ENTRETENIMENTO

'Nunca foi tão necessária', diz Lilia Schwarcz sobre sexualidade em exposição no Masp

Curadora-adjunta fala sobre os bastidores da exposição 'Histórias da Sexualidade' que recebe o público a partir desta sexta-feira (20).

19/10/2017 20:36 -02 | Atualizado 19/10/2017 23:18 -02
Divulgação
Obra 'Dia de Ano Novo' (1835) do artista japonês Keisai Eisen.

O Masp (Museu de Arte de São Paulo) inaugura nesta sexta-feira (20) a exposição Histórias da Sexualidade, que reúne mais de 300 obras em nove núcleos temáticos: Corpos Nus, Totemismos, Religiosidades, Performatividades de Gênero, Jogos Sexuais, Mercados Sexuais, Linguagens e Voyeurismos, Políticas do Corpo e Ativismos.

A mostra apresenta desenhos, pinturas, esculturas, vídeos e fotografias de 150 nomes que vão de Picasso a Manet, passando por Renoir, Adriana Varejão, Francis Bacon e Suzanne Valadon.

"A exposição faz parte de um projeto mais amplo desenvolvido pelo Masp e que pretende retomar as várias noções de histórias. Histórias múltiplas e plurais", explica a historiadora Lilia Schwarcz, curadora-adjunta da exposição.

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Do lado esquerda, obra de Pietro Perugino. Ao lado direito, trabalho de Ayrson Heráclito.

Em 2016, o museu realizou a exposição História da Infância e no ano que vem deve promover em parceria com o Instituto Tomie Othake a mostra Histórias Afro-atlântica. Para essa exposição que explora o questão da sexualidade humana, uma equipe de pesquisa foi formada e se debruçou sobre o tema durante dois anos.

Pela primeira vez em 70 anos de história do Masp, a presença de menores, mesmo que acompanhados dos pais ou responsáveis, será vetada em uma mostra. Em nota, o Masp afirma que buscou orientação jurícia que "confirmou a autoclassificação, houve a análise das obras integrantes da exposição Histórias da Sexualidade, à luz dos critérios contidos no Guia Prático de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça, tendo-se concluído que tal exposição deveria ser classificada como não permitida para menores de 18 anos" (veja a nota completa logo abaixo).

A medida ecoa os polêmicos episódios que envolveram o MAM (Museu de Arte Moderna), no qual o museu foi alvo de protestos após a rápida difusão de vídeo em que uma criança aparecia interagindo com artista Wagner Schwartz numa performance em que ele aparecia nu; e da Queermuseu, no Santander Cultural em Porto Alegre – que foi cancelada após protestos nas redes sociais.

Lilia esclarece que a exposição sediada no Masp não tem ligação com a Queermuseu. "A não ser por uma obra que estava na mostra e já estava programada para vir para Histórias da Sexualidade", diz.

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Do lado direito, trabalho de Miguel Angel Rojas. Ao lado esquerdo, pintura de Jean-Auguste-Dominique Ingres.

A historiadora acredita que a exposição chega em um momento positivo, no qual as "políticas de identidade têm feio parte da nossa agenda cidadã e de lutas por direitos civis". No entanto, lamenta que direitos que pareciam assegurados encontrem-se também em risco, o que para ela sinaliza um projeto republicano "tão falhado como incompleto".

Para situar importância da exposição dentro do debate sobre sobre sexualidade, direitos individuais e liberdade de expressão que tomou conta das redes sociais nas últimas semanas, Lilia cita alguns números relacionados à intolerância e o ódio constatados na sociedade brasileira. "O Brasil continua a ser um país desigual, injusto e violento", afirma. Ela lembra as mortes diárias de homossexuais, travesti e transexuais, aponta a morte de uma mulher a cada dois dias vítimas de aborto clandestino e ressalta que a cada 11 minutos um caso de estupro é registrado - sendo que 70% das vitimas são crianças e adolescentes.

"Como se pode notar, essa exposição, como forma de ativismo, nunca foi tão necessária. Mas Histórias da Sexualidade é também necessária por causa da educação sexual que propõe. Ela traz a utopia de um Brasil mais diverso, inclusivo e sem censura às diferentes formas e performances de gênero", conclui a historiadora.

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Obra da pintora mineira Maria Auxiliadora (1938-1974).

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, Heitor Martins, diretor presidente do Masp, afirmou que o objetivo da exposição Histórias da Sexualidade é "promover um debate sério, maduro e inclusivo, cruzando temporalidades, suportes e geografias". No texto, ele analisa que questões como nudez, prostituição, aborto e outras ligadas à sexualidade variam de país para país. "O único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro e o necessário diálogo".

O Masp está preparado caso haja protestos contra a exposição. Lucas Pessoa, diretor de operações do museu, afirma que a instituição espera que as possíveis manifestações ocorram de "forma madura, responsável e democrática". "No entanto, a partir dos protestos contra manifestações artísticas das últimas semanas, tomamos diversas medidas preventivas, que incluem o reforço do time de seguranças, bem como treinamento específico para a equipe de orientadores de público, que fica nas salas expositivas" afirma.

Veja a nota na íntegra:

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP vem a público oferecer esclarecimentos a respeito da classificação indicativa adotada para a exposição Histórias da sexualidade.

O Estado de direito pressupõe que todos os brasileiros, sejam pessoas físicas ou jurídicas, obedeçam àquilo que dispõe a Constituição Federal de 1988, a qual consagra tanto a liberdade de expressão, quanto a proteção prioritária à criança e ao adolescente. Esses princípios constitucionais embasam, de um lado, a vedação a toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística e, de outro, a adoção de medidas de proteção ao menor pela família, pela sociedade e pelo Estado.

Nesse sentido, o MASP buscou orientação jurídica quanto ao enquadramento de exposições como "exibições e apresentações públicas", o que importaria na autoclassificação indicativa, como previsto pelo Ministério da Justiça: "dispensados de análise prévia: espetáculos circenses, espetáculos teatrais, shows musicais e outras exibições e apresentações públicas. Essas devem se autoclassificar segundo os critérios do Manual de Classificação Indicativa e deste Guia Prático, mas estão dispensadas de apresentar requerimento ao Ministério da Justiça".

Uma vez que a orientação jurídica confirmou a autoclassificação, houve a análise das obras integrantes da exposição Histórias da sexualidade, à luz dos critérios contidos no Guia Prático de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça, tendo-se concluído que tal exposição deveria ser classificada como não permitida para menores de 18 anos.

A classificação etária de 18 anos implica a impossibilidade de menores de idade ingressarem na exposição, mesmo acompanhados de seus pais ou responsáveis ou portando autorização específica para tanto, conforme prevê a Portaria no. 368 do Ministério da Justiça: "Art. 8o. A prerrogativa dos pais e responsáveis em autorizar o acesso a obras classificadas para qualquer idade, exceto não recomendadas para menores de dezoito anos, não os desobriga de zelar pela integridade física, mental e moral de seus filhos, tutelados ou curatelados."

Dessa forma, observando a regulamentação vigente e orientação jurídica sobre o tema, o MASP estabeleceu a autoclassificação de 18 anos,restringindo o acesso à referida exposição para menores de idade, mesmo que acompanhados de seus responsáveis. Tal classificação será restrita às galerias da exposição Histórias da sexualidade no 1o andar, 1o subsolo e sala de vídeo. As exposições Guerrilla Girls: gráfica, 1985-2017, Pedro Correia de Araújo: Erótica e Acervo em Transformação, nas galerias do 1º subsolo, 2o subsolo e 2o andar, respectivamente, continuarão abertas ao público em geral, com classificação livre.