MULHERES

O boicote a Terry Richardson e o assédio que a indústria da moda não vai varrer para debaixo do tapete

Marcas e publicações internacionais anunciaram que não vão mais trabalhar com o fotógrafo.

26/10/2017 13:14 -02 | Atualizado 26/10/2017 13:14 -02
Danny Moloshok / Reuters
"Terry está desapontado por saber sobre este e-mail especialmente porque ele já abordou essas velhas histórias", disse um representante da Richardson ao HuffPost US.

Terry Richardson é um nome conhecido nos bastidores da moda por seu estilo provocante.

O fotógrafo é responsável por grandes ensaios com publicações globais, como Vogue, Vanity Fair e GQ, produtos da empresa Condé Nast. Porém, essas mesmas marcas estão banindo o profissional de suas produções. O motivo? Richardson é acusado de uma série de assédios sexuais, comportamento que já dura por pelo menos dezesseis anos, mas que veio a público com força nos últimos dias.

Na última segunda-feira (23), o vice-presidente da Condé Nast, James Woolhouse, afirmou em um e-mail que "qualquer produção que havia sido negociada ou qualquer ensaio que já tenha sido feito, mas ainda não tenha sido publicado, estão suspensos e devem ser substituídos por outro material."

A mensagem de Woolhouse foi divulgada pelo The Telegraph e confirmada pelo HuffPost US. No dia seguinte, a equipe de Terry Richardson respondeu a mensagem.

"Terry está desapontado por saber sobre este e-mail especialmente porque ele já abordou essas velhas histórias", disse um representante da Richardson ao HuffPost US. "Ele é um artista que foi conhecido por seu trabalho sexualmente explícito, tantas de suas interações profissionais com assuntos eram de natureza sexual e explícita, mas todos os colaboradores de seu trabalho participaram consensualmente dos ensaios."

Após o posicionamento da Condé Nast, grandes marcas como Bulgari e Valentino cortaram o contrato anual com o fotógrafo.

Em uma nota oficial enviada ao HuffPost US, o diretor da Valentino afirma que a última campanha fotografada por Richardson aconteceu em julho deste ano, e que não há previsões para um novo contrato.

A Diesel também anunciou em uma declaração que estava encerrando sua relação com Richardson.

"Posso confirmar que não estamos colaborando com Terry Richardson para a campanha Diesel, e também que não temos planos de trabalhar com ele", disse um porta-voz ao The Daily Beast.

Richardson ainda não se pronunciou sobre a recusa das marcas de trabalharem com ele.

As denúncias de assédio

Mike Blake / Reuters

O movimento contra Richardson surge em um contexto após sérias denúncias de assédio em Hollywood contra o magnata do cinema Harvey Weinstein. Após uma campanha de diversas atrizes que resolveram quebrar o silêncio, Weinstein foi afastado da sua própria empresa e da Academia do Oscar.

No dia 12 de outubro, a modelo Cameron Russell usou o seu Instagram para incentivar que mulheres falassem sobre o assédio que também é uma realidade no mundo da moda.

No seu perfil, ela já publicou diversos relatos anônimos por meio da hashtag #MyJobShouldNotIncludeAbuse (Meu Trabalho Não Deveria Incluir Abuso, em tradução livre).

"Uma modelo corajosa (e amiga) me contou sua história hoje. Ela pediu para permanecer anônima, mas pediu que eu compartilhasse suas palavras aqui porque o fotógrafo ainda trabalha na indústria. Ela quer incentivar outras mulheres a falarem. Precisamos de um movimento para começar a romper o silêncio. Não estamos falando de um, cinco ou mesmo vinte homens. Estamos falando de uma cultura de exploração que deve acabar", escreveu Russell.

TRIGGER WARNING ⚠️ A brave model (and friend) reached out to me with her story today. She has asked to remain anonymous but asked that I share her words here because the photographer still works in the industry. She wants to encourage other women to speak up. We need a way to begin breaking the silence while remaining protected. We are not talking about one, five, or even twenty men. We are talking about a culture of exploitation and it must stop. IF YOU WOULD LIKE TO SHARE YOUR STORY ANONYMOUSLY, DIRECT MESSAGE ME and I will post your words. If you would like to share publicly use the hashtag #MyJobShouldNotIncludeAbuse so the industry can see the size and scope of this problem. Hearing about #harveyweinstein this week has sparked conversations about how widespread and how familiar his behavior is. We talked about how hard it is to share stories of assault. When they are the norm, calling them out can feel disruptive and unprofessional. On many occasions I've been called a feminist for reporting unwanted groping, spanking, pinching, pressure for dates, phone calls and texts of a sexual nature, lack of appropriate changing areas, etc. And because the response has always been "are you surprised?" or "that's part of the job" I tolerated them. When the offenses were bigger, calling them out is terrifying, and demands a level of exposure and backlash to what is already painful and sometimes shameful. #MyJobShouldNotIncludeAbuse

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O nova-iorquino Terry Richardson trabalha há 20 anos neste mesmo mundo da moda descrito por Russel. Ele é autor de campanhas publicitárias para grandes marcas como Yves Saint Laurent, Marc Jacobs e Tom Ford. Richardson também já produziu clipes, entre eles o de Miley Cyrus, Wrecking Ball e também gravou com Anitta recentemente no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.

@anitta #anitta #anittanovidigal #ezatamentchy o poder da fita isolante 👏👏👏

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Durante anos, o fotógrafo foi acusado de assédio sexual. Entre os comportamentos descritos pelas vítimas, era comum ele se apresentar nu em frente dos modelos, pedindo-lhes que tocassem seus órgãos genitais e o masturbasse.

Ainda, ele é acusado de trocar sexo por trabalhos em revistas como a Vogue, exigindo que as modelos lhe satisfizessem em troca de serem escolhidas para estrelar campanhas. Richardson, contudo, negou as acusações.

Modelos como a Coca Rocha já tinham afirmado que não trabalhariam com Richardson anos atrás após uma "experiência traumática" de ensaio, mas ele continuou a ser contrato por marcas e a realizar grandes projetos. Por exemplo, só no último ano, ele filmou Kate Hudson para Harper's Bazaar, fotografou Kylie Jenner e recentemente filmou Emilia Clarke para a capa de agosto da Vogue China.

Porém, desde o posicionamento das marcas internacionais, a carreira de Richardson na moda parece estar com os dias contados.

O caso de assédio de Zé Mayer