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Os massacres que inspiraram o adolescente que matou colegas na escola em Goiânia

No depoimento, o estudante narrou que tinha intenção de matar apenas o colega autor do bullying, mas sentiu vontade de fazer mais vítimas.

21/10/2017 10:21 -02 | Atualizado 21/10/2017 10:42 -02
AFP/Getty Images
Os nomes dos jovens envolvidos não foram divulgados para que as famílias sejam preservadas.

Em entrevista coletiva à imprensa na tarde da última sexta-feira (20), o delegado Luís Gonzaga, da Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais da Polícia Civil de Goiás, confirmou que um adolescente de 14 anos foi o autor do ataque com arma de fogo ocorrido no fim da manhã de ontem, no Colégio Goyases, localizado no bairro Conjunto Riviera, em Goiânia. Dois estudantes da mesma turma do autor do ataque morreram no local, e quatro ficaram feridos.

O estudante já foi ouvido pela polícia. Segundo o delegado, ele afirmou que foi motivado por bullying e disse que se inspirou nos casos da escola de Columbine (ocorrido em 1999, nos Estados Unidos), e de Realengo (em 2011, no Rio de Janeiro). No depoimento, o estudante narrou que tinha intenção de matar apenas o colega autor do bullying contra ele, mas no momento do ataque, sentiu vontade de fazer mais vítimas.

A arma usada no ataque foi uma pistola que pertencia à mãe do adolescente, que é policial militar. Ele disse que achou a pistola escondida em um móvel da casa. Nem a mãe nem o pai, que também é policial militar, ensinaram o adolescente a atirar.

Em 20 de abril de 1999, em Columbine, Colorado (EUA), os alunos Eric Harris e Dylan Klebold mataram 12 alunos e um professor da escola Columbine High School.

Kevin Moloney via Getty Images

Em cerca de uma hora de ataque e terror, eles atiraram e jogaram bombas caseiras na escola e deixaram mais de 20 pessoas feridas. Dylan, de 17 anos e Eric, 18, se mataram na biblioteca depois do ataque.

Em 7 de abril de 2011, o atirador Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu uma escola municipal em Realengo, no Rio de Janeiro, armado com dois revólveres e começou a disparar contra crianças, matando 12 delas, com idade entre 12 e 16 anos, e deixando mais de 13 feridos. Wellington se suicidou depois de ser atingido por um policial, por volta das 8h30 da manhã.

A motivação do crime ainda é incerta, porém Wellington deixou uma carta de suicídio na qual indica que ele sofria bullying. Ele também pesquisava muito sobre atentados terroristas e grupos religiosos fundamentalistas.

Ho New / Reuters

'Bom aluno'

A escola particular Colégio Goyazes, em Goiânia, funciona há cerca de 25 anos no mesmo bairro, com turmas do maternal ao 9ª ano do ensino fundamental. De acordo com estudantes que estavam no local e não quiseram se identificar, vários dos alunos da turma vítima do ataque estão na escola desde a primeira infância.

Os dois filhos de Sandra Oliveira Santos foram alunos do colégio, um deles por dez anos. "Nós estamos dando força para a Tia Rose, para ela entender que estamos do lado dela", disse a mãe dos ex-alunos. Tia Rose é o apelido da diretora do colégio.

Por conhecer os professores e a direção, Sandra acredita não ter havido negligência no caso de bullying relatado pelo adolescente. "A escola tem um sistema bem atualizado em pedagogia, os professores são preparados, a Tia Rose faz questão de trazer projetos inovadores, eu sou coparticipante desses projetos de educação, sei que não deixou de haver projeto de discussão de bullying".

De acordo com o delegado do caso, Luiz Gonzaga, em conversas preliminares na tarde de sexta-feira, pais e professores relataram que o estudante autor dos disparos é bom aluno. "Conversei com o pai, com membros da escola, a coordenadora e professores, era um ótimo aluno, com ótimas notas, nada que denotasse uma prática de um crime tão grave", afirmou. A relação com os pais, segundo o depoimento do estudante, também era boa.

"Este é um caso pontual, temos de entender como um caso pontual, o adolescente agiu com certeza em desequilíbrio emocional, talvez, como ele diz, inspirado em outras tragédias e, claro, segundo ele, motivado por um bullying de um colega específico. Ele resolveu matar esse colega", relatou o delegado responsável por ouvir o adolescente, que foi atendido na presença de seu advogado.

O pai dele também estava presente na oitiva e ambos confirmaram, sem detalhes, que o estudante já passou por tratamento psicológico.

Coordenadora que evitou mais tragédia

Na noite de ontem (20), a coordenadora do colégio prestou depoimento. Ela foi a responsável por acalmar o adolescente após o ataque que deixou dois mortos e quatro feridos no Colégio Goyazes, no bairro Conjunto Riviera.

Ao sair da sala após efetuar os disparos, o estudante encontrou a coordenadora da escola que começou a acalmá-lo. Ele chegou a apontar a arma contra a própria cabeça, mas a coordenadora conseguir evitar o suicídio e convenceu o estudante a esperar a polícia com ela na biblioteca da escola.

Situação das vítimas

De acordo com o diretor técnico do Hospital de Urgências de Goiânia, Ricardo Furtado Mendonça, uma menina de 13 anos está em estado grave na UTI do hospital. Ela foi atingida na mão, pescoço e no tórax. A menina passou por procedimento cirúrgico para drenagem de tórax.

A segunda vítima, também uma adolescente de 13 anos, está consciente e respirando sem aparelhos. Ela teve um pulmão perfurando e passou por cirurgia. A terceira vítima é um menino de 13 anos que está consciente, estável e continua em avaliação. A quarta vítima está no Hospital Acidentados e não teve o boletim médico divulgado.

Os corpos dos dois adolescentes mortos no ataque a tiros no Colégio Goyazes, em Goiânia, serão enterrados na manhã de hoje (21) em cemitérios da cidade. Os corpos foram liberados pelo Instituto Médico Legal (IML) na noite de ontem (20) e estão sendo velados desde a madrugada.

Um dos sepultamentos começoy às 10h no cemitério Parque Memorial, e o outro às 11, no Cemitério Jardim das Palmeiras.

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