MULHERES

É exatamente por isso que as mulheres não denunciaram Harvey Weinstein antes

Muitos estão criticando as vítimas – as mulheres que foram sexualmente agredidas.

18/10/2017 19:42 -02 | Atualizado 18/10/2017 19:43 -02
AFP/Getty Images
O produtor de cinema americano Harvey Weinstein na 70ª edição do Festival de Cinema de Cannes. 23 de maio de 2017.

Desde que estourou a notícia de que o produtor de Hollywood Harvey Weinstein vem há mais de três décadas pagando pelo silêncio de mulheres que o acusam de agressão sexual, várias mulheres famosas denunciaram publicamente que Weinstein as assediou.

Muitas pessoas nas redes sociais andam manifestando apoio a essas mulheres, mas outras questionam por que elas não vieram a público antes.

(É assustador e difícil de entender por que mulheres poderosas de Hollywood, como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, não denunciaram Weinstein antes.)

Algumas pessoas até colocaram a culpa do que aconteceu nas vítimas, pelo fato de terem feito silêncio.

(As incontáveis mulheres, dezenas ou até CENTENAS, assediadas por Harvey Weinstein prestaram um GRANDE desserviço a mulheres futuras.

Elas não puseram a boca no trombone!)

Em resposta a essas críticas, porém, uma leitora do "New York Times" explicou claramente o que pode levar uma mulher sexualmente atacada a não denunciar a agressão. Dizer que a leitora acertou em cheio é pouco.

(A reação de uma leitora do NYT ao fato de Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie e outras terem dito que Harvey Weinstein as molestou.)

A seguir, a íntegra do que a leitora escreveu:

É desanimador ver tantos comentários criticando mulheres por não "colocarem a boca no trombone". Considere-se uma pessoa de sorte se sua carreira profissional nunca esteve em risco pelo fato de você dormir com seu chefe ou não. Não tem nada a ver com fama ou riqueza; isso acontece com mulheres que trabalham no setor varejista em troca de um salário mínimo e com mulheres que subiram na hierarquia até chegarem a executiva-chefe.

A psicologia por trás desse tipo de coisa não é tão complexa assim, então por favor reserve um instante para refletir: não apenas essas mulheres são humilhadas e submetidas a constrangimento, como, em alguns casos, se denunciam o que aconteceu, elas não apenas nunca poderão voltar a trabalhar, como serão vistas como "frescas", "resmungonas", "sensíveis demais". Tanto Angelina Jolie quanto Gwyneth Paltrow resistiram a Weinstein. Imagine se tivessem criado uma grande confusão sobre isso. A mídia as teria destroçado! "Pelo amor de Deus, um velho sacana deu em cima de você. Você o rejeitou e foi adiante com sua vida. Para que criar essa confusão toda?"

Agora, porém, insistimos em dizer que elas são culpadas por "perpetuarem" o comportamento de Weinstein. Me poupem! A quantidade de dissonância cognitiva que deve ser necessária para culpar as mulheres por sua própria perseguição é espantosa. Observe que os comentários não mencionam o fato de Brad Pitt não ter falado nada, apesar de saber que isso tinha acontecido não com uma namorada dele, mas DUAS.

Não é responsabilidade das mulheres policiar o comportamento dos homens. Estamos fazendo o melhor que podemos, tendo que sobreviver em um mundo que depende de nossa subjugação.

Como a leitora observou, existem várias razões por que uma mulher pode não denunciar um assédio ou violência sofrido, incluindo sentimentos de vergonha, medo de perder sua carreira profissional e medo de não ser ouvida. Por isso, muitos usuários do Twitter destacaram que, em vez de criticar essas mulheres, deveríamos recordar quem é o verdadeiro culpado nesta situação: Harvey Weinstein.

(Você não acredita nas mulheres quando elas denunciam, mas se enfurece com elas e as critica por não terem denunciado antes. O vilão aqui é Harvey Weinstein, não elas.)

(A reação dos homens a Harvey Weinstein é a razão por que mais mulheres não denunciam agressões sexuais.)

Outra voz se somou às muitas celebridades mulheres que denunciaram ter sido vítimas de Weinstein ou se posicionaram como aliadas das vítimas: a do ator e ex-jogador de futebol americano Terry Crews.

Na terça-feira Crews reiterou a razão por que as mulheres não põem a boca no trombone, relatando uma ocasião em que ele foi sexualmente agredido por um executivo de Hollywood.

"Minha mulher e eu estávamos num evento de Hollywood no ano passado e um executivo de alto nível de Hollywood chegou perto de mim e apalpou minha genitália", ele escreveu no Twitter.

Crews disse que deixou o incidente passar porque não queria ser "isolado", já que "o predador tem poder e influência".

Ele manifestou solidariedade com as mulheres que fizeram silêncio sobre o assédio sexual sofrido por parte de Weinstein.

(Eu deixei passar. E entendo por que muitas mulheres com quem isso acontece deixam por isso mesmo.)

(Quem vai acreditar em você? (poucas pessoas). Quais serão as repercussões? (muitas). Você quer voltar a trabalhar? (sim). Você está disposto a ser isolado? (não).)

(Entendo e me solidarizo com quem guardou silêncio. Mas Harvey Weinstein não é o único perpetrador.)

Infelizmente, Crews tem razão quando diz que Weinstein não é o primeiro nem o último a cometer assédio e agressão sexual. Várias outras atrizes no passado, como Thandie Newton e Zoe Kazan, já denunciaram ter sido sexualmente assediadas em testes e no set de filmagem.

Mas o assédio sexual acontece fora de Hollywood também, e a prova disso são os casos como o do ex-apresentador da rede CBC Jian Ghomeshi, em 2014.

(Harvey Weinstein é Jian Ghomeshi em escala maior – elevado a tal nível que ele ficou protegido das consequências de algo que todos sabiam.)

Desde que o "New York Times" publicou a primeira reportagem sobre o histórico de acusações de agressão sexual feitas a Harvey Weinstein, na semana passada, o produtor de cinema foi demitido da The Weinstein Company, que ele co-fundou, e sua mulher, a estilista Georgina Chapman, anunciou que está se separando dele.

Em declaração que deu à "People" na terça-feira, Chapman disse: "Estou com o coração partido por todas as mulheres que sofreram dor tremenda por causa desses atos imperdoáveis. Optei por deixar meu marido."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost CA e traduzido do inglês.

Celebridades reagem à Harvey Weinstein