurar um padrão", disse Burgess, explicando que detalhes distintos dos casos que eles estudavam eram arquivados em categorias como vitimologia, cenas de crimes e detalhes forenses, enquanto alguns dados eram resumidos em números. Os agentes colhiam informações dos perfis que criavam. Eles descobriram, por exemplo, que as cenas de crimes podiam ser classificadas como "organizadas" ou "desorganizadas".

"E foi exatamente isso o que esses agentes puderam fazer. Eles iam lá, analisavam a cena e criavam categorias básicas", recordou Burgess. "Tinham a equipe toda deles ali, e às vezes algumas pessoas discordavam, o que era ótimo. Porque, ao discordar, podiam dizer 'bem, eu estou enxergando tal coisa'. Ou 'não estou vendo isso. Como é que você interpreta?'."

"Havia uma troca de ideias muito fértil", ela disse, sobre características tão específicas quanto a idade do assassino.

Netflix
Jonathan Groff, representando Holden Ford, vai a um presídio para entrevistar um serial killer.

Embora houvesse pouquíssimas agentes ou pesquisadoras mulheres no FBI na época, Burgess achou que houve uma troca mútua de informações entre os membros da equipe. Apesar disso, havia conflitos ocasionais sobre exatamente como a equipe colheria seus dados. Enquanto Burgess – e Wendy Carr, a personagem que a representa em Mindhunter – preferia se ater à metodologia acordada dos questionários, os agentes do FBI preferiam seu próprio estilo, menos formal.

"Eles batiam papo com os entrevistados, em lugar do processo passo a passo", disse Burgess, acrescentando que os agentes acabavam tendo que seguir a metodologia mais estreitamente. "Quem você acha que sempre saía ganhando? A acadêmica."

Mindhunter"toma liberdades com como apresenta a vida pessoal dos personagens. A namorada de Holden pode ser baseada em Pam, a mulher com quem Douglas se casou, mas as cenas de sexo quentes do seriado não constam do livro de memórias do agente.

Mas muitos detalhes sobre o trabalho deles parecem estar alinhados com fatos da vida real descritos no livro. A agência realmente treinava agentes, mostrando a eles uma fita de vídeo de uma negociação com um sequestrador que terminou com o sequestrador se matando com um tiro diante da câmera – uma sequência perturbadora que é mostrada no primeiro episódio do seriado. Douglas e Ressler realmente criaram uma "escola na estrada", treinando policiais locais em todo o país, e alguns desses policiais locais realmente os procuravam depois das aulas com casos estranhos que eles próprios tinham encontrado, pedindo seus conselhos.

O primeiro assassino que a dupla entrevistou foi de fato Ed Kemper, e a descrição chocante de seus crimes – ele assassinou e esquartejou mulheres jovens e depois sua própria mãe – também é fiel à realidade. Mas parece que a experiência de conversar com ele foi menos chocante na realidade que na série.

"Eu não estaria sendo sincero se não admitisse que gostei de Ed", escreveu Douglas. "Ele era amigável, aberto, sensível e tinha bom senso de humor. Na medida em que é possível dizer algo assim nesse contexto, curti estar com ele. Não quero que ele fique livre nas ruas, e, em seus momentos mais lúcidos, ele tampouco quer. Mas meu sentimento pessoal em relação a ele na época, e que ainda tenho hoje, aponta para uma consideração importante a ser levada em conta por qualquer pessoa que lida com criminosos reincidentes. Muitos desses caras são charmosos, bem-falantes e simpáticos."

Outros casos individuais destacados no seriado derivam da experiência de Douglas: ele ofereceu conselhos depois de ler em seu jornal local sobre uma idosa assassinada com seus cães, entrevistou o assassino condenado Jerry Brudos, que tinha um fetiche por sapatos, e recordou um diretor de escola primária de sua cidade natal que foi demitido por fazer cócegas nos pés de crianças. A maioria dos assassinos que eles entrevistaram foram homens, e muitos deles tinham problemas com as mulheres em sua vida, algo que usavam como desculpa para cometer violência contra mulheres.

Burgess, que conversou com Douglas (hoje aposentado e com mais de 70 anos) durante a produção do seriado mas não teve envolvimento direto com a série, explicou que entende por que os espectadores podem se interessar por um programa como Mindhunters em nossa era de fascínio com crimes da vida real.

"Parte disso é o fascínio, mas parte é o medo. A criminalidade é tanta. Ninguém quer acabar como vítima", ela disse. "E isso é algo que os agentes enfatizavam. A gente aprendia alguma coisa sobre o que tinha acontecido no crime e pensava 'cara, se isso acontecesse comigo, eu não tentaria reagir assim'. Portanto, trata-se não apenas de solucionar crimes, mas de preveni-los."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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