MUNDO

As vítimas desta doença deformadora sentem muita dor e vergonha

Quase metade da população do Congo corre o risco de contrair elefantíase, que pode deixar partes do corpo grotescamente inchadas.

23/10/2017 08:30 -02

Este artigo faz parte da campanha Project Zero, do HuffPost, uma série publicada ao longo de um ano sobre doenças tropicais que recebem pouca atenção e os esforços para combatê-las.

UMA, República Democrática do Congo – Bafimbo Baudoin costumava andar bem vestido e curtir sua aparência, passeando por seu povoado rural de terno, óculos de sol e chapéu colorido.

Tudo isso mudou há três anos, porém, quando ele começou a ter dificuldade para esconder o edema em sua virilha, mesmo deixando seu paletó aberto.

"Às vezes mal consigo andar direito. O inchaço dificulta meus movimentos, e sinto dor", explicou Baudoin, 62 anos, sentado diante de um ambulatório médico nas proximidades de sua casa.

Ele ainda consegue sobreviver com sua plantação de mandioca, mas o inchaço em seu escroto provocado por uma doença chamada filaríase linfática dificulta seu trabalho e faz com que ele evite ser visto em público.

Neil Brandvold/DNDi
Bafimbo Baudoin, que sofre de elefantíase, ainda gosta de se vestir bem.

Também conhecido como elefantíase, o problema de saúde de Baudoin é provocado por vermes parasitários (filárias) transmitidos a humanos por picadas repetidas de mosquito. Os parasitas se alojam nos vasos linfáticos, onde se multiplicam ao longo de anos. O bloqueio gerado no sistema linfático pode levar à formação de edemas extremos em várias partes do corpo.

Mais de 1 bilhão de pessoas em 54 países, especialmente em regiões tropicais, correm o risco de contrair elefantíase. Aproximadamente 120 milhões de pessoas tinham a doença em 2000, segundo os dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS).

A maioria das pessoas não apresenta sintomas externos da doença, mas 15 milhões de pessoas no mundo apresentam os membros inchados que são uma característica da doença. O inchaço pode chegar a proporções gigantescas, e a pele pode endurecer, ganhando a consistência de couro, e ficar enrugada – como o couro de um elefante.

Baudoin desenvolveu um sintoma mais comum: uma hidrocele testicular, ou seja, acúmulo de fluido em volta dos testículos. A hidrocele testicular atinge 25 milhões de homens, mas recebe menos atenção.

Sem os cuidados médicos adequados, a elefantíase pode incapacitar suas vítimas, impedi-las de ganhar a vida e levá-las a se isolarem de familiares e amigos. Já houve casos extremos em que homens tiveram que descansar seus testículos inchados em um carrinho para conseguirem caminhar.

Maggie Steber/The Washington Post via Getty Images
Três mulheres no Haiti mostram suas pernas inchadas, um sintoma de elefantíase.

Avanços importantes vêm sendo feitas nas últimas duas décadas no sentido de identificar e controlar a elefantíase em vários países pelo mundo afora. Mas nas regiões tropicais da África, especialmente na República Democrática do Congo, o mapeamento e acompanhamento da doença ainda é insuficiente. País extenso, pobre e devastado por décadas de violência e instabilidade política, o Congo encerra inúmeros obstáculos logísticos para os profissionais de saúde e os pacientes.

Acredita-se que quase 40 milhões de congoleses – um pouco menos que a metade da população do país – corram o risco de contrair elefantíase. Apenas 30% deles foram tratados com medicamentos preventivos em 2015. Não há estatísticas confiáveis sobre o número de pessoas infeccionadas de fato.

"Acho que desconhecemos as dimensões reais do problema", disse o Dr. Belén Pedrique, especialista em medicina tropical da ONG Drugs for Neglected Diseases Initiative (Iniciativa de Medicamentos para Doenças Esquecidas).

Uma moradora diante de um ambulatório pequeno num povoado.

As pessoas que correm risco maior de desenvolver elefantíase são aquelas cuja vida já é difícil. Elas lutam para sobreviver em locais remotos, com perspectivas de trabalho limitadas. Não têm acesso a saúde e educação adequadas. O vilarejo de Baudoin, Uma, fica numa região de floresta no norte do país, a cinco horas de carro da cidade mais próxima.

Mesmo que as pessoas no Congo tivessem acesso aos medicamentos disponíveis e participassem de esforços de prevenção, essas medidas visam impedir que a doença atinja outras pessoas, e não curar os pacientes que já sofrem dela. São necessários tratamentos novos e melhores para combater os vermes parasíticos que crescem dentro do corpo e para reduzir o edema em diferentes partes do corpo. Hoje não existe nenhuma solução eficaz para reverter a desfiguração de pernas e braços decorrente da elefantíase.

