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Como a desproporção entre os sexos está complicando a tarefa do presidente Xi

China corre o risco de estagnação econômica se sua economia não for reestruturada.

06/11/2017 19:58 -02 | Atualizado 06/11/2017 19:58 -02
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19º congresso do Partido Comunista Chinês.

Por David Skidmore

Por mais estranho que pareça, a política econômica da China é refém de uma população com uma grande desproporção entre os sexos.

O excesso de homens jovens e solteiros representa um dilema complicado para o presidente do país, Xi Jinping, e para os outros líderes chineses.

Depois de anos de pesados gastos e investimentos para acelerar o crescimento e criar empregos, a China corre o risco de estagnação econômica se sua economia não for reestruturada. Mas existe o risco de que as medidas de incentivo gerem tensões entre os milhões de homens não-casados – conhecidos como "galhos nus" --, que serão demitidos de siderúrgicas, minas de carvão e montadoras de veículos.

Até agora, Xi tem temperado as reformas e mantido abertas as torneiras de dinheiro, com o objetivo de evitar instabilidade política. Mas, com o crescente custo do desequilíbrio econômico interno e a pressão internacional para que a capacidade excessiva de produção sofra cortes, Xi terá de decidir o que fazer a respeito dos "galhos nus" que estão em seu caminho. Não será uma tarefa fácil, como sugere minha pesquisa na intersecção entre a economia e a política.

AP Photo/Andy Wong
Trabalhadores almoçam em canteiro de obras no Distrito Central de Negócios de Pequim, diante de um mural que retrata o skyline da capital chinesa.

A gastança chinesa

O dilema é resultado de uma década de políticas econômicas, desde a resposta dos líderes chineses à crise financeira mundial de 2008: investimentos maciços em infra-estrutura em indústrias pesadas para sustentar o crescimento econômico e evitar tensões políticas.

A proporção da economia chinesa dedicada a investimentos subiu de um terço para cerca da metade – u, nível sem precedentes em economias modernas (como comparação, os Estados Unidos investiram cerca de 20% em 2015). Desde 2008, a produção de aço mais que dobrou no país, atingindo quase metade do total mundial.

O investimento foi notavelmente bem-sucedido, pelo menos no curto prazo, ajudando a China a evitar a desaceleração econômica observada no Ocidente. A gastança chinesa também criou a maior rede mundial de trens bala e fez do país o maior produtor global de painéis solares.

Mas essa política também causou uma enorme ressaca, que ameaça se tornar uma "crise financeira e econômica", a menos que haja reformas, segundo um grupo de economistas da Universidade de Oxford. O relatório sugere que a China se concentre em menos projetos de infra-estrutura, mas de maior qualidade, e ao mesmo tempo acelere a demanda dos consumidores.

O país, entretanto, continua dependendo de investimentos em infra-estrutura para gerar crescimento. Além do aço, a economia também sofre com capacidade excessiva em carros, cimento, vidros, células fotovoltaicas, alumínio e carvão. Esforços recentes para o fechamento de fábricas antigas e ineficientes surtiram pouco efeito até aqui.

Isso também tem consequências internacionais, porque todo esse aço, vidro e alumínio em excesso tem de ir para algum lugar – e acaba indo parar em outros países, prejudicando mercados domésticos. As exportações de aço para os Estados Unidos, por exemplo, aumentaram 22% entre agosto do ano passado e julho deste ano, precipitando ameaças de retaliação por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Por que o governo chinês estendeu por tanto tempo esses maciços? Por que têm sido tão relutantes em fechar fábricas produzindo aço, painéis solares ou vidro em excesso ou em parar o desenvolvimento de "cidades fantasmas"?

Embora haja vários fatores a considerar, um deles merece mais atenção do que tem recebido até agora: os líderes chineses temem as consequências do alto desemprego entre os "galhos nus", termo usado no país para designar homens jovens, de baixo status. Eles tipicamente têm dificuldade de encontrar esposas e representam o fim da linha na árvore familiar.

Reuters/David Gray
O distrito Kangbashi, na cidade de Ordos, uma das 'cidades fantasmas' chinesas.

O crescimento dos 'galhos nus'

Os galhos nus são resultado de uma das maiores desproporções do mundo entre homens e mulheres.

A China tem 106,3 homens para cada 100 mulheres. No mundo inteiro, a proporção é de 101,8 homens para cada 100 mulheres. Nos próximos anos, o desequilíbrio na força de trabalho só tende a piorar, porque há 117 meninos com menos de 15 anos para cada 100 meninas. Isso é resultado da discriminação extrema em favor dos homens, uma tendência exacerbada pela política de um único filho, em vigor entre 1979 e 2015. Mães grávidas de meninas muitas vezes abortam.

