VOZES

Como um crescente movimento cristão quer mudar os Estados Unidos

A INC é o grupo cristão que cresce mais rápido nos Estados Unidos e possivelmente no mundo todo.

22/10/2017 08:00 -02
Adam Rozanas, CC BY-NC-ND
"A INC está mudando de forma significativa o cenário religioso dos Estados Unidos – e sua política."

Por Brad Christerson e Richard Flory

Entre os dias 6 e 9 de outubro, o National Mall, em Washington D.C., estava repleto de tendas, músicas religiosas e orações para o evento "Awaken the Dawn". O propósito do evento, segundo o organizador Lou Engle, era "reunir-se em torno de Jesus", rezar pelo país e por seu governo. O evento foi encerrado com um dia de orações de mulheres cristãs.

Não foi o primeiro evento do tipo. Em 9 de abril do ano passado, no Los Angeles Memorial Coliseum, dezenas de milhares de pessoas se reuniram para rezar pela transformação sobrenatural dos Estados Unidos.

Cinco anos antes, em 2011, mais de 30 000 pessoas ovacionaram o então candidato à Presidência Rick Perry, na época governador do Texas – e atual secretário da Energia no governo Trump – quando ele subiu ao palco no evento "The Response: A Call to Prayer for a Nation in Crisis" (a resposta: um chamado à oração para um país em crise, em tradução livre), realizado no Reliant Stadium, em Houston.

AP Photo/Pat Sullivan
O ex-governador do Texas, Rick Perry, no telão do evento The Response, um dia de orações e jejum, em 6 de agosto de 2011, no Reliant Stadium, em Houston.

Os três eventos e seus organizadores são atores centrais de um movimento que chamamos de "Rede Carismática Independente" da Cristandade, ou INC, na sigla em inglês. O termo aparece em nosso livro recém-lançado "The Rise of Network Christianity" (a ascensão da cristandade em rede, em tradução livre).

Com base em nossa pesquisa, acreditamos que a INC está mudando de forma significativa o cenário religioso dos Estados Unidos – e sua política.

Eis o que descobrimos sobre a INC

A cristandade INC é liderada por uma rede de empreendedores religiosos independentes, muitas vezes conhecidos como "apóstolos". Eles têm laços próximos com políticos conservadores, como Sarah Palin, Newt Gingrich, Bobby Jindal, Rick Perry e, mais recentemente, o presidente Donald Trump.

Os cristãos carismáticos enfatizam milagres sobrenaturais e intervenções divinas. Mas a INC é diferente de outros movimentos carismáticos – e de outras denominações cristãs em geral – das seguintes maneiras:

  • Não se concentra em formar congregações, mas sim em espalhar crenças e práticas por meio da mídia, de conferências e escolas de ministério;
  • Não se dedica a proselitizar os não-fieis, mas sim a transformar a sociedade colocando cristãos em posições de poder em todos os setores da sociedade;
  • É organizada como uma rede de líderes independentes, não replicando a estrutura de denominações formalmente organizadas.

A INC é o grupo cristão que cresce mais rápido nos Estados Unidos e possivelmente no mundo todo. Entre 1970 e 2010, o número de pessoas que frequentavam igrejas protestantes diminuiu em média 0,05% ao ano, o que é uma retração marcante quando se considera que a população americana cresce em média 1% ao ano durante esse período. Ao mesmo tempo, congregações neocarismáticas independentes (categoria da qual faz parte a INC) cresceu em média 3,24% ao ano.

Seu impacto, entretanto, é muito maior do que as medidas de presença de fieis nas igrejas. Isso se dá porque a INC não está preocupada em formar congregações, mas sim em espalhar crenças e práticas.

Kevin Shorter, CC BY
Bill Johnson, pastor da Bethel Church, em Redding, na Califórnia.

A influência da INC pode ser vista nos milhões de visitas a seus muitos sites na internet, nas multidões que participam de eventos em estádios e conferências e nos milhões de dólares em vendas de produtos de mídia. Em entrevistas com seus líderes, descobrimos que a Bethel Church, baseada na cidade de Redding, na Califórnia, teve receitas de 8,4 milhões de dólares com a venda de música, livros, DVDs e conteúdos online, além de 7 milhões de dólares em cursos da Bethel School of Supernatural Ministry.

