ENTRETENIMENTO

'A Guerra dos Sexos': 3 fatos históricos por trás do novo filme de Emma Stone

Longa-metragem aborda a icônica partida de tênis do “feminismo contra o machismo” nos anos 1970.

19/10/2017 12:44 -02 | Atualizado 19/10/2017 12:44 -02
Divulgação
Emma Stone e Steve Carell são Billie Jean King e Bobby Riggs em novo filmes dos diretores de ‘Pequena Miss Sunshine’.

Na noite de 20 de setembro de 1973, aproximadamente noventa milhões de pessoas ao redor do mundo ligaram suas TVs para assistir a uma partida de tênis divulgada como "batalha dos sexos".

Tratava-se de uma disputa entre Billie Jean King, então com 29 anos, e Bobby Riggs, 55, no estádio Astrodome, em Houston, lotado com 30 mil pessoas nas arquibancadas.

Ela era considerada uma "feminista chata" no meio do tênis, por comprar brigas por pagamento igualitário; ele, um "porco chauvinista" assumido com orgulho, cujo machismo o colocava no mesmo nível de um homem das cavernas.

O prêmio em disputa era a quantia de US$ 100 mil, mas o que realmente fez os atletas se enfrentarem diante do mundo todo foi a última palavra. Em paralelo às raquetes e bolinhas, a segunda onda do feminismo seguia intensa.

É o que mostra A Batalha dos Sexos (Battle of the Sexes, 2017), nova comédia dramática do casal de diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris (Pequena Miss Sunshine, Ruby Sparks). Emma Stone, recém-vencedora do Oscar por La La Land, interpreta King, e Steve Carell (The Office), Riggs.

Embora tenham conduzido tudo com um relacionamento amistoso e bem-humorado, os tenistas também trocavam publicamente algumas farpas, por motivos que você já deve imaginar.

Entre uma e outra, longe das câmeras e das quadras, ambos viviam suas crises matrimoniais ou profissionais. O longa-metragem aborda esses momentos e o que antecedeu e motivou a antológica partida — que, independente da política, era de dois dos melhores tenistas do mundo.

Abaixo, alguns fatos essenciais à história incrível de King versus Riggs.

1. A Associação de Tênis Feminino começou com uma rebelião das mulheres

Ted West via Getty Images
15th June 1970: The jubilant American team with the Wightman Cup which they won at Wimbledon for the second year in a row. From left to right - Julie Heldman, Nancy Richey, Doris Hart (non-playing captain), Mary Ann Curtis, Billie-Jean King and Peaches Bartkowicz. (Photo by Ted West/Central Press/Getty Images)

Em 1970, King e as tenistas Nancy Richey, Peaches Bartkowicz, Valerie Ziegenfuss, Kristy Pigeon, Judy Tegart Dalton, Rosemary Casals, Julie Heldman e Kerry Melville Reid, com apoio de Gladys Heldman, fundadora da revista World Tennis, rebelaram-se contra o então campeonato Pacific Southwest — o prêmio do vencedor masculino era uma quantia oito vezes maior que a do prêmio feminino.

O grupo de mulheres tentou um diálogo com o presidente do campeonato, Jack Kramer, mas ele se recusou a igualar as quantias. Foi a gota d'água para as tenistas. Naquela época, elas já eram famosas e consagradas, mas ainda participavam de torneios que não davam pagamento igualitário.

Com Heldman servindo de relações públicas e braço-direito das "nove originais", o grupo anunciou que não participaria do Pacific Southwest e fundou o próprio campeonato de tênis exclusivamente feminino, que recebeu o nome de Virginia Slims Circuit — a marca de cigarros Virginia Slims foi a única a demonstrar interesse em patrocinar. O torneio também foi chamado de Houston Women's Invitation.

A Associação de Tênis dos Estados Unidos (USTA, na sigla em inglês) não reconheceu o Virginia Slims como oficial e, em retaliação, ameaçou bani-las, mas elas decidiram dar continuidade ao Virginia Slims, arriscando suas carreiras no processo.

Elas próprias fizeram a divulgação e a venda de ingressos. Heldman pagou com US$ 5 mil do próprio bolso para que as tenistas pudessem assinar um contrato com o simbólico valor de um dólar.

Rosemary Casals venceu o Virginia Slims. A repercussão trouxe 31 novas tenistas ao torneio naquele mesmo ano. Surgiram aí as raízes da Associação de Tênis Feminino.

2. A batalha dos sexos

Antes da partida, o icônico (e palhaço) Riggs estava em péssimo momento na vida pessoal e na carreira.

