MULHERES

Vamos precisar de mais que #EuTambém para que nossas experiências sejam ouvidas

Precisamos de uma mudança cultural, o que só pode acontecer com um consenso de entendimento.

18/10/2017 19:24 -02 | Atualizado 18/10/2017 19:25 -02

Recentemente, dei uma olhada nas redes sociais, como costumo fazer todos os dias antes de começar a trabalhar. Geralmente passo por alguns anúncios de noivado, posts políticos ou fotos de conhecidos distantes da época do colégio enchendo a cara num brunch no Brooklyn, até ficar entediada e trocar o Facebook pelos emails de trabalho.

Mas naquele dia foi diferente e, como muitos de vocês, o meu Facebook estava cheio de amigas postando duas palavras simples: "eu também".

A #EuTambém virou um grito de guerra para a população feminina. Mulheres de todos os cantos do planeta estão usando a hashtag para falar de suas experiências. Além de sussurros para nossas amigas a portas fechadas, raramente tivemos um lugar adequado para falar de nossas experiências coletivas.

Violência sexual à parte, há tantas outras experiências "eu também" compartilhadas pelas mulheres. São as realidades escondidas que fazem parte do pacote de ser dona de uma vagina. São as coisas que fazemos todos os dias para promover nossa segurança. O que temos de fazer para deixar para lá, para fingir que está tudo bem, ou para manter a pose "cool", para não criar confusão. É uma língua não-falada, uma experiência comum compartilhada pela vasta maioria das mulheres. É uma linguagem que não se manifesta em palavras, mas em experiências compartilhadas que têm impacto em nossas andanças pelo mundo.

Você já deixou pra lá porque "só" foi agarrada num clube? Eu também.

Já foi chamada de "vagabunda" ou pior porque rejeitou uma cantada? Eu também.

Já voltou para casa com chaves entre os dedos, pronta pra dar um soco na cara de quem se aproximasse? Eu também.

Você tem centenas de emails não-lidos na sua caixa postal de homens que querem ser "amigos" ou "te encontrar"? Eu também.

Você já deu uma risada nervosa depois de um ataque sexual, fingindo que não foi doloroso ou aterrador? Eu também.

Você já teve medo de se manifestar com medo de que ninguém te ouviria, ou porque sabia que ninguém seria responsabilizado? Eu também.

Você já enterrou uma história tão fundo que contá-la em voz alta é aterrorizante? Eu também.

Você já andou rápido, depois correu, para fugir de alguém que estava te seguindo? Eu também.

Você já foi a um encontro às cegas e deu as informações do cara para um amigo "caso fosse assassinada"? Eu também.

Você já teve medo de olhar um cara nos olhos por achar que estaria passando a mensagem errada? Eu também.

Você já se preocupou com a roupa que usaria numa entrevista de emprego, com medo de que a saia esteja muito apertada ou o decote vai estar muito ousado e isso vai parecer pouco profissional? Eu também.

Você já teve de ir embora de um lugar porque uma pessoa não te deixava em paz? Eu também.

Você já fez um sinal para uma amiga indicando que "tinha de ir ao banheiro" para fugir de um cara? Eu também.

Você já foi educada com um cara que estava sendo agressivo com você porque teve medo de ser agredida fisicamente? Eu também.

Essas experiências compartilhadas são as narrativas que moldam a vida das mulheres. As maneiras com que interagimos com os outros, as maneiras com que temos um senso de alerta aguçado quando estamos em certos ambientes, tudo isso é influenciado por essas experiências.

Se pudermos transformar esse entendimento em empatia, podemos agir. Pode parecer que esse viral tenha criado a sensação de que todos os homens são culpados. Nem todos eles são parte do problema, mas todo homem é parte da solução. A escala do problema é que não sabemos qual é a escala do problema – e vamos precisar de mais que um #EuTambém no Facebook para que nossas experiências sejam ouvidas.

Os homens têm muito poder para influenciar o futuro do nosso mundo, se puderem aproveitar nossas experiências e ajudar a amplificá-las – e não do ponto de vista de "tenho filhas, então...", nem necessariamente do ponto de vista de "conheço uma mulher que foi abusada sexualmente". Mas sim da perspectiva de "eu reconheço as experiências pelas quais as mulheres passam diariamente e quero fazer tudo o que puder para minimizá-las". Assim, podemos começar a derrubar os sistemas que levam à violência sexual. Assim podemos passar das estatísticas de "1 em cada 3" e passar para "mais de metade da população" que tem uma narrativa dominante, capaz de ter impacto sobre como vivemos nossas vidas.

Os homens também podem ser espectadores atentos. Usando as experiências do #EuTambém para desenvolver uma consciência cognitiva semelhante à nossa, podemos ajudar a desenvolver espectadores inteligentes – que sabem identificar potenciais problemas e ajudam a erguer barreiras de defesa.

Ser um espectador atento não significa ser mansplainer. A maioria dos homens nunca vai entender a experiência cotidiana da mulher, e não precisamos que nos expliquem nossas experiências. Espectadores atentos são bons ouvintes, sabem perguntar às mulheres de suas vidas como podem ter impacto.

É imperativo lembrar que as experiências #EuTambém são só a ponta do iceberg. Também são as histórias silenciosas de milhões de mulheres sem acesso à internet, que passaram por horrores muito piores do que consigo imaginar. A história e a narrativa de toda mulher são importantes, e elas variam dependendo dos nossos contextos culturais. Não estou tirando o impacto das histórias – mas precisamos de uma mudança cultural, o que só pode acontecer com um consenso de entendimento.

Alyssa Chassman é fundadora/diretora executiva da The IDHouse, uma entidade que trabalha para envolver jovens em trabalhos de desenvolvimento internacional – de igualdade de gêneros a educação para todos e água limpa. Siga Chassman no Twitter: @AlyssaChassman

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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