ENTRETENIMENTO

'Detroit' é um retrato doloroso e sufocante do crime racista que manchou a história dos EUA

Longa tem direção da vencedora do Oscar Kathryn Bigelow.

20/10/2017 19:04 -02 | Atualizado 20/10/2017 19:13 -02

Kathryn Bigelow foi a primeira mulher a ganhar um Oscar de direção, em 2010, por Guerra ao Terror - filme que retrata o cotidiano dos soldados americanos que eram responsáveis por desarmar armas no Iraque.

Conhecida por construir filmes com uma combinação singular de agilidade e tensão, a diretora americana entrega este ano mais uma obra impactante e novamente permeada por reflexões sociais e políticas. É Detroit em Rebelião, em cartaz nos cinemas.

Na abertura do longa, o espectador é surpreendido por uma colorida sequência feita a partir de uma compilação de pinturas de Jacob Lawrence (1917-2000). Didática, ela serve para contextualizar a trama.

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Em julho de 1967, uma ação policial em um bar de apostas de Detroit recebeu como resposta da população – cansada do racismo cotidiano e do abuso de força policial - um tumulto violento que durou cinco dias. Nesse período, prédios foram incendiados, mais de 7 mil pessoas foram presas 43 foram mortas e outras 700 ficaram feridas.

É nesse contexto que o espectador conhece os personagens principais de Dretroit em Rebelião: um grupo de rapazes negros e duas garotas brancas que decidem passar a noite em um hotel barato, enquanto a cidade borbulha violentamente.

A linha documental assume contorno de drama quando três jovens policiais brancos ouvem disparos saídos do hotel e decidem apanhar a arma e capturar o infrator. Surge aí um personagem que traz uma nova camada para a trama: um rapaz negro que trabalha como segurança de uma loja vizinha ao hotel.

Ele é vivido por John Boyega, da atual sequência de Star Wars. Ciente da brutalidade dos policiais contra cidadãos negros, o rapaz se aproxima dos agentes com a intenção de impedir que o pior aconteça. Entretanto e infelizmente, o pior acontece.

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O objetivo inicial dos policiais de apanhar a arma é rapidamente esquecido e o que o espectador vê na sequência é uma dolorosa sequência de torturas físicas e psicológicas contra o grupo de jovens desarmados. O drama se transforma em horror.

Em crítica ao jornal The New York Times, o jornalista A. O. Scott aponta:

"O filme se esforça em dramatizar o racismo não como uma questão de ações de pessoas ruins (...), mas sim como um fato estruturado na vida americana, um aparelho de poder, exclusão e controle usado contra os negros."

Por longos minutos, o espectador é desafiado a acompanhar a manifestação do racismo como combustível para a brutalidade policial. É difícil ficar inerte à morte de três dos rapazes e o abuso psicológico sofrido pelos que sobrevivem.

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Nesse contexto perturbador, destaca-se a figura do impiedoso policial Krauss, interpretado pelo britânico Will Poulter. Em declarações à imprensa, o ator de 24 revelou que passou por conflitos internos na época das gravações. Ele classificou o personagem como "muito ofensivo e hediondo" e disse ainda que não teve "nenhuma sensação de divertimento ou prazer fazendo o papel".

Apesar de se passar na década de 1960, o filme de Kathryn Bigelow é extremamente atual, tanto no contexto norte-americano (onde ainda ecoa o caso de Ferguson) quanto no brasileiro - onde a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado.

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O caso no qual o filme é baseado ficou conhecido como Incidente do motel Algiers. Na noite de 25 de julho, oito jovens negros e duas moças brancas foram espancados por três policiais brancos. Três desses rapazes negros foram assassinados a tiros.

Os oficiais foram julgados e absolvidos dos crimes.

Assista ao trailer:

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