A política gerou um excedente de homens "galhos nus". Eles tipicamente têm baixo status, pois homens de melhor educação e renda mais alta têm mais chances de encontrar esposas. Sem capacitação e sem os fortes laços comunitários criados pelas famílias, esses jovens solteiros respondem por grande parte da população que migra internamente, saindo do campo em direção às cidades em busca de trabalho.

As pesquisadoras Valerie Hudson e Andrea den Boer afirmam que sociedades com grandes contingentes de "galhos nus" correm maior risco de tensões sociais e de incidência de criminalidade. Isso é especialmente verdadeiro se não houver oferta de empregos adequados para esses homens sozinhos. Outras tendências preocupantes acompanham a desproporção entre os sexos, incluindo desigualdade de renda e o grande número de idosos que têm de ser sustentados por cada pessoa em idade economicamente ativa.

AP Photo/Eugene Hoshiko
Trabalhador de siderúrgica em vilarejo de Jingyin, na Província de Jiangsu.

Crescente risco de tensão

É esse medo do desemprego e das consequentes tensões sociais que fazem o país hesitar em fazer reformas econômicas.

Alguns economistas acreditam que a taxa oficial de desemprego do país – 4% -- seja subestimada. O número real estaria perto do dobro. O índice é politicamente sensível porque desempregados têm maior probabilidade de se envolver em protestos e outras atividades contra o regime.

E os homens são a maioria dos trabalhadores das indústrias potencialmente mais atingidas por reformas em setores como o da indústria pesada. Por outro lado, mulheres respondem por uma parte desproporcionalmente maior no setor de serviços, que tem de crescer para sustentar o crescimento da economia, caso haja desaceleração nos gastos com infra-estrutura e na indústria.

O modelo de crescimento do país exacerba o problema do crescimento, porque infra-estrutura, construção e indústria pesada requerem capital relativamente intensivo, ou seja, um determinado nível de investimentos gera menos empregos que o mesmo valor investido em serviços (um setor que exige mais mão-de-obra). Em outras palavras, mais ênfase em serviços criaria postos de trabalho e reduziria níveis perigosos de desemprego.

Se a China mudar para um crescimento baseado em setores, o risco de tensões vai crescer, pois as mulheres tendem a obter mais empregos à custa dos homens, especialmente os "galhos nus". Portanto, mesmo que a China consiga "aterrissar suavemente" e crie mais empregos no geral, as tensões políticas e sociais também podem aumentar, porque o número de "galhos nus" seria proporcionalmente maior.

Isso explica por que as autoridades chinesas têm direcionado enormes investimentos para setores dominados por homens desde a crise financeira de uma década atrás. E por que, em anos recentes, têm demorado tanto para implementar as reformas econômicas que o próprio governo reconhece como necessárias para manter a boa saúde da economia chinesa.

Da perspectiva de Pequim, melhor fazer alguns investimentos ineficientes que correr o risco de jogar milhões de desempregados nas ruas das cidades do país.

AP Photo/Mark Schiefelbein
O presidente da China, Xi Jinping, prometeu as tradicionais reformas econômicas em seu discurso no congresso do PCC.

Sem boas opções

No discurso de abertura do 19º congresso do Partido Comunista Chinês, Xi fez as promessas de sempre sobre aprofundamento das reformas econômicas, redução da capacidade industrial excedente e mudança de uma economia de investimentos para uma economia de serviços. Como essas promessas não são novas, há motivos para ceticismo.

Mas, mesmo que as reformas sejam bem-sucedidas, vai haver um grande número de "galhos nus" sem emprego. É por isso que a reestruturação econômica tem de ser acompanhada por benefícios trabalhistas generosos, programas de capacitação e apoio para os trabalhadores que têm de se mudar para encontrar emprego. A composição de gênero do setor de serviços também tem de mudar para absorver os homens desempregados.

Em resumo, Xi pode adiar as reformas, mantendo os "galhos nus" trabalhando – mas com o país correndo o risco de crise econômica e de retaliações comerciais por parte de parceiros como os Estados Unidos. Ou ele pode cortar investimentos e fechar milhares de fábricas, criando um risco significativo de tensões domésticas – que teriam de ser contidas com um misto de rede de segurança social reforçada e repressão política.

Qualquer que seja o rumo escolhido, Xi vai encontrar "galhos nus" pelo caminho.

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