Baudoin já tomou vermífugos que não vão destruir os parasitas adultos presentes em seu sistema linfático, mas vão matar a geração seguinte de parasitas em seu sangue, de modo que os mosquitos que o picarem não transmitam a doença a outras pessoas. Os medicamentos tampouco vão curar sua hidrocele testicular, que, segundo ele, acabou com sua vida social e prejudicou suas relações com suas duas esposas.

"Não saio mais de casa", ele disse, apontando para o inchaço do tamanho de um melão ao lado de sua coxa direita. "Só vim aqui hoje porque sabia que haveria médicos."

Existe uma opção: uma hidrocele pode ser removida cirurgicamente. Infelizmente, Baudoin não dispõe dos US$100 necessários para pagar pelo procedimento. Ele mal consegue ganhar ou cultivar o suficiente para alimentar sua família.

Neil Brandvold/DNDi
Dois pacientes com elefantíase aguardam consulta com uma equipe médica itinerante em Uma.

É difícil contabilizar as vítimas da elefantíase, em parte porque elas podem ser tão difíceis de encontrar. Algumas não conseguem sair de casa devido à gravidade do inchaço em seus membros ou genitália; outros se escondem por vergonha e devido à crença amplamente difundida de que a elefantíase é provocada pelo azar.

"O problema é o estigma e a incapacidade das pessoas que não conseguem se locomover", disse o Dr. Pedrique. "Elas ficam escondidas em casa. A gente não as vê na rua."

Essa é uma das razões por que, no Congo e em outras regiões, os voluntários locais são cruciais para o esforço de combate a essa doença.

A OMS lançou em 2000 o Programa Global para a Eliminação da Filaríase Linfática, com a colaboração de órgãos de saúde pública, empresas farmacêuticas e doadores filantrópicos. Populações vulneráveis recebem medicamentos vermífugos gratuitos ou de baixo custo pelo menos uma vez por ano por um período de vários anos. No Congo, os comprimidos são distribuídos gratuitamente à população em áreas onde a doença é endêmica. Os voluntários comunitários vão de porta em porta em áreas remotas.

Outra parte da estratégia consiste em evitar que os mosquitos contaminados piquem as pessoas. Mosquiteiros tratados com inseticida, que são distribuídos com frequência para proteger as pessoas contra a malária, têm se mostrado úteis também para prevenir a transmissão da elefantíase. Segundo uma pesquisa recente, cerca de 70% das casas na República Democrática do Congo hoje possuem um desses mosquiteiros.

Os métodos de prevenção e tratamento atuais levam anos para produzir resultados, mas existem histórias de sucesso. Em julho a ilha de Tonga, no Oceano Pacífico, tornou-se o país mais recente a demonstrar que é possível eliminar a elefantíase.

Mas no Congo e em nove outros países da África central e ocidental há um desafio adicional a ser transposto. Uma infecção filariótica diferente chamada loaíase, ou "verme do olho africano", é endêmica em parte desses países. Um dos principais medicamentos usados para combater a elefantíase pode, em alguns casos, provocar danos cerebrais, coma ou morte em indivíduos infectados com o verme de olho africano. Esse fato leva algumas pessoas a ter medo de tomar a medicação.

"O regime medicamentoso na África é complicado porque é preciso averiguar a presença de todas as co-infecções possíveis", disse Pedrique.

Alguns avanços vêm sendo feitos em outras partes da África subsaariana. Em Abril, o Togo tornou-se o primeiro país da região a eliminar a elefantíase. Mas parece pouco provável que o Congo e outros países consigam alcançar a meta da OMS de eliminar a doença, como problema de saúde pública, até 2020.

Neil Brandvold/DNDi
Um médico examina Baudoin para verificar se há outras infecções que possam impedi-lo de usar um fármaco empregado para combater a elefantíase.

É possível que nos próximos anos, novos medicamentos ou novas combinações de fármacos já existentes se mostrem mais eficazes no combate à elefantíase. Por enquanto, os especialistas pedem verbas internacionais adicionisl para aumentar a distribuição em massa de certos medicamentos no Congo e outros países, dobrando sua frequência de uma para duas vezes por ano.

Isso não acabará com o sofrimento de Bafimbo Baudoin. Sua única esperança de voltar a viver uma vida normal seria uma cirurgia gratuita de seu escroto inchado.

"Meu desejo é ter o dinheiro para procurar um médico para resolver esse problema", ele disse. "Sinto tanta dor, tanta vergonha."

Neil Brandvold/DNDi
Moradores de Uma saem de um centro comunitário depois de uma reunião com médicos itinerantes.

A Iniciativa Medicamentos para Doenças Esquecidas recebe doações da Fundação Bill & Melinda Gates, que também financia a série Project Zero, do HuffPost. Todos os conteúdos desta série são editorialmente independentes, sem influência ou contribuições da fundação.

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*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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