COMPORTAMENTO

O que acontece em um set 100% feminino?

União, crescimento profissional e gentileza

26/10/2017 10:21 -02 | Atualizado 27/10/2017 16:08 -02
Divulgação / Zeppelin
Toda a equipe de produção da websérie de Avon é composta por mulheres

A Escadaria do Patapio, na Vila Madalena, teve os seus degraus coloridos tomados por uma equipe de peso no último mês. Eram pessoas unidas em um propósito: produzir uma websérie que explora a beleza e suas vertentes no Brasil para a marca de cosméticos Avon.

Em um mundo ideal, não haveria a necessidade de destacar que aquela era uma equipe 100% feminina – da técnica de som à diretora, da motorista à eletricista, eram todas profissionais mulheres. Mas, quando a base é uma sociedade machista, em que o espaço para essas profissionais ainda é escasso, reforçar a relevância de um projeto inteiro executado por mulheres é, sim, importante. Para muitas delas, aliás, foi um primeiro contato com oportunidades que elas poderiam não ter em um projeto liderado por homens, e a diferença não passou despercebida.

Essa equipe de produção precisou ser montada do zero. Quando o cliente, também uma mulher, trouxe a ideia de que queria apenas mulheres nos bastidores das gravações, a Zeppelin Filmes adaptou a sua própria equipe e deu carta branca para a diretora, Luiza de Andrade, escolher as pessoas com quem trabalharia. Uma das histórias de destaque dessa construção é a de Brenda Silva Ramos, que cuida do atendimento na produtora.

Além da diretora, ela é a única mulher na sede da empresa em São Paulo e antes trabalhava como assistente de atendimento. Como uma forma de valorizar o talento interno, sem a necessidade de contratar alguém de fora para o papel, a empresa decidiu dar a oportunidade para Brenda aumentar o seu leque de responsabilidades e tocar o projeto na sua área de atuação.

"Foi a minha primeira oportunidade de fazer um filme por causa disso", começou ela. "E tem sido maravilhoso! É o meu primeiro set, tem muita coisa nova, eu ainda estou entendendo como posso me portar. Eu acho que encontrei um ponto legal dentro desse universo cinematográfico e publicitário. Está sendo muito interessante".

A visão da direção

Luiza percebeu a força de estar envolvida em um projeto tão diferente, do ponto de vista da execução. Para ela, foi interessante reparar que algumas situações do dia a dia, como gravar na rua e ouvir um 'fiu fiu' ou sair para almoçar e deixar parte do equipamento na locação, mudam a sua sensação se ela está ou não diante de uma equipe que é, no mínimo, mista.

Ela explicou que ficou mais atenta para os momentos em que não sabia dizer se ela e sua equipe estavam seguras por serem mulheres e, principalmente, por estarem 'sozinhas' – ou seja, sem a presença de um homem como parte da produção. Essa postura é um reflexo direto da cultura machista e do estupro, que determina a vida em sociedade: uma mulher precisa pensar duas vezes (ou três) antes de sair sozinha na rua, de pegar o ônibus à noite ou sobre a roupa vai usar naquele dia... Tudo porque existe a crença de que elas são criadas especificamente para servir aos desejos dos homens, e eles podem tomá-las quando bem entenderem, tirando o seu direito sobre o próprio corpo e afetando a maneira como elas se comportam no dia a dia.

Ao mesmo tempo que veio como um choque, essa realização não ofuscou todos os ensinamentos que essa experiência proporcionou para Luiza, como profissional e como mulher.

"Eu senti o set mais leve, mais gentil, mais delicado. Quando tem homens, é mais grosseirão, existe uma coisa de ter que se provar. Pelo menos nesse set, eu senti tudo muito mais unido também, por saber que somos só mulheres e que queremos mostrar que a gente consegue", disse. "Tem esse lugar da união e da gente se ajudar muito mais. É mais colaborativo".

A diretora, inclusive, percebeu as próprias limitações e dificuldades em abrir oportunidades para outras mulheres – não pela falta de competência dessas profissionais, mas pelo hábito intrínseco ao mercado de dar mais destaque para os homens. O resultado de toda essa construção em conjunto foi perceber como é essencial esse apoio mútuo para a geração de ainda mais oportunidades e espaço para quem precisa.

"Eu vi como isso é importante, a gente se unir e perceber, eu como diretora, onde eu estou e como eu também posso ajudar e dar espaço para as mulheres. O que isso gerou, principalmente, foram oportunidades – e isso é ótimo, a gente conseguir entrar mais no mercado, crescer e se tornar referência. É um processo".

Um set mais leve

"Uma das principais coisas que eu notei, acompanhando esse shooting e outros em que a equipe são homens em maioria, é que eu ouvi muito mais 'por favor' e 'obrigado'. O ambiente é mais leve e muito mais respeitoso", disse Joyce Prestes, líder de contas na consultoria de comunicação Think Eva, um núcleo de inteligência do feminino.

Joyce não foi a única que percebeu esse nível mais alto de gentileza no set de filmagens, foram muitas as que comentaram a mesma coisa nos bastidores, e era possível perceber também uma tranquilidade maior enquanto a gravação acontecia – apesar de correrem contra o relógio para terminarem a captação de imagens a tempo, o clima era tranquilo e era possível perceber que cada uma das que estavam presentes ali se sentiam mais relaxas com o ambiente puramente feminino.

Stella Yeshua, do coletivo Estaremos Lá, era uma das entrevistadas do dia da websérie e sentiu o impacto ao ver uma equipe sem homens. Ela, inclusive, chegou a pensar que parte do time estava atrasada, até entender que todos já estavam ali - e o alívio foi imediato. "Você se sente livre", comentou.

A também rapper entende o que é ter o seu corpo objetificado todos os dias, e percebeu imediatamente o efeito de um local onde a sororidade é protagonista. Isso porque ela se viu em uma situação na qual normalmente seria um alvo de assédio, mas, ao contrário, encontrou suporte.

"Eu estava no carro e o meu vestido subiu, e eu estava só de calcinha. Eu pensei depois: 'Ainda bem que só tinha mulher aqui'. Imagina se tivesse um homem? O restante da gravação não seria tão confortável para mim. Eu me senti no meio de irmãs... Rolou uma sororidade desde o princípio, desde a hora em que eu desci do carro, a galera me alertando que eu estava quase nua (risos). E eu fiquei feliz!".