POLÍTICA

'A farinata não é do mal, ela é do bem', diz criador do PL para erradicar fome

'O projeto não é ruim. Só foi mal explicado e mal interpretado', disse o vereador Gilberto Natalini, criador do projeto sancionado por Doria.

22/10/2017 08:30 -02
Divulgação/TV Bandeirantes/Rosanna Perroti
Natalini defendeu o programa e explicou que a lei 550/2016 não trata da farinata, mas de estabelecer diretrizes para erradicar a fome em São Paulo.

Pouco mais de uma semana de muitas discussões e polêmicas, o prefeito de São Paulo, João Doria, recuou mais uma vez e afirmou que a farinata -- farinha obtida a partir de alimentos que estejam próximos da data de vencimento e seriam descartados -- não será mais usada como complemento na merenda escolar da rede municipal. A ideia é utilizá-la como política pública na área de assistência social.

"A eventual distribuição do composto alimentar do programa denominado Allimento para Todos, no formato de farinata, será de atribuição, principalmente, dos serviços municipais de assistência social", afirma a nota divulgada pela assessoria de imprensa da prefeitura.

A produção e distribuição do granulado faz parte do projeto Alimento para Todos, que segue as normas do projeto de lei do vereador Gilberto Natalini (PV) que institui diretrizes para a Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos - PMEFSA.

Ao HuffPost Brasil, Natalini defendeu o programa e explicou que a lei 550/2016 não trata da farinata, mas, sim, de estabelecer diretrizes para erradicar a fome em São Paulo. "Nossa lei não trata da farinata, nossa lei é muito mais ampla."

O vereador também criticou a discussão "partidária" e "atrapalhada" em torno da farinata, que julgou ser "boa" e mal compreendia. "A discussão focou na forma como foi [o projeto] foi apresentado pelo prefeito e no seu uso", ressalvou.

Apresentada pelo prefeito como a solução para combater o desperdício e, ao mesmo tempo, erradicar a fome na cidade, o composto chamado de "Allimento" esteve no centro dos debates desde a semana passada, quando Doria divulgou um vídeo anunciando sua distribuição e degustando o granulado, bolinhas que foram apelidadas de "ração humana" nas redes sociais. "Este é um produto abençoado", disse o prefeito ao apresentar o produto como solução para erradicar a fome.

Tanto no anúncio da semana passada, quanto no de quarta-feira (18) de que o produto seria utilizado na merenda, Doria se limitou a dizer que o composto seria feito pela Plataforma Sinergia, organização sem fins lucrativos especializada na produção da farinata. Afirmou também que o alimento teria "proteínas, vitaminas, sais minerais", sem informar quais seriam os compostos introduzidos no Allimento.

Rapidamente a polêmica se instaurou nas redes e órgãos como o Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) e o Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo (CRN-3) se posicionaram contra o produto e a forma como a qual foi lançado -- sem rótulos, sem informação nutricional, sem responsáveis por sua fabricação. Segundo eles, distribuir o granulado como política pública contraria leis e o Guia Alimentar da População Brasileira, que dá prioridade a alimentos in natura.

Leia os principais trechos da entrevista com o vereador Gilberto Natalini.

HuffPost Brasil: Qual sua opinião sobre a polêmica que se formou em torno do lançamento do projeto Alimento para Todos?

Gilberto Natalini: Na verdade, há uma grande desinformação e uma grande trapalhada, né? Também uma politização e partidarização de um assunto extremamente sério, que é a fome. Politização, partidarização: isso é o que está acontecendo, na minha opinião.

O que diz o projeto por trás da discussão?

O nosso projeto de lei nº 551/2016, que foi aprovado e sancionado, não fala em farinata, em nenhuma forma específica. Ele propõe diretrizes gerais para políticas públicas de combate ao desperdício de alimento e de combate à fome.

Ou seja, a lei que originou toda essa confusão não fala no composto, não trata desses detalhes, ela dá diretrizes gerais. A parte da lei, da nossa proposta, foi muito bem elaborada e, vamos dizer, é praticamente incriticável, porque quem criticar esse projeto nunca passou fome na vida, não sabe o que é fome e não tem nem compaixão com quem passa fome.

A questão da farinata é que está em pauta -- porque a questão toda se resumiu da farinata, né? Quer dizer, a necessidade de se alimentar ficou para trás, o desperdício de alimento -- 250 mil toneladas de alimento todo santo dia no Brasil -- também ficou pra trás. A discussão focou na forma como [o projeto] foi apresentado pelo prefeito e na farinata. Na minha opinião, foi uma forma um pouco atropelada de apresentar o projeto e o processo.

O que diz o projeto?

Criado em 29 de novembro de 2016, o PL institui e estabelece diretrizes para a política de erradicação da fome em São Paulo, através do manejo, conservação e distribuição de alimentos que estão dentro da validade, inclusive em situações emergenciais e catástrofes. O projeto prevê formas de combater o desperdício de alimentos, por meio de incentivo à pesquisa e desenvolvimento em nutrição e segurança, a racionalização do manejo de alimentos, estímulo à adoção de padrões sustentáveis de produção, entre outros.