O apelo da INC

Como parte de nossa pesquisa, fizemos entrevistas aprofundadas com líderes, funcionários e integrantes e ex-integrantes de igrejas INC. Também realizamos entrevistas suplementares com líderes cristãos e acadêmicos com conhecimento do cenário religioso e que participaram de conferências, cultos, aulas e sessões de cura e de exorcismo. Ao todo, foram 41 entrevistas aprofundadas.

Nossa conclusão primária é que o crescimento desses grupos resulta em grande parte de sua estrutura de governança em rede. Quando comparados com os sistemas de supervisão e controle das congregações e denominações formais, essas estruturas estão mais abertas a experimentações. Isso inclui experiências "extremas" do sobrenatural, práticas e crenças heterodoxas e técnicas de financiamento e marketing que se aproveitam da força da internet.

Em nossas pesquisas, testemunhamos o apelo da INC, particularmente junto aos jovens. Vimos a emoção de sessões de cura improvisadas realizadas em prontos-socorros de grandes hospitais, aulas intrigantes dedicadas a técnicas para a expulsão de espíritos demoníacos e a aventura de grupos de jovens em espaços públicos buscando orientação de Deus a respeito de quem curar ou a quem transmitir mensagens divinas específicas.

'Sete montanhas de cultura'

Além dos números de crescimento, a importância da INC está no fato de que seus defensores têm uma visão fundamentalmente diferente da relação entre a fé cristã e a sociedade em comparação com a maioria dos grupos cristão ao longo da história americana.

A maior parte dos grupos cristãos nos Estados Unidos veem o papel da igreja como uma conexão entre os indivíduos e Deus, por meio da graça salvadora de Jesus. Eles também acreditam na formação de congregações que oferecem sentido para a vida e sensação de participação, por meio dos cultos, além de atender às necessidades das comunidades locais. Esses grupos tradicionais acreditam que o mundo pode ser melhorado, mas que ele só atingirá o plano original de Deus quando Jesus voltar para governar a Terra.

Eden Frangipane, CC BY
O líder carismático Lou Engle.

As crenças da INC são diferentes – seus líderes não estão satisfeitos em simplesmente conectar indivíduos com Deus e crescer suas congregações. A maioria dos grupos que estudamos querem trazer o céu ou a sociedade perfeita imaginada por Deus colocando "pessoas que pensam no Reino" em posições de poder em todos os segmentos da sociedade.

Os líderes da INC chamam esses setores de "sete montanhas da cultura". Eles incluem negócios, governo, mídia, artes e entretenimento, educação, família e religião. Nessa "cristandade de cima para baixo", a sociedade será completamente transformada se cristãos estiverem no topo das sete "montanhas".

Um líder da INC resumiu a ideia da seguinte maneira:

"O objetivo desse novo movimento é transformar unidades sociais como cidades, grupos étnicos, países, não os indivíduos... se os cristãos permearem cada montanha e chegarem ao topo das sete montanhas... a sociedade teria moralidade bíblica, as pessoas viveriam em harmonia, haveria paz, não guerra, e não haveria pobreza."

Ouvimos essa ideia repetidas vezes na maioria de nossas entrevistas, nos eventos de que participamos e nos materiais da INC.

Ainda mais significativamente, desde a eleição presidencial do ano passado, líderes da INC fizeram declarações públicas afirmando que a presidência de Donald Trump é parte do plano de Deus de "trazer o céu para a Terra", colocando fieis em posições de liderança, tais como Rick Perry; Betsy DeVos, ministra da educação; e Ben Carlson, ministro da Habitação e Desenvolvimento Urbano.

Mudando o cenário

A INC é um movimento a observar, porque acreditamos que ela vai continuar conquistando adeptos em grandes números no futuro. O movimento vai produzir um número crescente de cristãos que enxergam seus objetivos não como salvar almas, mas transformar a sociedade, assumindo o controle das suas instituições.

Acreditamos que são pequenas as probabilidades de a INC controlar as "sete montanhas da cultura". Mas também acreditamos que esse movimento certamente vai chacoalhar o cenário religioso e político por décadas.

26 livros para quem busca 'espiritualidade sem religião'