MUNDO

Incêndios florestais geram crise no governo português

O fogo já matou mais de cem pessoas e consumiu quase 5 300 quilômetros quadrados.

05/11/2017 15:10 -02 | Atualizado 05/11/2017 15:10 -02

Portugal luta para conter uma série de incêndios florestais mortais que estão consumindo o interior do país. A última onda de incêndios deixou pelo menos 41 mortos e levou à declaração de estado de emergência em cerca de metade do país.

A devastação deste mês vem na sequência de uma onda de incêndios em junho, que deixou 64 mortos e centenas de feridos.

Portugal observou um dia de luto nacional na semana passada para lembrar as vítimas da tragédia, e a resposta do governo para o problema está gerando protestos e uma grave crise política.

Os críticos afirmam que os serviços de emergência são mal administrados, e a regulamentação frouxa das propriedades privadas estaria exacerbando o desastre. Políticos da oposição exigem que o governo do primeiro-ministro Antonio Costa responda pelas falhas no combate ao fogo e pelas vidas perdidas.

Um pequeno partido da oposição já pediu um (simbólico) voto de desconfiança no governo. A ministra do Interior, Constança Urbano de Sousa, renunciou logo em seguida, depois de meses de pressão.

Protestos silenciosos foram realizados no fim de semana passado em Lisboa e em outras cidade do país contra a resposta à tragédia, um dos maiores desastres naturais da história do país.

Pedro Nunes / Reuters
Bombeiro diante de foco de incêndio em Cabanões, 16 de outubro de 2017.

Vários fatores climáticos contribuíram para os incêndios, incluindo o verão mais seco em quase um século e temperaturas mais altas que o normal. Mas muito da insatisfação com o governo tem a ver com a demora nos esforços de combate ao fogo e na falta de controle de medidas para evitar incêndios em propriedades privadas.

A vasta maioria do interior de Portugal é dividida em terrenos pequenos e privados. Tentativas do governo de estabelecer regras mais claras esbarram no fato de que não se sabe ao certo quem são os donos de muitas terras -- muitos dos proprietários já se mudaram para as cidades.

Rafael Marchante / Reuters
Bombeiro observa destruição no vilarejo de Fato, 18 de junho de 2017.

Nos últimos anos, muitos proprietários vêm tentando maximizar seus lucros plantando eucaliptos, para fornecer para a indústria de papel e celulose. O aumento no número dessas árvores, combinado com os problemas regulatórios, tornaram o país um grande terreno inflamável.

O problema dos incêndios é tão grave que a destruição pelo fogo em Portugal responde por 60% de todas as terras queimadas em todos os países da União Européia este ano, apesar de o país ocupar apenas 2% da área total do bloco. Quase 5 300 quilômetros quadrados foram atingidos.

Rafael Marchante / Reuters
Bombeiro em moto na região da cidade de Castelo Branco, 26 de julho de 2017.

Mais de 6 000 bombeiros estão envolvidos no combate ao fogo em todo o país. A maioria deles são voluntários.

Os serviços de emergência do país estão sobrecarregados pela escala da tragédia. O primeiro-ministro Costa pediu ajuda de outros países repetidas vezes ao longo do verão. A Espanha, que também combate incêndios na região da Galícia, ajudou com bombeiros, e Marrocos enviou um avião.

Rafael Marchante / Reuters
Bombeiros trabalham perto do vilarejo de Macao, perto de Castelo Branco, 17 de agosto de 2017.

Depois de um incidente em junho, no qual 47 pessoas morreram queimadas em seus carros quando o fogo chegou a uma estrada, Costa pediu que os serviços de emergência explicassem como responderam e que problemas estavam encontrando.

Outras autoridades foram criticadas pela demora em agir. Uma investigação independente divulgada no início deste mês indicou que a evacuação foi lenta demais em muitos vilarejos. Costa culpou os incêndios de junho pela destruição de linhas de comunicação que teriam permitido alertas mais rápidos.

Há duas semanas, o premiê prometeu que Portugal revisaria sua política de combate a incêndios florestais e implementaria as recomendações da investigação independente.

Pedro Nunes / Reuters
Carro destruído pelas chamas em Vale do Couco, 16 de outubro de 2017.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Incêndios Florestais em Portugal