Para isso, o plano prevê instrumentos como incentivos econômicos, cadastro e certificação quanto ao cumprimento da função social dos alimentos por empreendimentos, criação de centros de pesquisa dedicados ao desenvolvimento de tecnologias.

Qual sua opinião sobre a farinata?

Eu conheço há dez anos a proposta da farinata. Ela é uma proposta da plataforma Sinergia. E aí tem outro erro e agressão descabida: a plataforma Sinergia não é uma empresa, é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), sem fins lucrativos que pesquisa o composto há muitos anos.

Ela ganhou o apoio da Igreja Católica, através do cardeal de São Paulo [dom Odilo Scherer] e do papa. Ganhou até prêmio da FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura].

Qual a proposta da Sinergia?

Ela processa alimentos que não seriam aproveitados. Por exemplo, o excesso do estoque de um supermercado que não vai ser vendido e caminha para o prazo de vencimento, mas não está vencido. Estes alimentos poderiam ser processados na máquina e transformados na farinata, em uma forma que você pode balancear a dosagem de nutrientes. Então você pode colocar proteína se quiser, sais minerais, vitaminas, açúcar. Ai é produzida a farinha, que é chamada de farinata.

Ela é biologicamente e quimicamente inócua, ou seja, não tem toxidade química e pode ser armazenada numa embalagem a vácuo entre um e dois anos, com garantia. Então poderia pegar quantidades enormes de alimentos que seriam incinerados, porque caminham para o vencimento, ou seriam jogados nos aterros, e processá-los para produzir esse produto que é a farinata.

Com esse produto, você pode fazer uma série de alimentos comestíveis, como bolos, tortas, macarrão, pães, biscoitos, ou usar como complemento numa sopa. É como uma farinha de trigo, mas é balanceada e também dura muito.

Mas a farinata não consta na lei aprovada por Doria.

A farinata não é o objeto da minha lei. Ela é uma das formas que a lei pode ser desenvolvida, mas tem muitas outras formas. Agora, do ponto de vista prático, a farinata é um produto bom.

Ela entrou num turbilhão de disputa política entre oposição e o prefeito e acabou causando uma polêmica que, na minha opinião, é absolutamente prejudicial à discussão saudável do assunto. Inclusive, eu acho, por exemplo, que a merenda escolar tem que ter condição muito boa de alimentação, tanto é que tenho duas leis aprovadas que são extremamente voltadas à saúde alimentar das crianças. Uma lei que está sendo implementada que é a oferta de alimentos orgânicos, aprovada na gestão passada, e outra lei que acabei de aprovar e espera sanção é a que proíbe alimentos embutidos nas refeições das crianças.

Mas a farinata não é do mal, a farinata é boa, ela evita o desperdício de comida que seria incinerada, como é hoje. É mais uma ferramenta, um instrumento para combater a fome e o desperdício de alimento, não é o único, existem outros, nem o principal. Enfim, a nossa lei de diretrizes é muito ampla.

Órgãos de defesa do consumidor e conselhos de nutricionistas não recomendaram o uso deste produto e se dizem desconfiados em relação a quem vai produzir e as informações nutricionais do produto.

Quem vai produzir é a Plataforma Sinergia. Está tudo explicado. Eles [críticos] também se atropelaram em falar mal sem perguntar o que seria. Soltaram opiniões sem saber o que estavam criticando.

Você lembra da médica sanitarista Zilda Arns, pediatra que criou 30 anos atrás a chamada multimistura? Essa médica inventou duas coisinhas básicas: uma foi o soro caseiro e a multimistura. Ela distribuiu pelo Brasil e salvou da fome milhões e milhões de brasileirinhos.

E a multimistura era, vamos dizer assim, percussora da farinata, tecnicamente muito inferior porque não conseguia ser armazenada. A farinata é processada e pode durar muito tempo.

Ninguém falou mal da multimistura, quem falou mal engoliu a língua. E quem falar mal da farinata também vai ter que engolir a língua na hora que souber o que é. A farinata não é do mal, ela é do bem.

Aí você pergunta: e como [o projeto] vai se sustentar? As empresas gastam milhões de reais todos os anos para incinerar alimento que poderia ser aproveitado e elas podem, por um custo muito menor, produzir a farinata, elas podem fornecer o alimento que será criado.

Há desinformação sobre o assunto?

O projeto não é ruim, o projeto é sustentável. O problema é que ele foi mal explicado e mal interpretado. E obviamente criou-se uma polêmica política da oposição contra o Doria.

O Doria não teve paciência para fazer a coisa passo a passo. Ele chegou detonando com aqueles bolinhos na mão, entendeu? [risos] Aí isso foi mal interpretado e essa ideia virou a Geni, todo mundo jogou pedra na Geni.

A farinata virou a Geni, foi uma coisa muito ruim, desagradável, o produto não merece isso. Mas vou repetir a você: nossa lei não trata da farinata, nossa lei é muito mais ampla.

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