Viciado em apostas, foi colocado para fora de casa pela esposa que o sustentava e sentia-se frustrado com o reconhecimento público que recebia. Era história e prêmios demais para lembranças e carinho de menos.

King, por outro lado, estava em seu ápice.

Ele alfinetava o movimento feminista a todo momento em que podia. Para provocar King, que a princípio recusou a proposta feita publicamente de enfrentá-lo na quadra, Riggs desafiou a australiana Margaret Court, rival de King. Foi um massacre: ele a venceu com o placar 6-2 e 6-1.

Foi aí que a coisa ficou séria e a tenista decidiu provar para ele que igualdade de gênero é coisa séria — e ele devia respeitá-la.

3. Billie Jean King venceu a partida

Bettmann Archive

Nas arquibancadas havia torcedores de ambos manifestando-se com paixão. Antes de partida começar, ambos fizeram um show para o público: Riggs entrou na quadra em um riquixá carregado por modelos que usavam um uniforme da Sugar Daddy, a marca de doces que patrocinava o tenista. King, por sua vez, entrou em uma liteira carregada por modelos sem camisa, no melhor estilo Cleópatra.

Riggs a "presenteou" com um gigantesco pirulito e King, em troca, lhe deu um filhote de porco, em uma referência ao título de "porco chauvinista". Enquanto isso, um comentarista dizia que a jogadora era "uma jovem muito atraente".

Após uma partida tensa, Riggs perdeu em três sets. Curiosamente, a estratégia de King foi usar o estilo de jogo dele contra ele próprio. Riggs — que naquela ocasião já tomava mais de 400 pílulas de vitaminas por dia — era bastante defensivo e fazia suas típicas gracinhas. King decidiu cansá-lo na quadra, o que facilitou a vitória. O placar foi 6-4, 6-3 e 6-3.

Riggs desmoronou e ficou enclausurado por quatro horas em seu quarto de hotel. "Foi a pior coisa que já fiz no mundo", disse o jogador.

ABC
ABC SPORTS - PRESS EVENT FOR 'BATTLE OF THE SEXES' TENNIS - On 9/20/73 A crowd of 30,472 and an estimated TV audience of 40 million (the largest ever live audience for a tennis match in primetime) witnessed Billie Jean King, 29, defeat Bobby Riggs, 55, in three straight sets, 6-4, 6-3, 6-3, in the 'Battle of the Sexes'. (Ann Limongello/ABC Photo Archives) talent: BOBBY RIGGS; BILLIE JEAN KING photographer: Ann Limongello credit: ABC source: American Broadcasting Companies, Inc. cap writer: WW/AL

No entanto, ambos deram continuidade ao relacionamento amigável. O documentário Billie Jean King: Portrait of a Pioneer (HBO Sports, 2006) mostra a atleta dizendo que, antes de Riggs morrer, ela disse a ele que o "ama", como reporta o New York Times.

Em entrevista ao Today, ela disse que antes da disputa, ela "sabia tudo" sobre Riggs.

"Ele era um dos meus heróis. Ele era o número um no mundo, ganhou a coroa tripla de Wimbledon em 1939. Então veio a Segunda Guerra Mundial e ele não recebeu a atenção que merecia [depois disso]", contou.

BÔNUS: Billie Jean King tornou-se um ícone dos direitos LGBT

Jason Reed / Reuters

Na época da batalha dos sexos, King teve um romance com uma mulher, embora fosse casada com Larry King. A tenista saiu do armário publicamente apenas em 1981, quando foi processada por uma ex-amante que lhe pediu pensão vitalícia. O episódio a fez perder patrocínio.

Em entrevista à NBC News, ela disse que foi uma experiência "horrível" e foi orientada por seu advogado e assessor de imprensa a não assumir-se ao público como lésbica. No entanto, ela rejeitou o conselho.

"Eu disse: 'Vou fazer isso. Não me importo. É importante para mim dizer a verdade", disse.

Ela fez bastante terapia e apenas aos 51 anos sentiu-se confortável com a ideia de ser homossexual. Foi acolhida pela militância LGBT, à qual ela se juntou orgulhosamente.

Não há dúvidas de que Billie Jean King, hoje com 73 anos e ganhadora da Medalha Presidencial da Liberdade pelas mãos de Barack Obama, é um ícone.

Ela continua a vencer a partida.

A Guerra dos Sexos estreia nesta quinta-feira (19). Tem duração de 121 minutos, classificação indicativa 14 anos e distribuição da Fox Film do Brasil.

Andrea Riseborough, Sarah Silverman e Elisabeth Shue integram o elenco. O roteiro é de Simon Beaufoy (Quem Quer Ser um Milionário?).

Celebridades reagem à Harvey Weinstein